Mapa de visitantes

quinta-feira, 19 de julho de 2012

As Antigas Folias e Tipos de Danças e Músicas na Musicalidade 2 de Abaetetuba Através dos Anos

A MUSICALIDADE 2 DE ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS
 Conjunto Os Muiraquitãs
Foto do arquivo de
Lial Bentes
A MUSICALIDADE 2 EM ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS

A musicalidade é um dos aspectos da cultura de Abaetetuba que funciona como guardiã de uma rica memória, ainda viva na lembrança de cada filho destas terras que vivenciou os ricos períodos desse aspecto cultural e em muitas de suas vertentes, considerando aspectos dos mitos, do imaginário e da cultura que essas vertentes da musicalidade construíram através dos tempos, como veremos a seguir. Esse aspecto cultural da musicalidade usou suas vertentes como forma de comunicação, de transmissão de mensagens, de histórias que marcaram pra sempre, direta ou indiretamente, a vida de muitas pessoas que ainda são depositárias dessas memórias ou que já estão marcadas nos escritos de nossos historiadores em um rico acervo onde pode se encontrar esses variados aspectos da musicalidade de Abaetetuba.

A música em si nada mais é que um conjunto de sons articulados para formar um discurso poético de sons, vozes e encenações de linguagem transmitida através dos tempos usando de recursos rústicos até chegar aos mais sofisticados, de acordo com o período histórico em questão.

Deste modo a musicalidade torna-se uma importante fonte ou documento histórico da memória sobre o nosso passado, conservado e analisado a partir de pessoas e contextos que  nos permite uma volta a esse passado para o conhecimento de seu meio e dos variados aspectos da musicalidade a ser analisada. 


Caso o autor de alguma foto ou texto não queira referidas fotos e textos nestas postagens,
favor avisar para retirarmos as mesmas. Em contrapartida, temos centenas de fotos e textos
que podem ser copiadas por pesquisadores, estudantes interessados, promotores e autores
científicos e culturais.

A ANTIGA MUSICALIDADE, TIPOS DE DANÇAS E MÚSICAS DE ABAETETUBA ATRAVÉS DOS TEMPOS:

A musicalidade de Abaetetuba iniciou a ser expressa pela linguagem dos sons em forma do bater palmas, arrastar dos pés, dos cantos e danças em movimentos do corpo, em ritmos e danças variadas e o uso de rústicos instrumentos musicais, como força de sentimentos de alegria, religiosidade, saudade e outras formas que foram surgindo no decorrer dos tempos.
No período da catequese e civilização dos indígenas através dos padres missionários, estes instruíam os coros das igrejas que eram formados por índios aldeados e catequizados e moradores das povoações. Em seguida foram se formando as festas populares dos santos, quando essas festas foram se transformando e assimilando outras motivações, como as folias, as esmolações, as danças nas próprias cerimônias religiosas populares e as festas e autos populares das quadras: junina, natalina e outros ritmos folclóricos nativos como o carimbó e outros descritos abaixo.
Alguns desses eventos festivos são citados nestes escritos, conforme nos mostram os livros de autores abaetetubenses, especialmente nos escritos das professoras Maria de Nazaré Carvalho Lobato e sua irmã, Maria do Monte Serrat e dos compêndios de Antonio Braga da Costa Júnior, organizado em livro por Antonio Maria de Souza Santos em “O Imaginário Religioso na Musicalidade dos Artista de Abaetetuba (1930-1955) e pesquisas do autor do Blog, conforme segue:
O BATUQUE, é uma manifestação cultural e mística, de origem africana, onde os negros faziam batuques, batiam palmas, cantavam e dançavam os ritmos da África, como divertimento ou manifestações de seus cultos religiosos e como modo de lembrar a sua terra natal. O batuque era realizado nas antigas senzalas e, posteriormente, nos terreiros em cerimônias recheadas de cantos e danças sensuais, embaladas pelo timbre dos instrumentos de percussão na forma de tambores potentes. Foi o batuque dos africanos que deu origem ao jazz nos Estados Unidos e ao samba no Brasil.

OS DESAFIOS MUSICAIS, que eram utilizados nas brincadeiras das tardes pelos nossos caboclos, após os trabalhos das roças e movidos por goles de cachaça de Abaeté, sentados nas pontes, tirando versos improvisados e acompanhados por violas caipiras. Um exemplo do livro “Eco da Terra”, da professora Maria de Nazaré:
1º cantador:
Sai daí seu fede, fede
Seu catinga de mucura
Enquanto na vida tu fedes
Quem dirá na sepultura.
2º cantador:
Sai daí seu fede, fede
Seu catinga de urubu
Enquanto no corpo tu fedes
Quem dirá na porta do (....)
1º cantador:
Sai daí sua pata choca
Vai te lavar na maré
Uma melhor do que tu
Eu chuto com a ponta do pé.
2º cantador:
Sai daí seu fedorento
Seu catinga de gambá
Deixa de ser tão pirento
Vai na lama te lavar
 
FOLIAS, LADAINHAS E ESMOLAÇÕES:
Alguns dados do texto abaixo foram extraídos dos compêndios de Antonio Braga da Costa Júnior, dos livros de Maria de Nazaré Carvalho e Maria do Monte Serrat, acrescidas das pesquisas feitas pelo autor do Blog.
A influência da cultura portuguesa na musicalidade de Abaetetuba foi marcante. Como o Catolicismo era a religião oficial do colonizador português, também a religiosidade de Abaeté foi assimilada com a DEVOÇÃO AOS SANTOS, que veio da tradição portuguesa. Como na política oficial da colonização do Pará se incluía a participação dos Padres Missionários na catequização dos índios na criação dos inúmeros aldeamentos indígenas do período colonial, do então Grão-Pará e,  posteriormente, com a política de Catequização e Civilazação dos índios do período provincial e início do período republicano do Pará,  a religião e seu sustento eram providas pelos cofres do tesouro da Província do Pará, em política que veio fazer parte dos atos administrativos do Governo. Então, Igreja e Estado faziam parte de uma mesma realidade governamental e a Catequese veio recheada de ensinamentos de catecismo, orações (rezas) e cânticos nas antigas Missões, Povoações, Aldeamentos, Freguesias, Vilas e Cidades do Pará. E cada Freguesia, Vila ou Cidade tinha o seu “Parocho”, sustentado pelo governo, que atuava nas localidades com a antiga tradição de devoção aos santos católicos, prova é que todos os povomanetos antigos tinham o nome de um dos santos acrescidos ao nome de povoamento fundado. Exemplos: Povoamento de Nossa S. da Conceição dos Abaetés, Povoamento de São Miguel do Guamá, etc, que posteriormente se transformavam em freguesias, vilas ou cidades, com algumas localidades conservando o mesmo nome dos santos patronos.
Em Abaeté, cada localidade possuía o seu Santo Padroeiro, sustentado pela fé do povo, para prestar as devidas devoções, que começou a se transformar, no decorrer dos tempos, na Festa do Santo Padroeiro da localidade. As singelas devoções com as rezas e cantos dos primeiros habitantes das localidades, logo foram se transformando em verdadeiros eventos festivo-religiosos e com o acréscimo de muitos outros motivos da cultura dos índios e negros.  Assim começaram a surgir também as FOLIAS DE SANTOS de Abaeté, já existentes em outras localidades do Pará. As FOLIAS DE SANTOS se transformaram em verdadeiras festas populares de Abaeté e que também incorporaram as festas dançantes e outros folguedos, antes e depois das cerimônias religiosas realizadas pelos próprios ribeirinhos ou colonos. Muitas orações e cantos das Folias de Santos de Abaeté foram aprendidas com os antigos padres missionários da era provincial, com os padres seculares vindos da Arquidiocese de Belém do final da era provincial e início da era republicana do século 19, e dos antigos padres capuchinhos das décadas de 1930, 1940, 1950 (foram estes que ensinaram as rezas e cantos em Latim vulgar que até os dias atuais são cantados nas festas de Folias dos Santos de Abaetetuba) até a chegada do Padre Chagas (que também muito ajudou na difusão da devoção popular) até a chegada dos padres xaverianos em 1961.

EVOLUÇÃO DAS FOLIAS DE SANTOS DE ABAETÉ:

Em algumas localidades de Abaeté as Folias foram adquirindo mais consistência e incorporando outros aspectos mais festivos. Os músicos saíam tocando e cantando nas embarcações chamadas reboques, carregando bandeira e o andor do santo da devoção, parando nas casas dos devotos ribeirinhos ou colonos, que já estavam preparados para receber o santo em suas casas e também dar sua contribuição financeira ou material pela visita. Este movimento se chamava Esmolação ou Passeio do Santo ou Tiração de Esmola, peregrinação que antecedia o dia da festa do santo e onde se arredavam recursos e donativos para custear o dia final da festa do santo e as recompensas aos foliões. Os devotos acreditavam que os foliões das esmolações eram verdadeiros guardiões do sagrado, que cantavam as maravilhas de Deus e que levavam a alegria do santo para que todos tivessem a oportunidade de tocar e sentir aquele mistério, que só a fé poderia explicar e todos davam as suas contribuições de variadas formas.

Os grupos de foliões também podiam ser contratados para fazer suas rezas na casa de algum promesseiro, também devoto do santo, que além do grupo de foliões recebia seus vizinhos, parentes, amigos e convidados para a festa, que o promesseiro já tinha organizado em sua casa, com as devidas rezas dos foliões e muita comida e bebida para todos e as festas dançantes ao final das rezas.

Custódio de Melo era um famoso esmoleiro das folias de santos nas ilhas, cidade de Abaeté e localidades vizinhas de outros municípios (Conde, Maiuatá e outras), ajudado por seus familiares. Assim como ele e seu grupo, existiam vários outros grupos de esmoleiros espalhados pelas ilhas e colônias, como Panacuéra, Caripetuba, Assacu, Prainha, Beja, Conde, Maiuatá e outras localidades.

Os grupos de Folias de Santos eram formados por cantadores e tocadores, que se encarregavam da reza da ladainha e outras orações das folias. No fim das rezas o grupo de foliões recebia as recompensas financeiras e materiais, que também repassavam parte para os remeiros do reboque, recursos que também provinham das rendas obtidas nas peregrinações das casas e das amarrações das fitas pelos devotos pagadores de promessas. Eles chegavam pela manhã e ficavam tocando e cantando com pausas, muitas vezes, até o anoitecer, almoçando, jantando e dormindo na casa do devoto pagador de promessa. Geralmente as folias redundavam em festas dançantes ao final das orações.

Nilamon Xavier de Senna, tocava nas festas de santos, folias, ladainhas que compunham a religiosidade popular dos povos das ilhas e na cidade. Tocava nas festas dançantes na cidade e ilhas, nas peças teatrais, cordões juninos, cordões de pássaros (tucano, andorinha, etc), cordões de bois. Era o Nilamon que liderava a parte musical dos cordões juninos.

O grupo da Folia de Nossa S. de Nazaré, em Caripetuba, teve como um de seus fundadores o Sr. Francisco de Assis Gomes Lobato, com 69 anos em 2008, que também era tocador da Folia de S. Miguel de Beja.

O grupo de foliões ficava no local da folia, para tocar no final das rezas, a Festa da Mucura, que em geral ia até o amanhecer do outro dia. No decorrer dos anos, a simples festa da mucura, foi substituída pelas festas dançantes e contando com os conjuntos musicais ou aparelhagens de som. Vide Dança da Mucura, abaixo.
Como a Esmolação do Santo era uma festa popular, quando a comitiva passava por determinado igarapé ou rio, as famílias do local ficavam animadas e tinha gente que vinha de outros lugares para rezar, ver a folia e se confraternizar na festa do santo, que depois se transformava em festa dançante que avançava a noite inteira. Por que era uma festa popular de santo, essa manifestação religiosa, que acontecia mais na Região das Ilhas e Colonias de Abaetetuba, fugia dos parâmetros eclesiais e com rito e estrutura própria. Existem ainda alguns grupos de ribeirinhos que tentam manter essa antiga tradição de Abaetetuba. A Folia de Santo era uma expressão religiosa também existente em outras localidades do Pará.

As Folias de Santos possuíam os seus componentes, como:

·         Os FOLIÕES, todos os componentes do grupo de folia.
·         Os TOCADORES, entre os quais: tamboreiros, violeiros e outros.
·         Os CANTADORES, entre os quais Mestre Sala, e este era quem carregava solenemente o Santo.

E também a imagem do santo (algumas eram enormes imagens esculpidas aqui mesmo em Abaetetuba pelos mestres santeiros locais-vide em Festividades de Santos) e as bandeiras e estandartes ricamente ornamentados com motivos religiosos e as fitas dos santos para o povo beijar em procissão e agradecimento de promessas alcançadas.

Os instrumentos principais das folias: violas (base e solo), rabecas, tambor, cuíca, cheques-cheques, pandeiro e reco-reco. Com o advento dos instrumentos de sopros, estes também foram introduzidos em alguns grupos de folias. As melodias tinham sempre frases repetidas. Muitas melodias eram cantadas em latim vulgar que aprenderam com os frades capuchinhos. A iluminação ficava por conta das lamparinas, velas, candeeiros ou lampiões à gás. Quando começaram a chegar à Abaeté os geradores de eletricidade, algumas festas de Folias de Santos eram realizadas com a iluminação elétrica.

Os instrumentos das Folias de Santos (que também eram chamadas de Tiração de Esmolas) e os instrumentos da Tiração de Reis eram construídos artesanalmente pela intuição do músico ribeirinho. As violas, rabecas e banjos eram feitas em madeira como o acapu e as demais com os materiais que a natureza oferecia, como couros, tabocas, taquari, cabaças e outros.

Letras de algumas músicas das Folias de Santos, conforme citados no livro “Ecos da Terra”, da professora Nazaré Lobato:

Música Convidativa Para o Início da Cerimônia:

1.
Jesus Cristo é nosso amor, Jesus Cristo é nosso viver.
Bom Jesus dos Navegantes, que nós vai aclamar você.

2.
Convidamos os devotos, que vieram pra rezar
Entre nós está o poderoso que vem nos iluminar.

Invocação à Deus:

Oh Deus! Que nos deu a nossa boca para louvar o seu santo nome,/ Purificai nossos corações do mal pensamento./ Iluminai o nosso entendimento conforme a sua vontade./ Para que possa ser de vossa mente./ Que sejamos vistos e bem purificados pelo vosso trono de vossa real majestade/ pelo amor de Jesus Cristo, Deus Nosso Senhor.

Todos concluem, cantando: Amém!

Canto do Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai, cantado em coro entre os foliões e os devotos que respondem, que ainda respondem com a 2ª parte das orações:

Meu Bom Jesus nos assista,/ tenha de nós compaixão/ afaste de nós a peste,/ Jesus do meu coração. Meu Bom Jesus nos assista/ nos conceda milagre Senhor,/ seja pelos inocentes, seja por nós pecadores. Meu Bom Jesus nos assista/ carregador da Santa Cruz,/ nos livrai dos pecados/ bendito seja Jesus.

Segue o Pedido de Perdão, de Joelhos:

Kyrie, eleison. Misericórdiae
Christe, elison
Kyrie, eleison.

Segue a ladainha, com as invocações à Nossa Senhora e a resposta do povo: Orai pro nobis.

Segue-se as músicas para os devotos, em procissão, beijar contritamente o santo e as fitas coloridas do andor e agradecer pelas graças alcançadas.

As Folias de Santos ou Esmolações e os grupos da Tiração de Reis, ainda teimam em subsistir em Abaetetuba sustentadas pelo esforço de alguns, porém sem a devida atenção das autoridades públicas e entidades culturais do município.

Vários santos eram esmolados no município de Abaetetuba, especialmente na Região das Ilhas, sendo os principais: Bom Jesus da Vila de Conde, São Miguel, São João, Santo Antonio, Nossa S. de Nazaré e outros, sendo que cada santo dos elencados era esmolado em várias localidades. Em algumas localidades de Abaetetuba as festas de santos foram adquirindo consistência de uma verdadeira festa popular com círios, fogos, enfeites, levantamento de mastro, reza da ladainha e outros elementos de uma festa popular de santo. Em algumas localidades, após os festejos ou folias de santos, aconteciam as festas dançantes. Vide item abaixo sobre a Festa da Mucura.

AS FESTAS DA MUCURA:

As Folias de Santos de Abaetetuba aconteciam em determinadas localidades pela parte da tarde, devido a falta de iluminação elétrica pelo interior do município. O desfecho das folias de santos, isto é, a reza da ladainha que deveria acontecer pela tardinha do dia da festa.  Essa festa popular chamava a atenção das famílias que acorriam para ver a comitiva passar e também se dirigiam ao local onde se faria a reza das ladainhas cantadas pelo grupo de foliões em latim vulgar. Após as folias, já pela parte da noite os foliões, após o jantar, sentavam-se em um canto do casarão e começavam a “tirar” algumas músicas ao som do tambor, violas, rabecas e cheque-cheque, e aí se iniciava o momento de outra festa, que foi apelidada de FESTA DA MUCURA. Simplesmente os foliões tocavam e o povo presente cantava e dançava ao ritmo improvisado que os músicos faziam, usando também outros meios como o bater de palmas e o arrastapés. Essas festas, também chamadas Bangüê, onde se cantava e dançava de tudo, como forró, marcha, frevo, lundu, chula e outros. Era chamada Festa da Mucura porque acontecia sempre à noite e praticamente no escuro, imitando o animal chamado mucura (gambá), que aqui só sai à noite e possui uma forte catinga. E a catinga da mucura era referida como o bafo dos foliões e brincantes que já tinham tomado vários goles da pinga de Abaetetuba. Algumas Festas da Mucura iam até o amanhecer do outro dia. Mas nem todas as festas seguiam esse esquema, pois existiam as variações de horários.

O certo é que a maioria das festas de santos do interior do município, com o advento da luz dos lampiões, ou geradores de energia elétrica, foram sendo incluídas nas já festas populares dos santos, isto é, festas de santos organizados pelas próprias comunidades. Por que era uma festa popular de santo, essa manifestação religiosa, que acontecia mais na Região das Ilhas e Colonias de Abaetetuba, fugia dos parâmetros eclesiais e com rito e estrutura própria e que depois, com a chegada dos padres xaverianos em 1961 começaram a ser mudadas para festas mais religiosas e menos profanas no sentido dessas festas dançantes.
A FESTA DA MUCURA E SUAS CANTINGAS, citadas no livro “Ecos da Terra”, da professora Maria de Nazaré e dos compêndios de Antonio Braga da Costa Júnior.
A Festa da Mucura ou Banguê, estava associada às festas religiosas das FOLIAS DE SANTOS com suas Esmolações e rezas das ladainhas que aconteciam pelo interior do antigo município de Abaeté. Após o término dessas rezas, os foliões iam para o fundo do casarão e com o tambor, a viola, rabecas, chocalhos, reque-cheque, as palmas e sapateados, improvisavam a brincadeira da MUCURA, onde os foliões tocavam e o povo presente cantava e dançava, ao ritmo que eles faziam em meio de goles de cachaça e que avançava noite adentro. A FESTA DA MUCURA, assim era chamada essa festa improvisada, devido ser realizada somente à noite e se referindo aos hábitos noturnos e cheiro desagradável desse animal (comparado ao bafo da pinga dos brincantes). Inicialmente as festas do interior eram realizadas à luz de velas, lamparinas ou lampiões à gás. Com o advento dos geradores de energia elétrica as festas do interior se tornaram mais concorridas e assumiram o aspecto mais dançante. As festas da Mucura correspondem à 1ª FASE DAS FESTAS DANÇANTES DE ABAETETUBA, com os rítmos do lundu, chula, batuques e seus instrumentos artesanais e rústicos, como violas, banjos, chocalhos e outros e usando os arrastapés e batendo palmas, que eram realizadas pelo interior do município (foram concomitantes aos primeiros conjuntos musicais na forma de jazzes) e eram festas improvisadas e realizadas após as funções religiosas populares das folias de santos do interior do município; Período da 1ª Fase das festas Dançantes de Abaetetuba: perdurou dos anos finais do século 19 até os anos de 1960, quando do aparecimento dos novos ritmos dos anos rebeldes e da contracultura vindos dos EUA e Inglaterra.

As músicas improvisadas nas festas da mucura eram boleros, sambas, marchas, forró, frevos, choros, cantingas e outros. Vide esses gêneros musicais abaixo.
Um exemplo de cantiga usada nas festas da mucura, extraído do livro “Ecos da Terra”, da professora Maria de Nazaré:
1.         
Coro:
Farinha pouca, meu pirão primeiro
Pimenta-de-cheiro, cachaça acabou
Quebrou-se a garrafa, estragou-se o gole
Pescada frita, ninguém almoçou.

1º verso:
Eu fui numa viagem, encontrei um bocado de cisco,
Era seu Raimundo
Bringando com o seu Francisco.

2º verso:
Minha gente venha ver
Coisa que nunca se viu
A cabeça do Inácio
De tão curta já sumiu.

3º verso:
Minha gente venha ver
Coisa de admirar
Me deitei com uma morena
Acordei com um gambá

2.
- Segura o coco Maria/ segura bem não deixa quebrar/
Entra no samba, Maria/
Samba direito que eu quero espiar.
- Seu capitão tinha um filho coronel/
Tem outro na cidade aprendendo pra bacharel/
Tem uma filha praticando pra parteira/
Nunca vi moça tão tola pra falar tanta besteira.

- E lá vai ele/ Lá vai ele/ Lá vai rima
Lá no meio do caminho/
Também vai a minha prima. (bis)

3.
Samba Lelê ta doente
Tá de cabeça amarrada
Matem galinha pra ele
Samba Lelê, não tem nada.

4.
Meu compadre, chegadinho, chegadinho
Minha comadre, chegue mais um bocadinho

Coro:
Camaleão foi a festa com a ceroula sem botão/
Chegou na porta da festa/ a ceroula caiu no chão/
Amarra mulata amarra/ Amarra Camaleão!
Amarra mulata amarra/ amarra de pés e mãos.
As músicas improvisadas nas festas da mucura eram boleros, sambas, marchas, forró, frevos, choros, cantingas e outros. Vide esses gêneros musicais abaixo.
Um exemplo de cantiga usada nas festas da mucura, extraído do livro “Ecos da Terra”, da professora Maria de Nazaré:

 DANÇA DO LUNDU:
A DANÇA DO LUNDU, citada no livro “Ecos da Terra” e no livro de Antonio Braga da Costa Júnior, como canto e dança e uso de castanholas de dedos e requebros, trazida pelos negros africanos e que inicialmente eram executadas nos terrenos das fazendas e nas senzalas, com uso de instrumentos musicais rústicos feitos de troncos de árvores e coro repetido, que se espalhou pelo solo brasileiro. Em Abaeté a dança do lundu era realizada nas Festas da Mucura do interior do município.
Em terras de Abaeté essa festa é antiga e dançava-se o lundu das 5h da manhã em diante, quando se reuniam as pessoas idosas, que mais o apreciavam e era considerada também como a hora das cozinheiras, que surgindo de todos os lados,  enchiam os salões num arrastar de pés e sacolejar de saias, até o dia amanhecer (do livro Ecos da Terra – Maria de Nazaré C. Lobato). Era também dançado nos festejos de santos, como no salão dos Nogueira, na Ilha Campompema, na festa de São Benedito, na casa do Raimundo Belchoara, de Santa Maria, na casa de Dona Maria Farinha, da Senhora de Nazaré, do Sr. Manoelzinho no Curuperé, do Menino Jesus, da Tia Jarja, na casa dos Coforotes e outras localidades de Abaetetuba.

DANÇA DA CHULA:
A DANÇA DA CHULA, dança importada de outros lugares, que no livro “Ecos da Terra”, era dança também usada após as ladainhas, onde os dançantes se reuniam nos salões, ao som de tambores e violas e o cantador tirando versos, seguidos pelos demais que entoavam em coro e dançavam ao mesmo tempo e embalados pelos goles da cachaça de Abaeté. Essa dança usava cantos próprios. Um canto da chula, extraído do mesmo livro:

Canto Tradicional da Chula:
Refrão:
Papai não gosta, a mamãe fica zangada/
Quando eu canto esta chula/
Todos velhos ficam brabos.

Mandei fazer um cavaquinho/ da casca do macucu/
Para ver o meu benzinho/ Lá no rio do Jaburu.

Mandei fazer um cavaquinho/ Da casca do caranguejo/
Para contar os minutos e as horas que não te vejo.

Estas mocinhas de agora/ São caroço de mamão/,
Quando enxergam os namorados/ Querem logo dar a mão.

O FOFOI E FOFÓIA:
Segundo a professora Nazaré Lobato, em seu Livro “Fotolendas”, o fofoi era um folguedo popular realizado nas cerimônias de casamentos dos noradores ribeirinhos, uma espécie de cortejo, que saía em vários barcos enfileirados com os noivos, seus padrinhos e convidados. Era no barco dos noivos que existia um puxador de fofoi, acompanhados por alguns músicos tocadores das antigas violas, curimbós, réco-réco e cheque-cheque. As demais pessoas, em coro, aconpanhavam com o refrão: Aê fofoi. Os versos do canto do fofoi, ora elegiavam, ora tiravam brincadeiras com os noivos e presentes.

Alguns versos de fofoi do livro Fotolendas:

Eu sou filho de uma rosa
Aê fofoi
Nascido de uma roseira
Aê fofoi

Eu não posso desprezar
Aê fofoi
Uma flor que tanto cheira
Aê fofoi

Canto fofoi toda ocasião
Que existe pandeiro
E um bom violão
Fofoi to cantando
Pra homenagear
O casório do Pedro
Com a prima Sinhá.

Já a fofoia é originária das colônias rurais de Abaetetuba e não apresenta letra. São apenas sons lentos e melodiosos, alternados com o coro: Herrô, herrô....Era cantada no tempo das queimadas de matas para alegrar o trabalho pesado das roças e a fofoia era a melodia que ajudava a encontrar os demais companheiros de trabalho.

 Blog do Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa

Nenhum comentário:

Postar um comentário