A MUSICALIDADE 2 DE ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS
Conjunto Os Muiraquitãs
Foto do arquivo de
Lial Bentes
A MUSICALIDADE 2 EM
ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS
A musicalidade é um dos aspectos
da cultura de Abaetetuba que funciona como guardiã de uma rica memória, ainda
viva na lembrança de cada filho destas terras que vivenciou os ricos períodos
desse aspecto cultural e em muitas de suas vertentes, considerando aspectos dos
mitos, do imaginário e da cultura que essas vertentes da musicalidade
construíram através dos tempos, como veremos a seguir. Esse aspecto cultural da
musicalidade usou suas vertentes como forma de comunicação, de transmissão de
mensagens, de histórias que marcaram pra sempre, direta ou indiretamente, a
vida de muitas pessoas que ainda são depositárias dessas memórias ou que já
estão marcadas nos escritos de nossos historiadores em um rico acervo onde pode
se encontrar esses variados aspectos da musicalidade de Abaetetuba.
A música em si nada mais é que um
conjunto de sons articulados para formar um discurso poético de sons, vozes e
encenações de linguagem transmitida através dos tempos usando de recursos
rústicos até chegar aos mais sofisticados, de acordo com o período histórico em
questão.
Deste modo a musicalidade
torna-se uma importante fonte ou documento histórico da memória sobre o nosso
passado, conservado e analisado a partir de pessoas e contextos que nos permite uma volta a esse passado para o
conhecimento de seu meio e dos variados aspectos da musicalidade a ser
analisada.
Caso o autor de alguma foto ou texto não queira referidas fotos e textos nestas postagens,
favor avisar para retirarmos as mesmas. Em contrapartida, temos centenas de fotos e textos
que podem ser copiadas por pesquisadores, estudantes interessados, promotores e autores
científicos e culturais.
A ANTIGA MUSICALIDADE, TIPOS DE DANÇAS E MÚSICAS DE
ABAETETUBA ATRAVÉS DOS TEMPOS:
A musicalidade de Abaetetuba iniciou a ser expressa
pela linguagem dos sons em forma do bater palmas, arrastar dos pés, dos cantos
e danças em movimentos do corpo, em ritmos e danças variadas e o uso de
rústicos instrumentos musicais, como força de sentimentos de alegria, religiosidade,
saudade e outras formas que foram surgindo no decorrer dos tempos.
No período da catequese e civilização dos indígenas
através dos padres missionários, estes instruíam os coros das igrejas que eram
formados por índios aldeados e catequizados e moradores das povoações. Em
seguida foram se formando as festas populares dos santos, quando essas festas
foram se transformando e assimilando outras motivações, como as folias, as
esmolações, as danças nas próprias cerimônias religiosas populares e as festas
e autos populares das quadras: junina, natalina e outros ritmos folclóricos
nativos como o carimbó e outros descritos abaixo.
Alguns desses eventos festivos são citados nestes
escritos, conforme nos mostram os livros de autores abaetetubenses, especialmente
nos escritos das professoras Maria de Nazaré Carvalho Lobato e sua irmã, Maria
do Monte Serrat e dos compêndios de Antonio Braga da Costa Júnior, organizado
em livro por Antonio Maria de Souza Santos em “O Imaginário Religioso na
Musicalidade dos Artista de Abaetetuba (1930-1955) e pesquisas do autor do
Blog, conforme segue:
O BATUQUE, é uma manifestação
cultural e mística, de origem africana, onde os negros faziam batuques, batiam
palmas, cantavam e dançavam os ritmos da África, como divertimento ou
manifestações de seus cultos religiosos e como modo de lembrar a sua terra
natal. O batuque era realizado nas antigas senzalas e, posteriormente, nos
terreiros em cerimônias recheadas de cantos e danças sensuais, embaladas pelo
timbre dos instrumentos de percussão na forma de tambores potentes. Foi o
batuque dos africanos que deu origem ao jazz nos Estados Unidos e ao samba no
Brasil.
OS DESAFIOS MUSICAIS, que eram utilizados nas
brincadeiras das tardes pelos nossos caboclos, após os trabalhos das roças e movidos
por goles de cachaça de Abaeté, sentados nas pontes, tirando versos
improvisados e acompanhados por violas caipiras. Um exemplo do livro “Eco da
Terra”, da professora Maria de Nazaré:
1º cantador:
Sai daí seu fede, fede
Seu catinga de mucura
Enquanto na vida tu fedes
Quem dirá na sepultura.
2º cantador:
Sai daí seu fede, fede
Seu catinga de urubu
Enquanto no corpo tu fedes
Quem dirá na porta do (....)
1º cantador:
Sai daí sua pata choca
Vai te lavar na maré
Uma melhor do que tu
Eu chuto com a ponta do pé.
2º cantador:
Sai daí seu fedorento
Seu catinga de gambá
Deixa de ser tão pirento
Vai na lama te lavar
FOLIAS, LADAINHAS E ESMOLAÇÕES:
Alguns dados do texto abaixo foram extraídos dos
compêndios de Antonio Braga da Costa Júnior, dos livros de Maria de Nazaré
Carvalho e Maria do Monte Serrat, acrescidas das pesquisas feitas pelo autor do
Blog.
A influência da cultura portuguesa na musicalidade
de Abaetetuba foi marcante. Como o Catolicismo era a religião oficial do
colonizador português, também a religiosidade de Abaeté foi assimilada com a
DEVOÇÃO AOS SANTOS, que veio da tradição portuguesa. Como na política oficial
da colonização do Pará se incluía a participação dos Padres Missionários na
catequização dos índios na criação dos inúmeros aldeamentos indígenas do
período colonial, do então Grão-Pará e,
posteriormente, com a política de Catequização e Civilazação dos índios
do período provincial e início do período republicano do Pará, a religião e seu sustento eram providas pelos
cofres do tesouro da Província do Pará, em política que veio fazer parte dos
atos administrativos do Governo. Então, Igreja e Estado faziam parte de uma
mesma realidade governamental e a Catequese veio recheada de ensinamentos de
catecismo, orações (rezas) e cânticos nas antigas Missões, Povoações,
Aldeamentos, Freguesias, Vilas e Cidades do Pará. E cada Freguesia, Vila ou
Cidade tinha o seu “Parocho”, sustentado pelo governo, que atuava nas
localidades com a antiga tradição de devoção aos santos católicos, prova é que
todos os povomanetos antigos tinham o nome de um dos santos acrescidos ao nome
de povoamento fundado. Exemplos: Povoamento de Nossa S. da Conceição dos
Abaetés, Povoamento de São Miguel do Guamá, etc, que posteriormente se
transformavam em freguesias, vilas ou cidades, com algumas localidades
conservando o mesmo nome dos santos patronos.
Em Abaeté, cada localidade
possuía o seu Santo Padroeiro, sustentado pela fé do povo, para prestar as
devidas devoções, que começou a se transformar, no decorrer dos tempos, na
Festa do Santo Padroeiro da localidade. As singelas devoções com as rezas e
cantos dos primeiros habitantes das localidades, logo foram se transformando em
verdadeiros eventos festivo-religiosos e com o acréscimo de muitos outros
motivos da cultura dos índios e negros.
Assim começaram a surgir também as FOLIAS DE SANTOS de Abaeté, já
existentes em outras localidades do Pará. As FOLIAS DE SANTOS se transformaram
em verdadeiras festas populares de Abaeté e que também incorporaram as festas
dançantes e outros folguedos, antes e depois das cerimônias religiosas
realizadas pelos próprios ribeirinhos ou colonos. Muitas orações e cantos das
Folias de Santos de Abaeté foram aprendidas com os antigos padres missionários
da era provincial, com os padres seculares vindos da Arquidiocese de Belém do
final da era provincial e início da era republicana do século 19, e dos antigos
padres capuchinhos das décadas de 1930, 1940, 1950 (foram estes que ensinaram
as rezas e cantos em Latim vulgar que até os dias atuais são cantados nas
festas de Folias dos Santos de Abaetetuba) até a chegada do Padre Chagas (que
também muito ajudou na difusão da devoção popular) até a chegada dos padres
xaverianos em 1961.
EVOLUÇÃO DAS FOLIAS DE SANTOS DE
ABAETÉ:
Em algumas localidades de Abaeté
as Folias foram adquirindo mais consistência e incorporando outros aspectos
mais festivos. Os músicos saíam tocando e cantando nas embarcações chamadas
reboques, carregando bandeira e o andor do santo da devoção, parando nas casas
dos devotos ribeirinhos ou colonos, que já estavam preparados para receber o
santo em suas casas e também dar sua contribuição financeira ou material pela
visita. Este movimento se chamava Esmolação ou Passeio do Santo ou Tiração de
Esmola, peregrinação que antecedia o dia da festa do santo e onde se arredavam
recursos e donativos para custear o dia final da festa do santo e as
recompensas aos foliões. Os devotos acreditavam que os foliões das esmolações
eram verdadeiros guardiões do sagrado, que cantavam as maravilhas de Deus e que
levavam a alegria do santo para que todos tivessem a oportunidade de tocar e
sentir aquele mistério, que só a fé poderia explicar e todos davam as suas
contribuições de variadas formas.
Os grupos de foliões também
podiam ser contratados para fazer suas rezas na casa de algum promesseiro,
também devoto do santo, que além do grupo de foliões recebia seus vizinhos,
parentes, amigos e convidados para a festa, que o promesseiro já tinha
organizado em sua casa, com as devidas rezas dos foliões e muita comida e
bebida para todos e as festas dançantes ao final das rezas.
Custódio de Melo era um famoso
esmoleiro das folias de santos nas ilhas, cidade de Abaeté e localidades
vizinhas de outros municípios (Conde, Maiuatá e outras), ajudado por seus
familiares. Assim como ele e seu grupo, existiam vários outros grupos de
esmoleiros espalhados pelas ilhas e colônias, como Panacuéra, Caripetuba,
Assacu, Prainha, Beja, Conde, Maiuatá e outras localidades.
Os grupos de Folias de Santos
eram formados por cantadores e tocadores, que se encarregavam da reza da
ladainha e outras orações das folias. No fim das rezas o grupo de foliões
recebia as recompensas financeiras e materiais, que também repassavam parte
para os remeiros do reboque, recursos que também provinham das rendas obtidas
nas peregrinações das casas e das amarrações das fitas pelos devotos pagadores
de promessas. Eles chegavam pela manhã e ficavam tocando e cantando com pausas,
muitas vezes, até o anoitecer, almoçando, jantando e dormindo na casa do devoto
pagador de promessa. Geralmente as folias redundavam em festas dançantes ao
final das orações.
Nilamon Xavier de Senna, tocava
nas festas de santos, folias, ladainhas que compunham a religiosidade popular
dos povos das ilhas e na cidade. Tocava nas festas dançantes na cidade e ilhas,
nas peças teatrais, cordões juninos, cordões de pássaros (tucano, andorinha,
etc), cordões de bois. Era o Nilamon que liderava a parte musical dos cordões
juninos.
O grupo da Folia de Nossa S. de
Nazaré, em Caripetuba, teve como um de seus fundadores o Sr. Francisco de Assis
Gomes Lobato, com 69 anos em 2008, que também era tocador da Folia de S. Miguel
de Beja.
O grupo de foliões ficava no
local da folia, para tocar no final das rezas, a Festa da Mucura, que em geral
ia até o amanhecer do outro dia. No decorrer dos anos, a simples festa da
mucura, foi substituída pelas festas dançantes e contando com os conjuntos
musicais ou aparelhagens de som. Vide Dança da Mucura, abaixo.
Como a Esmolação do Santo era uma
festa popular, quando a comitiva passava por determinado igarapé ou rio, as
famílias do local ficavam animadas e tinha gente que vinha de outros lugares
para rezar, ver a folia e se confraternizar na festa do santo, que depois se
transformava em festa dançante que avançava a noite inteira. Por que era uma
festa popular de santo, essa manifestação religiosa, que acontecia mais na
Região das Ilhas e Colonias de Abaetetuba, fugia dos parâmetros eclesiais e com
rito e estrutura própria. Existem ainda alguns grupos de ribeirinhos que tentam
manter essa antiga tradição de Abaetetuba. A Folia de Santo era uma expressão
religiosa também existente em outras localidades do Pará.
As Folias de Santos possuíam os
seus componentes, como:
·
Os FOLIÕES, todos os componentes do grupo de
folia.
·
Os TOCADORES, entre os quais: tamboreiros,
violeiros e outros.
·
Os CANTADORES, entre os quais Mestre Sala, e
este era quem carregava solenemente o Santo.
E também a imagem do santo
(algumas eram enormes imagens esculpidas aqui mesmo em Abaetetuba pelos mestres
santeiros locais-vide em Festividades de Santos) e as bandeiras e estandartes
ricamente ornamentados com motivos religiosos e as fitas dos santos para o povo
beijar em procissão e agradecimento de promessas alcançadas.
Os instrumentos principais das
folias: violas (base e solo), rabecas, tambor, cuíca, cheques-cheques, pandeiro
e reco-reco. Com o advento dos instrumentos de sopros, estes também foram
introduzidos em alguns grupos de folias. As melodias tinham sempre frases
repetidas. Muitas melodias eram cantadas em latim vulgar que aprenderam com os
frades capuchinhos. A iluminação ficava por conta das lamparinas, velas,
candeeiros ou lampiões à gás. Quando começaram a chegar à Abaeté os geradores
de eletricidade, algumas festas de Folias de Santos eram realizadas com a
iluminação elétrica.
Os instrumentos das Folias de
Santos (que também eram chamadas de Tiração de Esmolas) e os instrumentos da Tiração
de Reis eram construídos artesanalmente pela intuição do músico ribeirinho. As
violas, rabecas e banjos eram feitas em madeira como o acapu e as demais com os
materiais que a natureza oferecia, como couros, tabocas, taquari, cabaças e
outros.
Letras de algumas músicas das
Folias de Santos, conforme citados no livro “Ecos da Terra”, da professora
Nazaré Lobato:
Música
Convidativa Para o Início da Cerimônia:
1.
Jesus Cristo é
nosso amor, Jesus Cristo é nosso viver.
Bom Jesus dos
Navegantes, que nós vai aclamar você.
2.
Convidamos os
devotos, que vieram pra rezar
Entre nós está
o poderoso que vem nos iluminar.
Invocação à
Deus:
Oh Deus! Que
nos deu a nossa boca para louvar o seu santo nome,/ Purificai nossos corações
do mal pensamento./ Iluminai o nosso entendimento conforme a sua vontade./ Para
que possa ser de vossa mente./ Que sejamos vistos e bem purificados pelo vosso
trono de vossa real majestade/ pelo amor de Jesus Cristo, Deus Nosso Senhor.
Todos
concluem, cantando: Amém!
Canto do
Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Glória ao Pai, cantado em coro entre os foliões e os
devotos que respondem, que ainda respondem com a 2ª parte das orações:
Meu Bom Jesus
nos assista,/ tenha de nós compaixão/ afaste de nós a peste,/ Jesus do meu
coração. Meu Bom Jesus nos assista/ nos conceda milagre Senhor,/ seja pelos
inocentes, seja por nós pecadores. Meu Bom Jesus nos assista/ carregador da
Santa Cruz,/ nos livrai dos pecados/ bendito seja Jesus.
Segue o Pedido
de Perdão, de Joelhos:
Kyrie, eleison. Misericórdiae
Christe, elison
Kyrie,
eleison.
Segue a
ladainha, com as invocações à Nossa Senhora e a resposta do povo: Orai pro
nobis.
Segue-se as
músicas para os devotos, em procissão, beijar contritamente o santo e as fitas
coloridas do andor e agradecer pelas graças alcançadas.
As Folias de Santos ou Esmolações
e os grupos da Tiração de Reis, ainda teimam em subsistir em Abaetetuba
sustentadas pelo esforço de alguns, porém sem a devida atenção das autoridades
públicas e entidades culturais do município.
Vários santos eram esmolados no
município de Abaetetuba, especialmente na Região das Ilhas, sendo os
principais: Bom Jesus da Vila de Conde, São Miguel, São João, Santo Antonio,
Nossa S. de Nazaré e outros, sendo que cada santo dos elencados era esmolado em
várias localidades. Em algumas localidades de Abaetetuba as festas de santos
foram adquirindo consistência de uma verdadeira festa popular com círios, fogos,
enfeites, levantamento de mastro, reza da ladainha e outros elementos de uma
festa popular de santo. Em algumas localidades, após os festejos ou folias de
santos, aconteciam as festas dançantes. Vide item abaixo sobre a Festa da
Mucura.
AS FESTAS DA MUCURA:
As Folias de Santos de Abaetetuba
aconteciam em determinadas localidades pela parte da tarde, devido a falta de
iluminação elétrica pelo interior do município. O desfecho das folias de
santos, isto é, a reza da ladainha que deveria acontecer pela tardinha do dia
da festa. Essa festa popular chamava a atenção
das famílias que acorriam para ver a comitiva passar e também se dirigiam ao
local onde se faria a reza das ladainhas cantadas pelo grupo de foliões em
latim vulgar. Após as folias, já pela parte da noite os foliões, após o jantar,
sentavam-se em um canto do casarão e começavam a “tirar” algumas músicas ao som
do tambor, violas, rabecas e cheque-cheque, e aí se iniciava o momento de outra
festa, que foi apelidada de FESTA DA MUCURA. Simplesmente os foliões tocavam e
o povo presente cantava e dançava ao ritmo improvisado que os músicos faziam,
usando também outros meios como o bater de palmas e o arrastapés. Essas festas,
também chamadas Bangüê, onde se cantava e dançava de tudo, como forró, marcha,
frevo, lundu, chula e outros. Era chamada Festa da Mucura porque acontecia
sempre à noite e praticamente no escuro, imitando o animal chamado mucura
(gambá), que aqui só sai à noite e possui uma forte catinga. E a catinga da
mucura era referida como o bafo dos foliões e brincantes que já tinham tomado
vários goles da pinga de Abaetetuba. Algumas Festas da Mucura iam até o
amanhecer do outro dia. Mas nem todas as festas seguiam esse esquema, pois
existiam as variações de horários.
O certo é que a maioria das
festas de santos do interior do município, com o advento da luz dos lampiões,
ou geradores de energia elétrica, foram sendo incluídas nas já festas populares
dos santos, isto é, festas de santos organizados pelas próprias comunidades.
Por que era uma festa popular de santo, essa manifestação religiosa, que
acontecia mais na Região das Ilhas e Colonias de Abaetetuba, fugia dos
parâmetros eclesiais e com rito e estrutura própria e que depois, com a chegada
dos padres xaverianos em 1961 começaram a ser mudadas para festas mais
religiosas e menos profanas no sentido dessas festas dançantes.
A FESTA DA MUCURA E SUAS CANTINGAS, citadas no
livro “Ecos da Terra”, da professora Maria de Nazaré e dos compêndios de
Antonio Braga da Costa Júnior.
A Festa da Mucura ou Banguê, estava associada às festas
religiosas das FOLIAS DE SANTOS com suas Esmolações e rezas das ladainhas que
aconteciam pelo interior do antigo município de Abaeté. Após o término dessas
rezas, os foliões iam para o fundo do casarão e com o tambor, a viola, rabecas,
chocalhos, reque-cheque, as palmas e sapateados, improvisavam a brincadeira da
MUCURA, onde os foliões tocavam e o povo presente cantava e dançava, ao ritmo
que eles faziam em meio de goles de cachaça e que avançava noite adentro. A
FESTA DA MUCURA, assim era chamada essa festa improvisada, devido ser realizada
somente à noite e se referindo aos hábitos noturnos e cheiro desagradável desse
animal (comparado ao bafo da pinga dos brincantes). Inicialmente as festas do
interior eram realizadas à luz de velas, lamparinas ou lampiões à gás. Com o
advento dos geradores de energia elétrica as festas do interior se tornaram
mais concorridas e assumiram o aspecto mais dançante. As festas da Mucura
correspondem à 1ª FASE DAS FESTAS DANÇANTES DE ABAETETUBA, com os rítmos do lundu, chula,
batuques e seus instrumentos artesanais e rústicos, como violas, banjos,
chocalhos e outros e usando os arrastapés e batendo palmas, que eram realizadas
pelo interior do município (foram concomitantes aos primeiros conjuntos
musicais na forma de jazzes) e eram festas improvisadas e realizadas após as
funções religiosas populares das folias de santos do interior do município;
Período da 1ª Fase das festas Dançantes de Abaetetuba: perdurou dos anos finais
do século 19 até os anos de 1960, quando do aparecimento dos novos ritmos dos
anos rebeldes e da contracultura vindos dos EUA e Inglaterra.
As músicas improvisadas nas festas da mucura eram
boleros, sambas, marchas, forró, frevos, choros, cantingas e outros. Vide esses
gêneros musicais abaixo.
Um exemplo de cantiga usada nas festas da mucura,
extraído do livro “Ecos da Terra”, da professora Maria de Nazaré:
1.
Coro:
Farinha pouca, meu pirão primeiro
Pimenta-de-cheiro, cachaça acabou
Quebrou-se a garrafa, estragou-se o gole
Pescada frita, ninguém almoçou.
1º verso:
Eu fui numa viagem, encontrei um bocado de cisco,
Era seu Raimundo
Bringando com o seu Francisco.
2º verso:
Minha gente venha ver
Coisa que nunca se viu
A cabeça do Inácio
De tão curta já sumiu.
3º verso:
Minha gente venha ver
Coisa de admirar
Me deitei com uma morena
Acordei com um gambá
2.
- Segura o coco
Maria/ segura bem não deixa quebrar/
Entra no samba,
Maria/
Samba direito que eu
quero espiar.
- Seu capitão tinha
um filho coronel/
Tem outro na cidade
aprendendo pra bacharel/
Tem uma filha
praticando pra parteira/
Nunca vi moça tão
tola pra falar tanta besteira.
- E lá vai ele/ Lá
vai ele/ Lá vai rima
Lá no meio do
caminho/
Também vai a minha
prima. (bis)
3.
Samba Lelê ta doente
Tá de cabeça amarrada
Matem galinha pra ele
Samba Lelê, não tem nada.
4.
Meu compadre,
chegadinho, chegadinho
Minha comadre,
chegue mais um bocadinho
Coro:
Camaleão foi a festa
com a ceroula sem botão/
Chegou na porta da
festa/ a ceroula caiu no chão/
Amarra mulata
amarra/ Amarra Camaleão!
Amarra mulata
amarra/ amarra de pés e mãos.
As músicas improvisadas nas festas da mucura eram
boleros, sambas, marchas, forró, frevos, choros, cantingas e outros. Vide esses
gêneros musicais abaixo.
Um exemplo de cantiga usada nas festas da mucura,
extraído do livro “Ecos da Terra”, da professora Maria de Nazaré:
DANÇA DO LUNDU:
DANÇA DO LUNDU:
A DANÇA DO LUNDU, citada no livro “Ecos da Terra” e
no livro de Antonio Braga da Costa Júnior, como canto e dança e uso de
castanholas de dedos e requebros, trazida pelos negros africanos e que
inicialmente eram executadas nos terrenos das fazendas e nas senzalas, com uso
de instrumentos musicais rústicos feitos de troncos de árvores e coro repetido,
que se espalhou pelo solo brasileiro. Em Abaeté a dança do lundu era realizada
nas Festas da Mucura do interior do município.
Em terras de Abaeté essa festa é antiga e
dançava-se o lundu das 5h da manhã em diante, quando se reuniam as pessoas
idosas, que mais o apreciavam e era considerada também como a hora das
cozinheiras, que surgindo de todos os lados,
enchiam os salões num arrastar de pés e sacolejar de saias, até o dia
amanhecer (do livro Ecos da Terra – Maria de Nazaré C. Lobato). Era também
dançado nos festejos de santos, como no salão dos Nogueira, na Ilha Campompema,
na festa de São Benedito, na casa do Raimundo Belchoara, de Santa Maria, na
casa de Dona Maria Farinha, da Senhora de Nazaré, do Sr. Manoelzinho no
Curuperé, do Menino Jesus, da Tia Jarja, na casa dos Coforotes e outras
localidades de Abaetetuba.
DANÇA DA CHULA:
DANÇA DA CHULA:
A DANÇA DA CHULA, dança importada de outros
lugares, que no livro “Ecos da Terra”, era dança também usada após as
ladainhas, onde os dançantes se reuniam nos salões, ao som de tambores e violas
e o cantador tirando versos, seguidos pelos demais que entoavam em coro e
dançavam ao mesmo tempo e embalados pelos goles da cachaça de Abaeté. Essa
dança usava cantos próprios. Um canto da chula, extraído do mesmo livro:
Canto Tradicional da Chula:
Refrão:
Papai não gosta, a
mamãe fica zangada/
Quando eu canto esta
chula/
Todos velhos ficam
brabos.
Mandei fazer um
cavaquinho/ da casca do macucu/
Para ver o meu
benzinho/ Lá no rio do Jaburu.
Mandei fazer um
cavaquinho/ Da casca do caranguejo/
Para contar os
minutos e as horas que não te vejo.
Estas mocinhas de
agora/ São caroço de mamão/,
Quando enxergam os
namorados/ Querem logo dar a mão.
O FOFOI E FOFÓIA:
Segundo a professora Nazaré Lobato, em seu Livro
“Fotolendas”, o fofoi era um folguedo popular realizado nas cerimônias de
casamentos dos noradores ribeirinhos, uma espécie de cortejo, que saía em
vários barcos enfileirados com os noivos, seus padrinhos e convidados. Era no
barco dos noivos que existia um puxador de fofoi, acompanhados por alguns
músicos tocadores das antigas violas, curimbós, réco-réco e cheque-cheque. As
demais pessoas, em coro, aconpanhavam com o refrão: Aê fofoi. Os versos do
canto do fofoi, ora elegiavam, ora tiravam brincadeiras com os noivos e
presentes.
Alguns versos de fofoi do livro Fotolendas:
Eu sou filho de uma rosa
Aê fofoi
Nascido de uma roseira
Aê fofoi
Eu não posso desprezar
Aê fofoi
Uma flor que tanto cheira
Aê fofoi
Canto fofoi toda ocasião
Que existe pandeiro
E um bom violão
Fofoi to cantando
Pra homenagear
O casório do Pedro
Com a prima Sinhá.
Já a fofoia é originária das colônias rurais de
Abaetetuba e não apresenta letra. São apenas sons lentos e melodiosos,
alternados com o coro: Herrô, herrô....Era cantada no tempo das queimadas de
matas para alegrar o trabalho pesado das roças e a fofoia era a melodia que
ajudava a encontrar os demais companheiros de trabalho.
Blog do Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa

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