Quando vimos os resultados no primeiro turno das eleições em Belém, notamos que um ampla faixa de eleitores que depositaram confiança em candidatos como Úrsula Vidal (Rede-PA) e Carlos Maneschy (PMDB-PA) desejavam uma campanha com discussões e propostas mais qualificadas.
E, como não pretendemos neutralidade alguma por descrença em relação ao projeto político atualmente em vigor no município, escrevemos a alguns pesquisadores e intelectuais que apoiam Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) neste segundo turno, a fim de conhecermos mais das políticas e ações que marcaram as gestões do candidato frente à prefeitura (1997-2004) e fazem do seu atual projeto novamente defensável nestas eleições.
Após a consulta, o fotógrafo e pesquisador Mariano Klautau Filho gentilmente enviou o texto “Belém e o ano 400 – Louvor ao monumento e indiferença ao patrimônio”.
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“O ‘monumento’ dos 400 anos de Belém – especialmente visto em sua composição com o prédio do Banco Central – é um signo contundente da relação estreita com os apagamentos dos patrimônios históricos durante o período ditatorial”, lembra Mariano Klautau no texto especialmente enviado ao blog. @BrendaTaketa
Nessa primeira reflexão partilhada pelo blog, Mariano aborda o abandono pelo governo de espaços do centro histórico da cidade, como o Palacete Pinho, a Travessa Leão XIII, o Largo das Mercês, a Ladeira do Castelo e o Solar da Beira.
Ociosos ou em estado de extrema deterioração, esses prédios e locais históricos poderiam articular instituições e políticas voltadas à produção de cultura em diversos níveis, ao uso coletivo e a atividades de educação, como bem lembra.
Ele também lembra que a interlocução entre a comunidade e o poder público foi perdida nos últimos doze anos de administração municipal.
O resultado disso é que chegamos aos 400 anos de Belém diante de uma cidade em frangalhos, distante do exercício democrático e cuja única preocupação parece ter sido a construção de um ‘monumento comemorativo’ sem a menor consulta à população. Simplesmente imposto à cidade, tal aberração é a metáfora perfeita de um estilo anacrônico importado do auge da ditadura: 12 metros feito de concreto armado, granito e aço (!), bem ao estilo dos tempos de Médici ou Geisel”, aponta, numa reflexão contundente sobre as relações entre ética e estética, entre o patrimônio histórico e o projeto autoritário exercido pelos governos de Belém nos últimos três mandatos de Duciomar Costa (2005-2012) e Zenaldo Coutinho (2012-2016).
Leia na íntegra:

“A impressão que temos é a de distância do dia 12 de janeiro.

No entanto, ainda estamos em 2016, período em que a cidade de Belém completa seus 400 anos de fundação. A capital mais importante do norte do Brasil, cuja história cultural singular possui uma dinâmica que mantém tanto suas potencialidades regionais quanto sua sempre renovada vocação cosmopolita, agoniza a olhos vistos. A cidade dos 400 anos é um índice da indiferença dos seus gestores.

Não há o que comemorar em 2016, ano que se arrasta lentamente por uma administração displicente e preguiçosa. Os sinais de terra devastada são visíveis e o desapego ao patrimônio e ao meio ambiente urbano é crescente há pelo menos uma década.

Belém está sem calçadas, suja, sem lixeiras e sem campanha educativa ou coleta seletiva de lixo. Uma cidade sem árvores, nem projeto efetivo de replantio e arborização. E sem nenhuma perspectiva, se a gestão atual se mantiver por mais quatro anos. Os doze anos de Duciomar Costa e Zenaldo Coutinho foram devastadores para Belém, seu patrimônio urbano, sua riqueza arquitetônica. Muitos são os exemplos, mas podemos citar alguns casos inadmissíveis.

Lembremos do Palacete Pinho, que antes mesmo de inaugurar sua reforma, já começou a se deteriorar mais uma vez.

Foi inaugurado em 2008 sem projeto de uso e hoje continua sem a devida atenção da prefeitura. O Pinho encontra-se fechado; separado da população e portanto entregue a um novo ciclo de abandono. É inacreditável a ausência de preparo intelectual dos profissionais representantes das últimas administrações em relação àquele espaço que custou tanto para ser reformado e poderia tornar-se um bem público voltado para a educação. Uma Escola de Música em parceria com o Conservatório Carlos Gomes ou a Universidade Federal do Pará (UFPA)? Uma Oficina de Artes Visuais em parceria com a Fotoativa e o (extinto) Instituto de Artes do Pará? Ou um centro de residências artísticas abrangendo literatura e audiovisual em parceria com as universidades públicas? Está faltando tutano a essa gente ou seria mesmo absoluto desprezo pelo potencial que a arte tem para a formação da cidadania?

A Travessa Leão XIII, um dos conjuntos mais significativos do centro histórico, jamais recebeu do poder público projeto de revitalização à altura de sua importância arquitetônica.

Hoje o lugar exala um mau cheiro insuportável e parece cenário de guerra após o imenso incêndio que lhe levou um grande pedaço. Quem irá, de fato, fazer alguma coisa pela Leão XIII nesta gestão atual? Essa travessa poderia ser lugar de estudos e pesquisas para alunos de arquitetura e história, articulado a projetos de residência para estudantes, pesquisadores e professores visitantes.
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Travessa Leão XIII, abandonada pelo poder público, imagem em pinhole @Ionaldo Rodrigues

O Largo das Mercês e sua igreja de rara fachada convexa se transformou em acúmulo de lixo.

O largo revela a mentalidade dos gestores da cidade: incapazes de educar, propor alternativas, zelar pelo espaço público e normatizar a ocupação e o fluxo dos carros naquela zona, impõem ao espaço e às pessoas enormes blocos de cimento dispostos precariamente para impedir a subida de automóveis nas calçadas da praça. Além de demonstrar ineficiência e autoritarismo, a atual gestão não sabe sequer valorizar a reforma promovida nos casarões que abrigam a  Secretaria de Finanças (SEFIN), nem dar dignidade à atuação da Associação Fotoativa que ocupa um dos casarões da praça.
A gestão atual de Zenaldo Coutinho não consegue enxergar que dali, do antigo Largo das Mercês, irradia-se para todo o Brasil o trabalho de uma instituição reconhecida por suas atividades educativas e artísticas com a linguagem fotográfica e em prol do patrimônio público. A gestão atual simplesmente não vê que o trabalho da associação promove a cidade há mais de três décadas. Sem conhecimento e consciência histórica não há chance de desenvolvimento.
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Vista do Largo das Mercês, onde hoje enormes blocos de cimento impedem a subida de automóveis nas calçadas da praça @Ionaldo Rodrigues

A Ladeira do Castelo é outro lugar importante para o exercício da dinâmica da cidade, mas está imunda, desprezada e soturna.

Rua emblemática do início da cidade, permanece sem investimento público. Seus sobrados poderiam abrigar espaços de convívio com a cidade: associações de feirantes do Ver-o-Peso, salas de cinema, oficinas de educação patrimonial, albergues e galerias de arte.
Sabe-se que o casario pertencente à Arquidiocese de Belém foi doado à UFPA, e que entre 2010 e 2011 – administração de Duciomar Costa – o Fórum Landi, projeto da universidade federal, estava na coordenação de restauração desse patrimônio, às voltas com projetos da prefeitura submetidos à aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). É surpreendente observar a inoperância de todas as instituições envolvidas. Afinal, já são cinco anos que nos separam desse período. A ladeira que simboliza o início da história da cidade continua sofrendo a indiferença e a ignorância das gestões municipais, estaduais e federais.
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Ladeira do Castelo: pedestres disputam espaço com resíduos e carros @Brenda Taketa

Ainda no Ver-o-Peso temos o descaso vergonhoso com o Solar da Beira.

Reformado e posteriormente ocupado por atividades culturais em gestões públicas entre o final dos anos 1990 e início de 2000. Hoje, o Solar é uma edificação apodrecida no meio da feira. Lembro-me de ter assistido peças de teatro lá e especialmente participado de debates importantes sobre a preservação daquela área em que a comunidade discutia as soluções e melhorias para Cidade Velha e Campina com os representantes dos órgãos de patrimônio histórico.
Tais encontros eram promovidos pela gestão de Edmilson Rodrigues e criavam um ambiente de interlocução necessário e saudável para a construção da cidadania e do valor de pertencimento à cidade. Haviam divergências nos debates, é certo, mas todas muito bem vindas pois fomentavam um processo natural da discussão política.
O último acontecimento que marcou o Solar da Beira, foi a ocupação de artistas e estudantes de arte em maio de 2015. Eles abriram o espaço para questionar seu abandono e reivindicar seu uso para atividades culturais. Foram quase três semanas de ocupação com exposições, música, oficinas, intervenções, visitas de escolas públicas. A prefeitura respondeu à utilização saudável do Solar com uma ordem de reintegração de posse. Uma atitude agressiva que representou a violência com que a gestão municipal tem tratado aquele patrimônio.

A interlocução entre comunidade e o poder público foi perdida nos últimos doze anos de administração municipal.

O resultado disso é que chegamos aos 400 anos de Belém diante de uma cidade em frangalhos, distante do exercício democrático e cuja única preocupação parece ter sido a construção de um “monumento comemorativo” sem a menor consulta à população. Simplesmente imposto à cidade, tal aberração é a metáfora perfeita de um estilo anacrônico importado do auge da ditadura: 12 metros feito de concreto armado, granito e aço (!), bem ao estilo dos tempos de Médici ou Geisel. Curiosamente a construção se harmoniza com o sinistro prédio do Banco Central, aquele que corta brutalmente a volumetria e o desenho do casario da Boulevard Castilho França.

A semelhança estética entre o ‘monumento’ dos 400 anos e o Banco Central não é tão casual como se pode supor, e sim muito sintomática no que se refere à representação do desolamento observado no trato do patrimônio histórico de Belém.

Tanto o ‘monumento’ quanto o banco simbolizam estéticas monolíticas erguidas ao estilo do projeto político desenvolvimentista das ditaduras militares. Tais monumentos e edifícios “modernosos” são reflexos da exterminação das arquiteturas modernas ou coloniais – que formaram a história urbana do país. São muitos os casos ocorridos nas capitais brasileiras, especialmente ao longo da década de 1970.

Em Belém, podemos citar pelo menos dois casos: o “Buraco da Palmeira” e o Hotel Hilton (hoje rebatizado com o esquisito nome de “Princesa Louçã”).

Esses lugares, que antes abrigaram a Fábrica Palmeira – cujas ruínas foram fotografadas por Janduari Simões em 1975 – e o Grande Hotel – construído em 1913 e destruído na segunda metade de 1970 – poderiam, hoje, recontar de modo mais critico a história da cidade. Tanto a Fábrica Palmeira quanto o Grande Hotel eram matéria concreta da história cultural e econômica de Belém. A Palmeira foi um autêntico projeto do empreendimento paraense fundado no final do século XIX: fábrica de massas, doces, biscoitos e chocolate, com moagem e torrefação de café e que incluía uma elegante confeitaria.
O hotel surgiu da influência europeia, nascido da economia da borracha, foi revitalizado no contexto dos anos 1940 sob a lógica da economia norte-americana, interessada em investir na Amazônia. Muitos mais se aprenderia e se pesquisaria com a manutenção desses patrimônios arquitetônicos. Ambos foram apagados do traçado da cidade e se transformaram em cicatrizes silenciosas, invisíveis para o pensamento crítico da comunidade.

O ‘monumento’ dos 400 anos de Belém – especialmente visto em sua composição com o prédio do Banco Central – é um signo contundente da relação estreita com os apagamentos dos patrimônios históricos durante o período ditatorial.

É índice de um modelo de política municipal que não insere o debate, o diálogo e ignora os profissionais e pesquisadores de arquitetura e urbanismo no processo de desenvolvimento da cidade.

A Boulevard Castilho França e a Praça dos Estivadores não precisavam de monumento. O que a prefeitura fez é crime. Descaracterizou um patrimônio que precisava somente de limpeza e reparos.

O dinheiro envolvido nessa construção daria para refazer calçadas do centro histórico, instalar lixeiras na Presidente Vargas, reformar calçadas da Praça das Mercês, enfim, realizar medidas mais eficazes para o patrimônio urbano.
E os representantes dos Departamentos do Patrimônio Histórico  do município e do estado (DPH e DEPHAC, respectivamente) e IPHAN? O que pensaram sobre esse monumento? Qual o papel dessas instituições no momento em que a prefeitura apresentou um projeto desse tipo? O silêncio das instituições e da comunidade foi determinante para que a construção de um horrendo bloco de concreto nos fosse imposta.
Naquele período, início do ano, perto da data de 12 de janeiro o prefeito conseguiu erguer, debaixo de chuva, sua obra tardiamente iniciada. Ele também promoveu shows musicais em homenagem à cidade, cumprindo assim seu papel de político brasileiro forjado nos moldes do personagem de Dias Gomes, o atualíssimo Odorico Paraguassú, uma referência importante para se entender a prática da política brasileira que insiste em inaugurar obras desnecessárias, gastar dinheiro público e ignorar a democracia.

O ‘monumento’ dos 400 anos é um acinte ao patrimônio histórico de Belém. Não será apenas mais um equipamento urbano a obstruir o conhecimento histórico da cidade de Belém e a descaracterizar seu desenho arquitetônico, fato que já é suficientemente predador.

O ‘monumento’ erguido no início deste ano em homenagem aos 400 anos de fundação de Belém também significa o silêncio da população diante dos vários equívocos construídos pelas administrações públicas sem que houvesse uma consulta mínima aos historiadores, arquitetos e urbanistas. O monólito do Zenaldo não é apenas de sua administração. Ele dialoga tanto com o Chapéu do Barata da administração de Hélio Gueiros quanto com a Coluna da Infâmia da gestão de Edmilson na Praça do Operário, cada um abrigando em seu processo diversos e sutis níveis de representação do poder.

É preciso estar alerta para combater esse tipo de ação. É preciso lembrar a necessária relação entre ética e estética.

Estamos em um momento extremamente crítico que significa perdas irreparáveis para a cidade de Belém. Estamos vivendo uma situação que nos exige a retomada elementar do debate democrático e da participação mais ampla da população nas decisões sobre a cidade. E acredito, sinceramente, que o Edmilson Rodrigues seja essa possibilidade de retorno ao diálogo.”
Mariano Klautau Filho é fotógrafo e pesquisador, com doutorado em Artes Visuais pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (Eca-USP).Mora e experimenta o cotidiano de problemas acumulados no bairro histórico da Campina. 
É professor da Universidade da Amazônia e coordenador e curador independente em projetos como “Fotografia Contemporânea Paraense – Panorama 80/90”, “Colóquio Fotografia e Imagem” da Fotoativa e “Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia”. Possui obras em acervos de diversos museus localizados em Curitiba, São Paulo e Belém.
Texto: Mariano Klautau Filho | Edição: Brenda Taketa | Imagens: Blog Rua nos Olhos.