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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Igarapé-Miri 1 - Rios, Engenhos, Cachaça e Outros Aspectos

Igarapé-Miri 1 -  Rios, Engenhos e Outros Aspectos
Igarapé-Miri: A Capital Mundial do Açaí
Bandeiras e Brasões dos municípios do
Baixo Tocantins
A antiga igreja de Santa Ana de Igarapé-Miri/Pa
As Famílias de Igarapé-Miri:
A colonização do Pará se iniciou através das sesmarias concedidas aos colonizadores portugueses e estes, ao se fixarem às margens dos rios do Grão-Pará, iam determinando o surgimento das povoações, que posteriormente dariam origem às freguesias e estas às vilas e cidades.
As regiões do Baixo Tocantins, Marajó (estas situadas em pleno Delta do Amazonas) e as terras do atual Nordeste Paraense, não fugiram a essa regra, onde os colonizadores iam instalando os  povoamentos às margens dos rios do Baixo Tocantins, do Marajó e nos rios Guamá, Acará, Moju, Capim, Igarapé-Miri e tantos outros que serão citados nestas postagens. Esses colonizadores, após as instalações desses povoados e de suas atividades econômicas, não se fixavam apenas em uma localidade, devido seus interesses econômicos que se espalhavam pelas margens dessas vias aquáticas acima citadas e que também constituíam o modo de comunicação e de comercialização dos produtos de suas atividades econômicas, vias que se tornaram importantes no escoamento e comercialização do açúcar, do período colonial e da cachaça dos períodos provincial e republicano do Pará.
As atuais cidades do Baixo Tocantins, devido a presença do Delta Tocantino (região em que a aguá doce se mistura com a água salgada do Oceano Atlântico), sofreram e sofrem as influências dos corpos d’água desse estuário e em vários aspectos de sua vida, especialmente no tocante as atividades econômicas e formação das populações. Abaetetuba, Igarapé-Miri, Cametá e as atuais cidades do Baixo Tocantins estão cercadas de água por todos os lados e os limites são feitos a partir de muitos rios dessa região. No tocante ás populações das cidades, especialmente de Abaetetuba e Igarapé-Miri, foram praticamente às mesmas famílias dos antigos colonizadores portugueses que iniciaram a formaçãos dessas povoações, levados por interesses econômicos, militares, políticos ou religiosos. Se analisarmos bem a origem das famílias de Abaetetuba e Igarapé-miri, iremos encontrar uma ancestralidade comum na formação de suas populações, devido interesses citados. É claro que o colonizador português miscigenou com as populações nativas locais e com a grande população escrava que existia na região, devido às exigências da forma de atividade econômica com que iniciaram a colonização, que foi a agricultura e, em especial, a cultura da cana doce e da indústria canavieira que exigiam muitos braços para esses pesados serviços.
Barcos motorizados incremetaram o
 comércio de regatão do Baixo Tocantins

As Vias Fluviais na Formação das Populações Ribeirinhas e nas Atividades Econômicas do Baixo Tocantins:
Rio por onde escoava a produção
 de cachaça do Baixo Tocantins

RIO TOCANTINS
O rio Tocantins é o mais importante rio da região. È formado pela reunião do Alto-Tocantins com o Rio Araguaia e ambos nascem no Estado de Goiás, o primeiro na Serra dos Pirineus e o segundo no Morro Vermelho da Serra pelada. A extensão do Rio Tocantins é de 2.640km. É na confluência com o Rio Araguaia, 474 km acima da sua barra no Rio Pará, que o Tocantins penetra no território paraense. O chamado Baixo Tocantins é francamente navegável, até a cidade de Tucuruí, que fica na sua margem esquerda. Depois de passar a cidade de Baião, que fica na sua margem direita, o rio divide-se em diversos braços, correndo entre numerosas ilhas.
O Rio Tocantins entra no Rio Pará, a 137 km de Belém. Pela sua margem direita, uns 30 km de Cametá, entra no Furo de Miritipucu, que vai sair no Rio de Igarapé-Miri, onde fica a cidade do mesmo nome. Do Rio de Igarapé-Miri, o canal ou Furo de Igarapé-Miri permite passar para o Rio Moju. Também do Furo  Miritipucu, passa-se para o Ri Abaeté, em cuja margem direita, a 40km de Belém, está a cidade de Abaetetuba, rio muito bom para a navegação, com uma profundidade superior a 12 metros.
O Rio Tocantins faz limite com o Oeste de Abaetetuba, através de sua foz, junto com Limoeiro do Ajuru, Cametá e a Baia de Marapatá, com a cidade de Abaetetuba: começa da foz do Rio Maúba, segue pela costa da margem deste rio e pela Baía de Marapatá, até a foz do Tocantins, no Rio Pará.

RIO PARÁ
Abaetetuba limita-se ao Norte com a Baía do Marajó, Barcarena e Rio Pará. O Rio Pará nasce na região das Ilhas do Pará e deságua entre o Cabo Maguari e a ponta Curuçá, no Oceano Atlâtico, é um dos principais formadores da Baía do Marajó. Através do estreito de Breves, e une-se ao Rio Amazonas separando a Ilha do Marajó do continente e divide Abaetetuba dos municípios de Muaná e Ponta de Pedras.

BAIA DE MARAPATÁ
Faz limite com o Oeste de Abaetetuba, junto com Limoeiro do Ajuru, Cametá e a Foz do Rio Amazonas, com a cidade de Abaetetuba.

BAIA DO MARAJÓ
Abaetetuba limita-se ao Norte com a Baía do Marajó, Barcarena e Rio Pará

RIO MOJU
Faz limite, juntamente com a cidade de Moju, à Leste, com o município de Abaetetuba.

FURO DO INFERNO
O furo do Inferno é importante como limite de Abaeté. Esse furo fica nos limites com o município de Igarapé-Miri.

FURO TUCUMANDUBA
O Furo Tucumanduba é Importante como limite para Abaeté: Limita com o município de Igarapé-Miri: começa nas cabeceiras do Rio Mocajatuba, destas, alcança, por uma reta,  as cabeceiras do Rio Itanimbuca; desce por este até o furo do Inferno, pelo qual segue até sair no rio Meruú, o qual atravessa para a boca do furo Camarãoquara, pelo qual também segue até a sua foz, no furo Tucumanduba e segue por esse furo até encontrar o furo do Pinheiro e por este até a sua boca, no furo Itaboca, pelo qual continua até sair no furo Panacuéra e por este último até sair no rio Mahuba, pelo qual desce até a sua foz no rio Tocantins.

RIO ITANIMBUCA
O rio Itanimbuca fica nos limites com o município de Igarapé-Miri. É importante por que serve de limite natural de Abaeté, à Sudoeste, com o município de Igarapé-Miri e limita, a nordeste, com Abaetetuba.

Limites de Abaetetuba Com os Municípios do Baixo Tocantins e Marajó
Com a Baía de Marapatá, os limites se fazem através da foz, pela sua margem direita, chegando até a foz do Furo Mahúba, na mesma margem direita até o Rio Pará.
Com o Rio Pará e a Baía do Marajó, os limites começam na foz do Rio, seguindo pela margem direita desse rio até a Costa do rio Uiarenga.
Com o município de Belém, os limites se fazem pela foz do Rio Uiarenga, na baía do Marajó, seguindo por esse rio até as nascentes do Rio Uiarenga, nas margens nascentes do igarapé Cabresto, afluente esquerdo do Rio Moju.

Abaeté limita com o município de Igarapé-Miri, começando o limite nas cabeceiras do Rio Mocajatuba, destas, alcança, por uma reta, as cabeceiras do rio Itanimbuca; desce por este até o furo do Inferno, pelo qual segue até sair no rio Meruú, o qual atravessa para a boca do furo Camarãoquara, pelo qual também segue até a sua foz, no furo Tucumanduba e segue por esse furo até encontrar o Furo do Pinheiro e por este até a sua boca, no Furo Itaboca, pelo qual continua até sair no Furo Panacuéra e por este último até sair no Rio Mahuba, pelo qual desce até a sua foz no rio Tocantins.

O Rio Maúba, afluente do Rio Tocantins, também é importante pelo limite que estabelece com os município vizinhos de Igarapé-Miri e Cametá/Pa.

Essas vias navegáveis e outras tantas, como os rios Amazonas (incluindo os afluentes do Delta Amazônico e os do Alto e Baixo Amazonas), Capim, Guamá, Acará, Moju, Igarapé-Miri, serão mencionados intensamente nestas postagens devido os limites estabelecidos entre os municípios mencionados, a cultura da cana doce espalhada pelas margens desses rios, a indústria canavieira também nas terras das margens dos rios e o comércio de regatão que existe desde os primórdios da colonização do Grão-Pará e que atravessou esse período, alcançando os períodos provincial, republicano e até nossos dias.

Obs: As vias fluviais de Abaetetuba já foram mencionadas em postagens anteriores e nos ateremos na menção das vias fluviais do município de Igarapé-Miri e alguns das cidades vizinhas à Abaetetuba e Igarapé-Miri.

O Ciclo da Cana-de-Açúcar  no Pará

Canavieiro do Baixo Tocantins
imortalizado em obra de
Ray Cardoso
Parte superior do formulário
O ciclo da cana-de-açúcar no Pará (séculos 16 a 17) se mostrou bastante forte em algumas localidades, especialmente nas terras banhadas pelos rios Guamá, Acará, Moju, Capim, Igarapé-Miri e outras localidades do período colonial e provincial. Nesse ciclo da cana doce a produção de açúcar foi como que a 1ª Fase da Indústria Canavieira no Baixo Tocantins e,  Igarapé-Miri,  já aparece no rol das localidades que possuíam grandes engenhos para a produção de açúcar nas décadas finais do século 18 e décadas iniciais do século 19, quando termina o período colonial do Pará (que vai de 1615 a 1820).

Nos anos finais do século 18 e anos iniciais do século 19, os membros da Família Correa de Miranda e outras famílias de Abaetetuba e Igarapé-Miri já são citados como donos de engenhos na produção de açúcar para abastecer a Capital (Santa Maria de Belém do Pará) e, principalmente, na exportação para Portugal, nação do qual o Brasil fazia parte como colônia da Coroa Portuguesa. Membros da família Correa de Miranda e de outras antigas famílias de Igarapé-Miri possuíam engenhos de cana-de-açúcar na então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Abaeté, devido a proximidade desses dois municípios e dos interesses econômicos, que praticamente eram os mesmos e vindos desde as décadas finais do século 18.
Nos anos finais do século 19 e início do século 20 a indústria canavieira e os produtos do extrativismo animal e vegetal ainda apareciam na produção econômica de Igarapé-Miri e Abaetetuba, mesmo que o ciclo açucareiro no Grão-Pará já estivesse em pleno declínio, conforme atesta a história dos grandes engenhos de açúcar citados às margens dos rios Acará, Guamá, Capim, Moju, Igarapé-Miri e outros rios, deles hoje só restando a história e algumas ruínas.
O comércio de regatão já existia no Baixo Tocantins, Marajó e demais regiões banhadas pelos numerososos rios das bacias amazônicas, e feito por pequenas embarcações tipo botes, batelões e canoas à vela. Mas foi nas décadas iniciais do século 20 que esse tipo de comércio incrementou a venda da cachaça e dos produtos das olarias, que eram trocadas por pirarucu, peixes secos, farinha, couros de animais silvestres e outros produtos que se tornaram tradicionais no comércio de regatão do Baixo Tocantins e que vieram contribuir no desenvolvimento e crescimento das economias de Abaetetuba e Igarapé-Miri, agora também com o uso de embarcações maiores e muitas já motorizadas, que muito contribuíram no desenvolvimento econômico de muitas famílias desses dois municípios.

Uma citação de 1867:
A cultura da cana vai se tornando importante pela considerável produção e extração da aguardente, que vem despertando o interesse dos produtores e quanto ao açúcar, ainda existe uma pequena produção que não atende ao mercado consumidor local, obrigando a Provínica a fazer uma grande importação desse produto de outras regiões do Brasil.

O Fim do Ciclo Açucareiro no Pará, o Advento do Ciclo da Cachaça no Baixo Tocantins e o Declínio dos Engenhos

Após o declínio do ciclo açucareiro no Pará, os engenhos de cana-de-açúcar de Igarapé-Miri e Abaetetuba continuaram suas atividades na produção de açúcar e cachaça (o açúcar já proibido pelo governo central do Brasil na 1ª metade do século 20 e aqui se inicia a 2ª Fase da Indústria Canavieira no Baixo Tocantins, fato que impediu um maior desenvolvimento econômico do Baixo Tocantins, pois os engenhos só podiam produzir uma ridícula cota mínima de açúcar).

Porém, antes mesmo dessa proibição, a indústria canavieira tinha se diversificado, produzindo, além da cota mínima de açúcar, uma maior quantidade de aguardente de cana (cachaça), o mel de cana (melaço), a rapadura e outros produtos advindos da cana verde. Ressalte-se o fato de que os engenhos do Baixo Tocantins começaram a sentir que a cachaça já vinha tendo grande aceitação em todas as camadas da sociedade, especialmente entre os seringueiros, os negros escravos, os indígenas e seus descendentes miscigenados, das populações ribeirinhas do Pará, Amazonas, Macapá e Acre e até da elite dos grandes centros, que também consumiam largamente a cachaça produzida principalmente em Igarapé-Miri e Abaetetuba, fazendo com que o seu consumo aumentasse consideravelmente nas primeiras décadas do século 20 e até sua 1ª metade e, em consequência aconteceu o aumento dos canaviais e da quantidade dos engenhos. E foi nesse contexto que a produção da cachaça do Baixo Tocantins começou a alcançar as outras regiões do Pará, como as populações ribeirinhas do Rio Amazonas e seus afluentes, através das embarcações do comércio de regatão.

A Cachaça e os Outros Produtos da Indústria Cerâmica e do Extrativismo e o Comércio de Regatão
A cachaça, junto com os produtos advindos da indústria cerâmica, da atividade pesqueira, do extrativismo animal e vegetal, foram os principais produtos que impulsionaram o Comércio de Regatão do Baixo Tocantins, sendo esta a maneira que os donos de engenhos encontraram para desenvolver seus negócios. Geralmente os donos de engenhos de cana-de-açúcar do Baixo Tocantins, especialmente de Igarapé-Miri e Abaetetuba, atrelavam os negócios da indústria canavieira às atividades de comércio e navegação, criando a tríade de negócios da indústria-comércio-navegação, que se juntava, em alguns casos, aos negócios da indústria de cerâmica, das serrarias, das fábricas de refrigerantes, das usinas de beneficiamento de sementes oleaginosas, da indústria do sabão, dos empórios comerciais, etc, em fórmula seguida pelos donos de engenhos mais abastados, tendo alguns destes se destacado economicamente e, antes da grande crise da cachaça (anos finais de 1975) se estabeleceram nas cidades do Baixo Tocantins e, especialmente, na Capital do Estado, Belém/Pa, hoje desfrutando de sólidos negócios no Estado do Pará.

O açaí veio substituir a cana-de-açúcar
na economia de Igarapé-Miri
fazendo desse município a
 Capital Mundial do Açaí
Antes do declínio da indústria canavieira e, consequentemente, do comércio de regatão, reinava a prosperidade e riquezas nos municípios de igarapé-Miri e Abaetetuba. E como a indústria canavieira exigia muitos braços para os seus variados serviços, recorreu-se ao trabalho escravo, inicialmente através dos indígenas da região e, posteriormente, dos braços dos escravos negros vindos da Africa e nogociados às centenas de indivíduos para trabalhar nos pesados serviços da indústria canavieira (no ciclo açucareiro do Pará).

O Regime Paternalista dos Donos de Engenhos e a Derrocada da Indústria Canavieira do Baixo Tocantins:
Com o fim da escravidão negra no Brasil em 1888, os donos de engenhos do Baixo Tocantins tiveram que recorrer aos braços dos lavradores ribeirinhos (canavieiros) para dar continuidade aos serviços nos engenhos e canaviais. Foi com os braços desses lavradores (canavieiros) que a produção de cachaça se desenvolveu no Baixo Tocantins a partir das décadas finais do século 19, tendo avançado para o século 20 com o mesmo sistema de tutela dos donos de engenhos com os lavradores, empregados e ainda envolvendo as famílias desses trabalhadores em atividades variadas de seus negócios.

Foi através do sistema paternalista, onde os donos de engenhos mantinham economicamente seus empregados e lavradores a si atrelados, quando muitos enriqueceram na produção e comercialização da cachaça no Baixo Tocantins. Nesse sistema de tutela dos empregados e suas famílias pelos patrões, onde não existia a regularização empregatícia dos lavradores e nem a circulação de dinheiro e sim o sistema de aviamentos na cultura da cana e nos trabalhos dos engenhos (os trabalhadores recebiam apenas os materiais de trabalho e gêneros alimentícios e outros, anotados em cadernos, em troca dos trabalhos desenvolvidos), sistema que foi um dos fatores para a derrocada da indústria canavieira do Baixo Tocantins. Como não existia o vínculo empregatício entre patrões e empregados, em 1973, com a chegada da Justiça do Trabalho, uma grande parte dos donos de engenhos teve que se desfazer de seus bens para o pagamento das indenizações de empregados, que argumentavam possuir 10, 20 até 30 anos de serviços nos engenhos (claro, agindo de má fé e induzidos por espertos advogados que muito lucraram com a derrocada da indústria canavieira de Abaetetuba e igarapé-Miri).

O Ciclo da Borracha e os Engenhos do Baixo Tocantins
Com o desenvolvimento da extração do látex das seringueiras nativas da Amazônia a partir dos anos de 1840, incluindo os seringais do Baixo Tocantins e Marajó e com as riquezas que essa atividade proporcionava aos comerciantes, os ribeirinhos, iludidos pela possibilidade de riquezas fácil e rápida, migravam em massa rumo aos seringais localizados no meio das florestas na época da colheita do látex, deixando muitas localidades desprovidas de braços para desenvolver as demais atividades das lavouras com os produtos que abasteciam a Capital da Província e os demais mercados da Amazônia, fato que gerava o desabastecimento de gêneros e que obrigava os governantes do Ciclo da Borracha a importar de outros estados os produtos que as lavouras do Pará já não mais produziam. Porém, mesmo no Ciclo da Borracha no Pará (auge entre 1879 a 1912) a produção canavieira do Baixo Tocantins, não sofreu os abalos que outras localidades sentiram, com a falta de braços para tocar as atividades da agricultura na Província do Pará, (Província do Pará: 1821 a 1889, quando da independência do Brasil da Coroa Portuguesa) e mesmo nas primeiras décadas do Período Republicano.

Cachaça, o Principal Produto do Comércio de Regatão do Baixo Tocantins
Pela imensidão do território da Província do Pará e pela presença de centenas de vias navegáveis, o comércio de regatão começou a ser praticado no período colonial do Pará e se estendeu para o período provincial, em comércio praticado através de botes, batelões e, posteriormente, de canoas à vela. Esse comércio consistia em se levar produtos  manufaturados e trocá-los pelos produtos do extrativismo animal e vegetal praticado pelos indígenas, sendo estes, por sua ingenuidade e falta de práticas comerciais, largamente logrados pelos primeiros comerciantes de regatão da Província do Pará.

Existem citações em documentos provinciais que descrevem o contexto desse comércio e a iniciativa governamental em tentar proibir o comércio feito pelos rios da Província:
Ano de 1852, quando era presidente da Província do Pará, o Dr. José Joaquim da Cunha, que escreveu: “Foi decretada uma lei que proibe o Comércio de Regatão, porém privou indivíduos que habitando grandes distâncias das povoações e que as obrigam a ir a estas para vender e comprar, fazendo com que isso gerasse mais despesas, incômodos, riscos de vida, abandono de suas famílias que também ficavam sujeitas aos riscos e os coletores e extratores das florestas perdiam grande tempo nessas viagens. Este comércio não deve ser proibido e sim regularizado”.

Motivos pelo qual foi decretada referida lei: “O abuso dos comerciantes de regatão com os índios, que eram lesados nas trocas, maltrados pelos comerciantes e sempre enganados nas negociações”. 

E o comércio de regatão seguiu seu curso e no Baixo Tocantins, Ilha do Marajó, região do Salgado, terras banhadas pelos rios Acará, Capim, Moju, Guamá, Igarapé-Miri, Baixo Amazonas e Capital da Província, onde era praticado em larga escala em embarcações à vapor e, posteriormente, embarcações movidas à motor de óleo díesel.

Foi o comércio de regatão que alavancou a Indústria Canavieira do Baixo Tocantins, especialmente nos municípios de Abaetetuba e Igarapé-Miri.
A Cachaça no Comércio de Regatão:

A família Correa de Miranda
se destacou nas atividades
da antiga indústria canavieira
de Igarapé-Miri, Abaetetuba e
Moju no Pará
E foi realmente a cachaça o carro-chefe do comércio de regatão que esses dois municípios intensificaram já a partir das últimas décadas do século 19 e no século 20 até os anos finais da década de 1970, quando esse comércio começou também a ser atingido pela crise da cachaça dessa fatídica década. Os comerciantes de regatão do Baixo Tocantins seguiam com seus barcos comercializando seus produtos pelas localidades situadas nas margens dos rios do Baixo Tocantins, Marajó, localidades do Baixo Amazonas, pela região do Salgado e pelas margens dos rios Capim, Guamá, Acará, Moju, Igarapé Miri, nas capitais dos estados do Pará, Amazonas, Amapá, pelo rio Oiapoque, chegando até o estado do Acre. Foi a indústria canavieira (especialmente a cachaça) e o comércio de regatão que impulsionaram a prosperidade de muitas famílias de Igarapé-Miri e Abaetetuba, famílias essas que também deram origem aos tradicionais clãs famíliares desses dois municípios, algumas das quais aqui enumeramos.
Pelas mesmas características de produção econômica da indústria canavieira e do comércio de regatão, as famílias que exploravam esses negócios mantinham seus interesses comerciais tanto em um, quanto em outro desses dois municípios, fato que também leva ao fenômeno das antigas famílias de Abaetetuba e Igarapé-Miri possuírem a ancestralidade comum das famílias que constituíram as populações atuais desses dois municípios.

Blog do Prof. Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Igarapé-Miri 2 - Engenhos, Genealogias e Outros Aspectos

Igarapé-Miri 2 - Engenhos, Genealogias e Outros Aspectos
                                  Bandeiras e brasões dos municípios do
Baixo Tocantins
Esta postagem se encontra em fase de acréscimos de novas informações e nomes
A colonização do Pará se iniciou através das sesmarias concedidas aos colonizadores portugueses e estes, ao se fixarem às margens dos rios do Grão-Pará, iam determinando o surgimento das povoações, que posteriormente dariam origem às freguesias e estas às vilas e cidades.
As regiões do Baixo Tocantins, Marajó (estas situadas em pleno Delta do Amazonas) e as terras do atual Nordeste Paraense, não fugiram a essa regra, onde os colonizadores iam instalando os  povoamentos às margens dos rios do Baixo Tocantins, do Marajó e nos rios Guamá, Acará, Moju, Capim, Igarapé-Miri e tantos outros que serão citados nestas postagens. Esses colonizadores, após as instalações desses povoados e de suas atividades econômicas, não se fixavam apenas em uma localidade, devido seus interesses econômicos que se espalhavam pelas margens dessas vias aquáticas acima citadas e que também constituíam o modo de comunicação e de comercialização dos produtos de suas atividades econômicas, vias que se tornaram importantes no escoamento e comercialização do açúcar, do período colonial e da cachaça dos períodos provincial e republicano do Pará.
As atuais cidades do Baixo Tocantins, devido a presença do Delta Tocantino (região em que a aguá doce se mistura com a água salgada do Oceano Atlântico), sofreram e sofrem as influências dos corpos d’água desse estuário e em vários aspectos de sua vida, especialmente no tocante as atividades econômicas e formação das populações. Abaetetuba, Igarapé-Miri, Cametá e as atuais cidades do Baixo Tocantins estão cercadas de água por todos os lados e os limites são feitos a partir de muitos rios dessa região. No tocante ás populações das cidades, especialmente de Abaetetuba e Igarapé-Miri, foram praticamente às mesmas famílias dos antigos colonizadores portugueses que iniciaram a formaçãos dessas povoações, levados por interesses econômicos, militares, políticos ou religiosos. Se analisarmos bem a origem das famílias de Abaetetuba e Igarapé-miri, iremos encontrar uma ancestralidade comum na formação de suas populações, devido interesses citados. É claro que o colonizador português miscigenou com as populações nativas locais e com a grande população escrava que existia na região, devido às exigências da forma de atividade econômica com que iniciaram a colonização, que foi a agricultura e, em especial, a cultura da cana doce e da indústria canavieira que exigiam muitos braços para esses pesados serviços.

                                                   Os grandes garrafões de cachaça chamados
frasqueiras
Genealogia Miriense
Alguns Aspectos das Atividades das Famílias Mirienses e Abaetetubenses:
A Cana Doce, as Vias e Terras da Indústria Canavieira do Baixo Tocantins
Como as terras de Abaetetuba e Igarapé-Miri são banhadas pelos mesmos corpos d’água, conforme citado acima, seria natural que as terras dos mesmos municípios se prestassem ao plantio da cana doce, que fornecia a matéria-prima para os antigos engenhos e sua indústria canavieira, na produção de açúcar e cachaça. As cabeceiras dos rios Paramajó, Arumanduba, Ilha Sirituba, Guajarázinho, Sarapuquara, Maracapucu, Costa Maratauíra, Furo Grande, Tucumanduba, Piquiarana, Itacuruçá, Piquiarana-Açu, Piquiarana-Miri, Panacuéra e Campompema, Mahuba, quase todos influenciados pelas águas das marés que se formavam a partir do Rio Meruú-Açu e alguns desses cursos d’água banhando os dois municípios. Então, foi natural que os grandes donos de engenhos de cana doce do Baixo Tocantins, tivessem empreendimentos canavieiros nos dois municípios. 
Muitos engenhos e grandes canaviais existiam nas margens dos rios de Igarapé-Miri e Abaetetuba, e esses rios foram importantes no escoamento dos produtos da indústria canavieira e do intenso comércio de regatão. Alguns importantes rios da época dos engenhos de Igarapé-Miri e Abaetetuba:
Rio Meruú-Açu, lendário rio de Igarapé-Miri, que abrigou dezenas de engenhos e canaviais e que avança para o município de Abaetetuba, recebendo ali o nome de Rio Maratauíra.

Alguns Engenhos no Rio Meruú-Açu
·         Engenho São Benedito, de Antonio José da Costa Cardoso.
·         Novo Horizonte, de João Nicolau Fortes
·         Engenho Cariá, de Amadeu Cristino Pinheiro
·   Engenho Indiano, da firma Nonato & Filho, de Guilherme Nonato e filhos Plácido Febrônio, Raimundo e Antonio Nonato.
·      Engenho Menino Deus I, da firma Lobato & Silva, com os sócios, Eládio Correa Lobato e Eduardo Carlos Silva.
·         Engenho Santa Helena, de João Tourão de Miranda
·         Engenho Santa Rosa, de Francisco Ferreira da Costa
·         Engenho São João, de José Timóteo da Costa
·         Engenho São Jorge, de Raimundo Martins de Lima e filho Agenor da Silva Lima
·         Engenho São Paulo, de José Roberto de Araujo
·       Engenho São Vicente, da firma Souza & Irmão, que tinha como sócios os irmãos: Manoel Joaquim de Souza e Praxedes Vicente de Souza.
      Engenho Veneza, do Major João Nicolau fortes e Aladim Lapa Sampaio.
Rio Santo Antonio, que abrigou os seguintes engenhos:
·         Engenho Brasil, de Julião Simplício de Oliveira
·         Engenho Santo Antonio de Botelho, de João Tourão Correa de Miranda
·         Engenho Pará, dos irmãos Caetano e Acácio Correa Leão
·         Engenho Recreio, de Meneléu Correa de Leão
Rio Murutipucu, importante rio que abrigou os engenhos:
·         Engenho Liderança, de Jerônimo Marques Rodrigues e filhos
·         Engenho São Judas Tadeu, de Arcelino Correa
·         Engenho Aliança, dos Irmãos Correa
·         Engenho São Raimundo do Rio Murutipucu, de Didi Machado

Rio Itanimbuca
Importante rio de Igarapé-Miri, em cujas margens abrigou os engenhos:
·         Engenho Ariramba, de Joaquim Vieira Bastos
·         Engenho Livramento, do capitão Arcelino de Miranda Lobato e filho Eládio Correa Lobato.

Rio Maiauatá
Lendário rio de Igarapé-Miri que abrigou importantes portos, fábricas e engenhos, e que serviu de importante entreposto da antiga navegação fluvial à vapor da Província do Pará pela localização estratégica na navegação e no escoamento e comercialização dos  produtos da indústria canavieira e no transporte de passageiros e ligação com outras importantes vias fluviais da região.

Alguns Engenhos, Casas Comerciais e Portos Situados às Margens do Rio Maiauatá
·       Engenho Casa Vale, da firma Alves Vale & Cia, proprietária da histórica usina de Açúcar Santa Cruz, que vem desde 1712 e que abrigava também um importante entreposto comercial que servia na navegação fluvial e ao comércio de regatão do Baixo Tocantins.

·         Engenho Nazaré, de Meneléu Correa Leão
·        Engenho Santa Maria, citado em 1890, que pertenceu ao senador estadual Coronel José Garcia da   Silva.
·       Engenho Fortaleza, de propriedade da firma Produtos Alimentícios Fortaleza Ltda, constituída pelos sócios, Manoel Lourenço Correa Lobato, Eládio Correa Lobato e Raimundo Mito Ribeiro.

·         Engenho Independência, de Júlio Correa Lobato
·         Engenho Santo Antonio de Botelho, de João Tourão de Miranda
·         Engenho Santo Antonio, de Altino Pinheiro Sampaio
·         Engenho São Benedito de Maiauatá, de João Quintino

·        Bar Alegria, situado na Vila Maiauatá, no rio de mesmo nome, de Anilo Martins Cardoso, célebre      pelas festas que promovia no local.

·        Engenho Vivi, dos irmãos João, Waldemar, Altino, Raimundo e Aladim Lapa Sampaio, e onde existia o histórico e lendário Trapiche Hipólito, que era uma espécie de entreposto comercial no século 19, que pertencia ao Coronel Hipólito Moreira Sampaio.

Rio Juarimbu
Que abrigou os seguintes engenhos:
·         Engenho Juarimbu, importante e histórico que pertenceu Coronel Maximiano de Almeida Cardoso.
·         Engenho São Sebastião, de Meneléu Correa de Leão.

Igarapé Santana
·        Que abrigou o Engenho São Raimundo, de Raimundo Lopes Sampaio, este filho do lendário Coronel Hipólito Rabello Moreira Sampaio que era o dono do mesmo engenho, porém situado no Rio Maiauatá, quando funcionava como entreposto comercial no século 19.

Furo e Ilha do Uruá
·        Com plantações de canaviais e o Engenho Santa Rosa, de Luiz Quintino. 

Igarapé Calha
·        Onde existiam engenhos e canaviais.

Rio Anapu, que abrigou importantes engenhos a partir da Era Colonial do Pará:

·         Engenho Anapu, antigo engenho do alferes Felippe Correa de Sá, que vem da era colonial do Pará.

·      Engenho do Carmo, histórico, lendário e antigo Engenho do Carmo, do Barão de Cairary/Antonio Correa de Miranda e outros engenhos da mesma família.

·        Engenho Livramento, que em épocas recuadas pertencera ao Coronel José Garcia da Silva

Rio Caji:
·        Utilizado na plantação da cana doce.
Rio Panacuéra
·       Que divide suas águas e terras entre Abaetetuba e Igarapé-Miri e que abrigava o Engenho São Raimundo do Panacuéra, de Benjamim de Castro Nahum/Poca.

Rio Japuretê, afluente do Rio Meruú-Açu
·       Que abrigava o Engenho São Sebastião, de Anilo Martins Cardoso e seu pai, Antonio da Costa Cardoso.

Panacuéra-Miri
·         Que no final do século 19 abrigou o Engenho Vera Cruz, de Américo Correa

Rio Mamangal
·        Que abrigou o Engenho Quaresminha, dos irmãos Quaresma

Rio Acarajó
·        Que era utilizado na plantação da cana doce

Rio São Domingos
·        Que abrigava o engenho de Plácido Justo da Silva
Citações Históricas
·     Fazenda São Domingos, localizada na localidade Itapocu, do termo judiciário de Igarapé-Miry, nas mediações da cidade de Cametá, citada em 1864 e em 1884 é atacada por um grupo de quilombolas, entre os quais: Gaspar, Raymundo, Roberto, Isidoro, Victório, Gonçalo, Manoel Pedro e Laurindo.

·       Fazenda Conceição, de D. Ângela e o quilombola Victório, citados em 1884, no conflito da Fazenda São Domingos.
Furo do Seco
Que abrigava os engenhos:
·        Engenho São João do Furo do Seco, de João de Souza Paiva/João Boi
·        Engenho São José, de Raimundo Martins de Lima.

Fazenda Jaguarary:
Observações:
·       A importante, histórica e lendária Fazenda Jaguarary e seu engenho, sito na povoação do Moju e que era um dos grandes engenhos do ciclo açucareiro do século 17, que se dedicava a grande produção de açúcar, onde a maior parte era exportada para Portugal e que foi instalado por Ambrósio Henriques da Silva Pombo/Barão de Jaguarary e que foi repassado para os padres jesuítas, que em 1669 servia de casa de recreio para esses padres e que sob a direção desses missionários continuou sua função de fazenda e engenho, empregando mais de duas centenas de escravos índios e negros nos serviços das lavouras e do engenho.
·        A citação abaixo se refere ao município de Igarapé-Miry, porque esse município era cabeça do Termo judiciário de Igarapé-Miry, que englobava os territórios da Villa de Igarapé-Miry e das Freguesias de Moju e Abaeté.
·       A citação se refere apenas a um projeto que não chegou a ser implantado, talvez devido ao fato de que as agitações políticas pela implantação do regime republicano já se faziam sentir muito forte na Capital e pelo interior da província do Pará e, por isso, não oferecia boas condições sociais para a implantação desse grande empreendimento açucareiro.
"Em 1889 era objetivo do governo a instalação de um engenho central denominado Jaguarary no município de Igarapé-Miry, ou melhor, um engenho central na Fazenda Jaguarary, tendo como contratante do engenho o bacharel Heráclio Vespasiano Fiock Romano, que obrigou-se por si ou por sua empresa, que se responsabilizou em organizar, fundar e explorar esse engenho para a fabricação de açúcar e álcool de cana, com aparelhos, maquinismos dos mais aperfeiçoados com capacidade para moer diariamente 400 mil toneladas de cana-de-açúcar em 24 horas, pelo valor de 850 contos de réis (oitocentos e cincoenta mil réis= 850:000$000 réis), com emprego para 500 famílias imigrantes, lavradores para cultivar a cana e com favores concedidos pelo governo imperial".
Outros Engenhos ou Donos de Engenhos
·         Engenho Serrão, de José Pacheco Serrão de Castro, povoação de Moju
·         Engenho Conceição, sito no Rio Piquiarana, do português Joaquim de Freitas Castro
·         Engenho de Benedito Ferreira Pantoja, no Rio Mahuba.
·       Engenho Vera Cruz, no Rio Panacuéra-Miry, de Lobato & Cia, que passou para a firma Tourão       Correa & irmão.
·        Engenho Cariá, no Rio Meruú, de Silvestre Correa de Miranda
·         Engenho Cacaual, no lugar Espera, Rio Igarapé-Miry, de Amadeu Cristino Pinheiro
·         Engenho Carmo, no rio Igarapé-miri, de Amadeu Cristino Pinheiro
·       Engenho Nazaré, no Rio Domingos, de Henrique Bitencourt, que com o falecimento do proprietário passou para Viúva Henrique Bitencourt & Cia.
·         Engenho São Miguel, no rio Maiauatá, de Sampaio Ltda.
·     Engenho Santa Cruz, no Rio Panacuéra-Açu, de Viúva Vale & Cia, que também produzia álcool e açúcar branco.
·      Engenho Livramento, no rio Itanimbuca, de Arcelino Brasiliano, que passou a pertecer ao seu filho  Eládio Correa Lobato.
·       Engenho Santa Maria, no rio Maiauatá, de Antonio Primo da Costa, que passou para a firma A. Sampaio & Cia.
·        Engenho Nossa Senhora das Mercês:
Antigo e histórico engenho da localidade Anapu de MARIA FERREIRA DE GUSMÃO, esposa de Manoel João Correa de Miranda, que  era detentora de engenhos, entre os quais o Engenho Nossa Senhora das Mercês, no Rio Anapu, na Freguesia de Sant’Anna de Igarapé-Miri, que era dona de escravos e outros patrimônios, citada em 1825, possivelmente parente de Anna Ferreira de Gusmão, esta dona de engenho/fazenda e dona de mais de 40 escravos, dona de terras na ilha onde existia o Engenho Nossa Senhora das Mercês com plantações de cacau citada em 1830.
Thomas Homum, Donos, dono de engenhos/fazendas, contemporâneos de Maria Ferreira de Gusmão e sua irmã Anna, citados em 1830.
Dona Rita Borges Machado, dono de engenhos/fazendas, contemporâneos de Maria Ferreira de Gusmão e sua irmã Anna, citados em 1830.
José Gonçalves Chaves, dono de engenhos/fazendas, contemporâneos de Maria Ferreira de Gusmão e sua irmã Anna, citados em 1830.
JOANNA MARIA FERREIRA DE GUSMÃO (possivelmente parente de Maria Ferreira de Gusmão e Anna Ferreira de Gusmão), c/c JOSÉ CARLOS CORREA DE MIRANDA (neto do 1º Manoel João Correa de Miranda e Maria Ferreira de Gusmão), donos de terras e outros bens:
  • Engenho no Igarapé Domingos Guará:
  • Uma sorte de terras principiando na boca do Igarapé denominado (....), athe o igarapé denominado Domingos Guará, (na Freguesia de Sant’Anna de Igarapé-Miry), com cazas de vivenda, cappela e engenho e hum cacoal pequeno, citado em 1838. 
  • Huma sorte de terras de Juarumbau-miri athe o igarapé da Partilha, com 2.800 pés de cacau e huma sorte de terras firmes (....) com 500 pés de café frotíferos com cazas cobertas de palha, (na freguesia de Sant’Anna de igarapé-Miry, citado em 1838), donos de 13 escravos e José Carlos ainda herda de sua mãe vários bens, inclusive casas em Belém/Pa (na antiga Travessa de Santo Antonio).
ANNA FERREIRA DE GUSMÃO, citada em 1830, 1836, dona de terras em área do Engenho Nossa Senhora das Mercês, com 4.825 pés de cacau, dona de casas e com 45 escravos e outros bens:
1) Huma sorte de terras na Ilha onde existe o Engenho de Nossa Senhora das Mercês, com duzentas braças de frente pelo mais ou menos principiando dos (....) athe o Igarapé de Thomas Homum (....).
2) 2.025 pés de cacau frutíferos.
3) Huma sorte de terras principiando das terras de Thomas Homum athe o Igarapé de Serillo, que terá 120 braças de frente com meia légua de fundos pouco mais ou menos na Ilha onde existe o Engenho de Nossa Senhora das Mercês.
4) Hum cacoal com 2.780 pés de cacau frutíferos.
5) Meio quarto de terras no rio (....) principiando dos marcos de D. Rita Borges Machado, pelo rio acima athe os marcos de Fernando Jozé Gonçalves Chaves, com uma légua de fundos.
·         Engenho de Anna Ferreira de Gusmão:
Huma fazenda com cazas de vivenda e com Engenho e Olaria e huma Ilha de terras onde existe a dita fazenda que terá pouco mais ou menos huma légua.
Bens de ANTONIO FRANCISCO CORREA CARIPUNA/Coronel Caripuna, citados em seu inventário de 1877:
  • Fazenda Boa Vista, situada no districto de Abaité, com caza de vivenda coberta de telhas e engenho separado desta, parte coberto de telha e parte de palha (....) com dois canaviais no mesmo terreno, e socas em outro terreno de jenipahuba com machinas para cana, motor, caldeira, no estado, machina de serrar miserável, uma dita de olaria também miserável, tachos e turbinas assentadas, 8 tachos para depósito de açúcar, 4 coxos pequenos para depósito d’ágoa e garapa, duas pipas para caxaça, 8 coxos de garapa, um alambique velho e furado com seus pertences velhos e um aparelho (....).
  • Fazenda denominada São Francisco, no districto de Abaité, com caza de vivenda de sobrado, coberta de telha, e mais outra pequena caza no Rio Maracapucu, tendo a mesma fazenda um cacoal velho no Igarapé (.....), no Furo do Coelho.
  • Um sítio com caza de vivenda coberta de palha na boca do Rio Piramanha, no districto de Abaité.
  • Uma sorte de terras no districto de Abaité, da boca do Rio Anequara do Rio Urucum.
  • Uma sorte de terras firmes no districto de Abaité no Rio Curupiri (....) com uma légoa pouco mais ou menos.
  •  Uma sorte de terras no Rio Urubum, districto de Abaité.
Engenho de Maria do Carmo de Castilho:
MARIA DO CARMO DE CASTILHO, dona de engenho de cana movido à água, casas e dona de 32 escravos em terras de Abaeté, citada em 1853 e 1ª esposa do Cel. Caripuna, falecida em 1851. Filhos de Maria do Carmo de Castilho c/Antonio Francico Correa Caripuna (Tenente-Coronel Caripuna): Francisco e Firnino Correa Caripuna.
·        Engenho Santa Cruz:
     O antigo Engenho Sana Cruz teve vários donos, um dos quais foi LEANDRO MONTEIRO AMANAJÁS DE TOCANTINS em 1712, movido pela força da água, para produção de açúcar, sito no Igarapé Calha, no atual município de Igarapé-Miri/Pa, que casou com Isabel Amanajás de Tocantins e com filhos, 3ª G/Netos/N: Tomás Monteiro Cardoso Amanajás de Tocantins, coronel da Guarda Nacional, comerciante, dono do Engenho Santa Cruz no final do século 19, que tornou-se rico, adquirindo a lancha à vapor Rosinha importada da Alemanha, que casou com Rosa de Lyra e tiveram 12 filhos, 4ª G/Bisnetos/Bn , que por inexperiência nos negócios e residindo em Belém, vieram a vender os maquinários do engenho e as terras para o Capitão Porfírio Antonio Labato.
·         Engenho de Antonio José da Silva Brabo:
ANTONIO JOSÉ DA SILVA BRABO, dono de engenhos e escravos em Abaeté e Igarapé-Miry, casou e teve filhos, 3ª G/Netos/N: Victória Maria da Silva Brabo.
·         Engenho de José Fleury Correa Caripuna:
JOSÉ FLEURY CORREA CARIPUNA, citado em 1877 e que em 1888 era o 1º suplente de juiz municipal do termo de Igarapé-Miry e o 3º suplente era o tenente-coronel Antonio Manoel Correa de Miranda, e José Fleury era dono de engenhos.
Engenhos do TENENTE-CORONEL JOSÉ HONÓRIO ROBERTO MAUÉS:
  • Com casa de vivenda e com engenho para fabricar cachaça e mel no Rio Piquiarana em 1922.
  • Fábrica de cachaça, açúcar e mel, denominada “Conceição”, no Rio Piquiarana, da firma Maués & Barbosa, tendo como sócios José Honório Roberto Maués e José Barbosa Ferreira, em 1931.
·        Engenhos de Justo José Correa de Miranda:
JUSTO JOSÉ CORREA DE MIRANDA, era coletor de rendas de Abaeté, citado em 1818/1819, Oficial da Guarda Nacional de Abaeté citado em 1869, falecido quando seus filhos Rogério e Reinaldo (do 2º casamento) estavam com 12 e 3 anos, respectivamente, detentor de casas, inclusive 8 residências em Belém/Pa (uma casa de sobrado na Travessa do Passinho em Belém) e de muitas terras com plantações de cacau e engenhos movidos à vapor de lenha nos distritos de Igarapé-Miri e Abaeté, senhor de 32 escravos e dono de um grande patrimônio (147.840$040 réis), citado em 1878, e Justo José ocupou vários cargos públicos na era provincial de Abaeté, como professor vitalício da escola do 1º grau do sexo masculino citado em 1847 até1855 quando foi aposentado, coletor de rendas de Abaeté e outras funções e ele era dono dos seguintes bens, citados em 1878 em Igarapé-Miri e Abaetetuba:
  • Engenho Santo Antonio no Furo do Coelho, Rio Tucumanduba, districto de Abaité, movido à vapor, e a machinaria deste em uso e trabalhando, com cazas de vivenda, e engenho coberto de telhas, situado em uma sorte de terras, que do igarapé Furo, que faz divisa com o Engenho São Francisco dos herdeiros do finado Coronel Caripuna (este falecido em 1877) entrando pelo Igarapé Acapu, onde faz divisa com o Engenho São Jozé do Major Jozé Honório Roberto Maués, tendo o mesmo engenho cinco coxos de madeira, três pipas, três táboas para açúcar, cinco taxos de ferro sendo que três assentes e uma quebrada, dois alambiques, sendo um em bom estado e outro inutilizado, e mais acessórios pertencentes ao fabrico de açúcar e aguardente (....) tendo um alambique de motor contínuo e duas bombas que não pertencem ao Engenho (.....) tendo ainda o mesmo engenho uma sala com porta para a parte do rio com altar, castiçaes e santo, que é a capela do mesmo engenho.
  • Engenho Cariá, movido à vapor com caza grande de vivenda na caza do mesmo Engenho, cobertos de telha, situado em uma sorte de terras no Rio Moruhuapú, segundo districto de Igarapé-Miry, tendo o engenho todos os acessórios e pertences para o fabrico do açúcar e aguardente, inclusive um turbina, dois alambiques, sendo um do motor contínuo, tanques, coxos (.....).
·         Engenho de Julião Antonio Correa de Miranda:
JULIÃO ANTONIO CORREA DE MIRANDA, citado em 1800 como tenente da 8ª Companhia do Regimento de Milícia da cidade de Belém, dono de engenho movido à água no rio Anapu, Freguesia de Santa Anna de Igarapé-Miri, dono de terras com plantações de cacau e café, dono de 47 escravos em 1810, irmão de Manoel João Correa de Miranda, este e sua esposa Maria Ferreira de Gusmão, citados em 1925.

Bens de Julião Antonio Correa de Miranda, citados em 1810 em seu inventário: 
  • Hum Engenho de cana d’água muito arruinado com seus aguilhões de ferro, com cazas cobertas de palha, com seus quartos por acabar, com ranchos de palha, situado em terras de Manoel João Correa de Miranda, irmão do falecido, no Rio Anapu (....).
  • 5.950 pés de cacau
      Engenho de Maria da Glória Correa de Miranda:

MARIA DA GLÓRIA CORREA DE MIRANDA, dona de terras, engenho e terrenos: 
  • Huma sote de terras com meia légua, pouco mais ou menos a qual principia das divisões de JOZÉ GONÇALVES CHAVES e confina com ALEXANDRE ANTONIO DE OLIVEIRA PANTOJA, fundos competentes, denominado vulgarmente Japaticú com caza de vivenda coberta de telha com 100 palmos de frente e 70 de fundos, além de um grande quintal com cazas (no município de Igarapé-Miry, citado em 1857). 
  • Hum quarto de terras nas cabeceiras do Rio (....) que principiam dos marcos de ALEXANDRE ANTONIO DE OLIVEIRA PANTOJA e dahi por diante athe o (....) de braças pertencentes às ditas terras (na freguesia de Sant’Anna de Igarapé-Miry, citada em 1857). 
  • Dois terrenos na Villa de Igarapé-Miry (citados em 1857). 
  • Hum engenho de moer urucú sem serventia (citado em 1857), dona de17 escravos.
 Engenhos de Maria Rita Correa de Miranda:
  • Maria Rita Correa de Miranda, dona de terras com plantações de cacau na Vila de Igarapé-Miri, dona 16 escravos, contemporânea do seu vizinho, também dono de fazendas/engenhos: Maria Gonçalves Chaves, citados em 1857.
·         Engenhos de José Carlos Correa de Miranda:
  • José Carlos Correa de Miranda c/c Joanna Maria Ferreira de Gusmão, donos de terras com plantações de mais de 2.800 pés de cacau e cana-de-açúcar, donos de casas, engenhos e 13 escravos na igarapé Domingos Guará, Freguesia de Santa Anna de Igarapé-Miri.
      Engenho de Silvestre Correa de Miranda:
  •  Silvestre Correa de Miranda, que comprou o antigo Engenho Cariá, sito no Rio Meruú-Açu, no atual município de Igarapé-Miri, que inicialmente, no final do século 19, pertencia ao Capitão Amadeu Cristino Pinheiro (este filho da escrava Ana Cristina) e que, na primeira década do século 20, foi vendido ao Major João Pinto Longuinhos Braga, cuja viúva vendeu o Engenho ao Sr. Silvestre Correa de Miranda, que casou com Joanna Longuinhos e com filhos, 3ª G/Netos/N: Olavo (este morava em Belém), Oduval (este trabalhava com o pai), que chegaram a trabalhar mais alguns anos no engenho.
·         Engenho Menino Deus, no Rio Panacuéra, de Albino da Costa Correa.
·         Engenho Santa Maria, no Rio Maiauatá, de Antonio Primo da Costa.
·         Engenho São João, no Rio Meruú-Açu, de José Timóteo & Cia, de José Timóteo da Costa.
Obs: Os Engenhos de Abaetetuba já foram publicados em postagens anteriores a estas.
O TRABALHO NOS ENGENHOS

                                         Os barcos motorizados substituíram as Canoas
Grandes à Vela como meio de transporte, de Cargas e Mercadorias
e no Comércio de Regatão no Baixo Tocantins.
Dentro do engenho o 1º processo do trabalho é o da caldeira, a qual aquecida a uma determinada temperatura, gerava o vapor e a eletricidade que punha as outras máquinas em funcionamento:  a moenda, que era encarregada de retirar o caldo-de-cana, o qual era repassado para o paiol, onde uma bomba transportava do dito paiol o caldo-de-cana para as dornas, que são grandes tonéis que armazenam a garapa para a fermentação durante 5 dias. Terminado o processo de fermentação, a garapa era transportada por meio de canaletas para um 2º paiol, saindo daí para alambique, que ficava na parte superior do barracão e de lá passa para o último processo, a destilação durante 6 horas, ficando, desse modo, pronta a cachaça para o consumo.
Num médio engenho de cana doce, eram sempre 2 batelões (barcos usados no transporte da cana doce e com remeiros), com 2 homens trabalhando em cada batelão com capacidade para 10 frasqueiras=100 feixes de cana doce, trabalhando de 2ª-feira a sábado, em viagens geralmente de 5km  a partir das cabeceiras dos rios, enchendo, transportando e descarregando nos ombros, nos picadeiros dos engenhos, os feixes de cana doce, em várias viagens por dia, e almoçando sempre peixe assado, salgado, peixe liso preparado em latas de flandes ou carne de capivara ou carne de caças, ingeridos  juntamente com o caldo de cana (garapa), este misturado a punhados de farinha de mandioca (caldo de cana+farinha=jacuba). Nos engenhos eram 4 a 5 homens carregando nos ombros os feixes de cana para a devida moagem (distância de 50m do picadeiro para a moenda) e também o dia todo, com paradas para as refeições. Nas moendas dos engenhos existiam 2 ou 3 trabalhadores para colocar as varas de canas nas moendas e 3 a 4 homens para carregar o bagaço de cana para as caldeiras ou armazenamento do bagaço à beira dos rios. O caldo de cana (garapa) da moenda saía pelas canaletas em direção aos tanques de armazenamento (que eram 20 ou mais tanques) onde ficava por 3 dias para a devida fermentação  (com trabalhadores controlando esse processo) e, após o líquidos, seguia por outras canaletas para o alambique que ficavam na parte superior dos engenhos (era um ou dois alambiques com seus respectivos “burros” (eram equipamentos que impulsionavam, através do vapor das caldeiras, a garapa já fermentada para o alambique, sempre por canaletas), para a devida lambicagem da garapa e cada alambique tinha a capacidade de armazenamento de 1000 frasqueiras de cachaça da cana doce e mais trabalhadores controlando esses processos. Do alambique  a cachaça seguia para as dornas e desta, para o devido engarrafamento da cachaça (mais trabalhadores), para a posterior comercialização (pessoas do engenho ou os comerciantes e firmas da região que compravam a cachaça à granel para a devida comercialização na Capital, Baixo Amazonas, Manaus, Salgado, Macapá,). 
Dicionário da Indústria Canavieira
A maior parte das antigas e tradicionais famílias de Abaetetuba e Igarapé-Miri desenvolvia as atividades da indústria canavieira e esse fato nos leva a criar um dicionário de palavras e termos usados nos variados processos dessa indústria.
. Cachaça, pinga ou aguardente de cana, era o principal produto advindo da indústria canavieira do Baixo Tocantins, com fase áurea a partir das décadas finais do século 19 até a 1ª metade do século 20, que era o principal produto do comércio de regatão da região ou fora da região. A cachaça era o resultado da lambicagem da garapa azeda (surrapa) através do aparelho alambique e que correspondia ao resultado final dos vários processos dos trabalhos dos engenhos. A cachaça ou aguardente recebe variadas denominações na região e era a bebida espirituosa mais consumida por todas as camadas das antigas populações das cidades, vilas e freguesias antigas do Pará e Amazônia e que entrou em processo de decadência a partir dos anos finais da década de 1970.
. Moenda, era o maquinário dos engenhos onde a cana sofria o processo de moagem para a extração da garapa.
. Bagaço de cana, era o resíduo das varas de cana doce, já devidamente seco do seu líquido extraído pela moenda do engenho.
. Caldeira, era a parte do engenho onde madeiras ou o próprio bagaço de cana doce eram queimados para fornecer energia em forma de vapor para movimentar os diversos maquinários do engenho.
. Alambique, era o aparelho usado para realizar a destilação da garapa azeda (surrapa), através, cujo líquido final na forma de vapor seguia através das serpentinas do alambique, sofrer condensação e se transformar em líquido, a cachaça, que pingava nas dornas. Lambicagem era o processo de transformação da garapa azeda (surrapa) em cachaça através do aparelho alambique.
. Dornas, eram os grandes tonéis de madeira (madeira carvalho) importados de outras regiões do Brasil ou do exterior para receber a cachaça produzida nos engenhos. Alguns criativos carpinteiros de Abaetetuba e Igarapé-Miri descobriram a técnica e uma madeira na região denominada cotiúba, através da qual fabricavam os tonéis (dornas ou pipas) que substituíam os caros tonéis de carvalho vindos de outras regiões.
. Burro, equipamento que impulsionava, através do vapor das caldeiras, a garapa já fermentada para o alambique.
. Garapa ou caldo de cana, líquido esverdeado que resultava da moagem da cana. Servia também como alimento para os trabalhadores dos engenhos e até eram vendidas nos lanches pelos chamados garapeiros existentes nas cidades. Surrapa era a garapa já devidamente fermentada.
. Tanques, eram os grandes reservatórios que armazenavam os milhares de litros de garapa azeda (surrapa) que deveria seguir para a devida destilação, após os 3 dias de fermentação.
. Capivara, o maior roedor das matas da Amazônia, cuja carne salgada era vendida nas feiras das cidades.
. Jacuba, nome que se dava á mistura da garapa com farinha de mandioca para ser usada na alimentação dos trabalhadores dos engenhos. 
. Batelão, pequeno barco em madeira usado no transporte da cana doce e, geralmente, com 2 remos de faia/ou 2 gingos existentes nas duas farquetas da polpa do batelão e para os 2 homens em pés movimentarem esse barco.
. Frasqueira, é a medida usada para a cana doce, cana verde ou cana-cana de açúcar, onde uma frasqueira=10 feixes de cana. Usava-se também o nome frasqueira para designar os garrafãos de cachaça com as seguintes medidas: garrafão de uma frasqueira=24 litros; o de 1,5 litros= 36 litros e o de duas frasqueiras=48 litros de cachaça.
. Feixe é um conjunto de varas de cana doce devidamente amarradas através de cipós, fibras ou cordas das florestas.
. Picadeiro era o depósito elevado, situado sempre na parte frontal dos engenhos, para receber os carregamentos de cana doce dos batelões.
. Polpa é a parte traseira do batelão e proa é a parte dianteira.
. Farquetas, espaço existente na proa dos batelões de remos de faia, para o devido apoio e manipulação dos remos de faia em movimentos chamados de gingos.
Outras Pessoas Envovidas na Indústria Canavieira
. Engenheiros ou donos de engenhos, eram os donos dos engenhos, capitalistas que produziam a cachaça e comercializavam esse produto junto com outros no chamado comércio de regatão e geralmente possuíam outras atividades comerciais ou industriais atreladas às dos engenhos.
. Canavialistas e canavieiros, aqueles eram os donos de canaviais, que contratavam terceiros, os canavieiros, estes para os serviços dos roçados de canaviais em atividades de desmatamento, destocamentos, capinas, plantios e cortes da cana doce. Os canavialistas comercializavam a cana obtida dos canaviais com os donos de engenhos.
. Capataz ou feitor, era o encarregado da distribuição e fiscalização dos trabalhos nos engenhos e terras dos donos de engenhos e quem tratava das questões internas dos engenhos junto aos empregados e famílias agregadas nos trabalhos dos roçados e outras atividades.
. Gerente era o responsável pela produção e negócios dos engenhos no chamado comércio de regatão e outras atividades atreladas à indústria canavieira e comércio de regatão.
Outros Produtos da Indústria Canavieira
. Açúcar era o principal produto obtido na indústria canavieira do Baixo Tocantins e outras regiões do Pará a partir do século 17, no período colonial do Pará, indústria que sofreu forte decadência já a partir dos últimos anos do período imperial (1821 em diante) e que, posteriormente, na indústria canavieira do Baixo Tocantins, foi substituído pela produção da cachaça através dos novos engenhos que íam surgindo às dezenas a partir dos anos finais do século 19 e até a primeira metado do século 20.
. Álcool era outro produto da indústria canavieira e produzido por pouquíssimos engenhos de Igarapé-Miri/Pa.
. Vinagre produto obtido da indústria canavieira e produzido por poucos engenhos do Baixo Tocantins.
. Mel de cana ou melaço, era um produto de grande aceitação nos mercados da região, especialmente na Capital do Estado do Pará e nas cidades de Abaetetuba e Igarapé-Miri/Pa. Na cidade de Abaetetuba e Igarapé-Miri existiam muitos engenhos e engenhocas para a produção do mel de cana, engenhos que também sofreram as consequências da crise da indústria canavieira dos anos finais da década de 1970. 
. Rapadura era o produto obtido em alguns engenhos e engenhocas da indústria canavieira do Baixo Tocantins, que não conseguiu afirmação nos mercados como a cachaça e o mel de cana.

O Modelo Patriarcal da Indústria Canavieira
A quantidade de pessoas envolvida nos processos de produção de um só engenho era muito grande, como vimos acima, e os donos de engenhos mantinham os trabalhadores sob sua tutela (no ciclo da cana-de-açúcar os trabalhadores eram os escravos índios e negros, e por isso, Abaetetuba e Igarapé-Miri possuíam um número absurdo de escravos negros trabalhando na produção de açúcar e cachaça na 1ª fase da indústria canavieira do Baixo Tocantins). Os trabalhadores dos engenhos e suas respectivas famílias ficavam sob a tutela dos donos de engenhos, numa espécie de sistema patriarcal, onde os donos de engenhos eram os senhores a quem todos deviam servir, obedecer e realizar os variados serviços nos engenhos e demais atividades desenvolvidas nas casas comerciais, embarcações, comércio de regatão, nas casas e terras desses donos de engenhos, em troca de favores, como fornecimento de alimentação, vestuário, utensílios, roupas, etc. tudo seguindo o tradicional sistema de aviamento  pelos donos de engenhos que atendiam os trabalhadores suas famílias que estavam atreladas aos negócios dos donos de engenhos e onde a voz dos donos de engenhos eram as leis desse regime.
E como era muita gente sob a tutela desses senhores, era impossível manter todos devidamente regularizados em termos trabalhistas até a década de 1970, mesmo porque ainda não existiam leis que amparassem os trabalhadores de engenhos. Com o advento das leis do trabalho a partir do Governo de Getúlio Vargas, essas leis foram surgindo para a regularização das relações entre patrões e empregados e com a evolução dessas leis foram criadas as chamadas Juntas de Conciliação e Julgamento, uma das quais foi a de  Abaetetuba, no ano de 1973, quando centenas de processos de regularização trabalhista ou solicitação de indenização começaram chegar àquela junta, muitos dos quais eram solicitados de má fé por parte de advogados ou trabalhadores, argumentando ter 10, 20 ou 30 anos de trabalho nos engenhos (Vide o caso do Sr. Julião Simplício de Oliveira e muitos outros donos de engenhos em Igarapé-Miri e Abaetetuba). A Justiça do Trabalho foi implacável na aplicação das leis em favor dos empregados, fato que acelerou mais rapidamente a decadência da já combalida indústria canavieira do Baixo Tocantins, quando dezenas de engenhos de Abaetetuba e Igarapé-Miri tiveram seus maquinários, terras e outros bens como objeto das demandas trabalhistas para pagamento das indenizações aos trabalhadores.

O Declínio da Indústria Canavieira do Baixo Tocantins
Antes da instalação da Justiça do Trabalho em Abaetetuba, por diversos motivos a indústria canavieira do Baixo Tocantins já vinha passando por algumas dificuldades que determinaram o início do declínio dessa indústria e a instalação da Justiça do Trabalho, através da Junta de Conciliação e Julgamento de Abaetetuba, veio somente apressar a decadência que se tornou irreversível nos anos finais da década de 1970. Vide algumas causas da decadência da indústria canavieira em Engenhos de Abaetetuba, Engenhos de Igarapé-Miri neste mesmo Blog.
  Foram as Canoas Grandes à Vela
 importantes meios de transporte
                                          e no Comércio de Regatão do
                                                   Baixo Tocantins

Blog do Prof. Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa