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sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Quadra Junina na Musicalidade 5 de Abaetetuba Através dos Anos

A MUSICALIDADE 5 DE ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS
Conjunto Os Muiraquitãs do acervo de
Lial Bentes
Um boi de Cordão de Boi de
Abaetetuba
A MUSICALIDADE 5 EM ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS
A Quadra Junina
A musicalidade é um dos aspectos da cultura de Abaetetuba que funciona como guardiã de uma rica memória, ainda viva na lembrança de cada filho destas terras que vivenciou os ricos períodos desse aspecto cultural e em muitas de suas vertentes, considerando aspectos dos mitos, do imaginário e da cultura que essas vertentes da musicalidade construíram através dos tempos, como veremos a seguir. Esse aspecto cultural da musicalidade usou suas vertentes como forma de comunicação, de transmissão de mensagens, de histórias que marcaram pra sempre, direta ou indiretamente, a vida de muitas pessoas que ainda são depositárias dessas memórias ou que já estão marcadas nos escritos de nossos historiadores em um rico acervo onde pode se encontrar esses variados aspectos da musicalidade de Abaetetuba.

A música em si nada mais é que um conjunto de sons articulados para formar um discurso poético de sons, vozes e encenações de linguagem transmitida através dos tempos usando de recursos rústicos até chegar aos mais sofisticados, de acordo com o período histórico em questão.

Deste modo a musicalidade torna-se uma importante fonte ou documento histórico da memória sobre o nosso passado, conservado e analisado a partir de pessoas e contextos que  nos permite uma volta a esse passado para o conhecimento de seu meio e dos variados aspectos da musicalidade a ser analisada. 

Esses aspectos da musicalidade serão aqui analisados em várias postagens que faremos sobre “A MUSICALIDADE EM ABAETETUBA ATRAVÉS DOS TEMPOS” e, em certos casos, tecendo comentários, considerações e sugestões de melhorias naquilo que pode se constituir um aspecto cultural que pode se consolidar como um evento com identidade própria e, desse modo, se constituir em Abaetetuba um evento que possa também gerar renda e trabalho para o município.

Portanto, a memória da musicalidade, é o ato de lembrar, de reter, o que já se passou, de reconstruir a relação entre passado e presente, e que pode dar sentido à nossa história. Nesse aspecto, a memória não seria uma realidade estática e perdida no contexto cultural de sua época, mas dinâmica e inovadora, se reconstruída em novas formas culturais que possam nos fazer recordar e apreciar no presente sob nova roupagem, e com identidade própria, a ponto de se firmar no cenário da musicalidade em geral como evento que chama a atenção de todos pela riqueza que contém e, consequentemente, como fator turístico que possa chamar a atenção para essas manifestações culturais e se firmar no calendário turístico do município como evento que possa trazer emprego e rendas para muitas pessoas, além de fazer o município ser conhecido e reconhecido como um verdadeiro centro de cultura. Os estudos sobre a musicalidade em Abaetetuba estão atrelados à questão da memória e do que a música desperta em cada pessoa e que marca momentos e sentimentos que são revividos quando se ouve determinada música ou   manifestação cultural onde a musicalidade se faz presente. Todos nós temos aquelas músicas ou eventos musicais que vivenciamos na infância, na adolescência, que podem nos trazer a sensação de nostalgia e de rememoração dos bons tempos que já se foram, onde o passado ressurge fragmentado em várias lembranças, advindas de uma memória afetiva onde a sonoridade e até mesmo sabores e cheiros tinham importante papel nesse processo. 


Caso o autor de alguma foto ou texto não queira referidas fotos e textos nestas postagens,
favor avisar para retirarmos as mesmas. Em contrapartida, temos centenas de fotos e textos
que podem ser copiadas por pesquisadores, estudantes interessados, promotores e autores
científicos e culturais.

A Quadra Junina

A Quadra Junina é uma das manifestações mais ricas manifestações culturais brasileiras, que é comemorada em junho. Essa festa tem seus santos, seus rituais, as músicas típicas da Quadra Junina com suas letras apropriadas para a época. A Quadra Junina começou ainda na época da colonização do Brasil, quando os portugueses introduziram em nosso país muitas características da cultura da Europa, incluindo as festas juninas que se disseminaram por todo o país. Mas foi no Nordeste e Norte que essas festas criaram raízes, tornando-se forte traço da cultura dessas regiões. As comerações aos santos da Quadra Junina duram um mês e antigamente havia vários concursos para eleger os melhores grupos de Quadrilha. Essa comemoração é dentro do espírito católico onde se festeja 3 santos: no dia 13, Santo Antonio; no dia 24, São João; e no dia 29, São Pedro. E tem ainda o dia de São Marçal, que é comerado no dia 30 de junho, onde se faz o encerramento das festas da Quadra Junina. Santo Antonio é o que tem mais devotos no Brasil e ele é representado carregando o Menino Jesus e é conhecido como "Santo Casamenteiro" e o mais solicitado para ajudar moças solteiras em busca de noivos. E nas Igrejas se distribuem os tradicionais pãezinhos de Santo Antonio, que devem ficar guardados para garantir a fartura das casas durante o ano inteiro e isso remete ao fato de que o Santo era cozinheiro e que distribuía pão aos pobres. Nas Igrejas eram celebradas as trezenas de 1 a 13 de junho que se constituía de momentos de orações, leituras do responsório, bênção da água e a benção do pão. São João é conhecido como o "Santo festeiro", porque no seu dia são realizadas muitas festas e comemorações com muitas danças com fogueiras, mastros, fogos, palhas o místico "Banho de Cheiro" preparado com as ervas cheirosas típicas desse dia do nascimento de São João. Na Igreja Católica o Santo é venerado e devotado como Precursor, isto é, aquele que vai na frente de Jesus, abrindo os caminhos e anunciando-O ao povo. São Pedro é celebrado no dia 29, que também desperta a devoção de muitas pessoas e ele foi um pescador chamado por Jesus no meio de seu trabalho e que foi escolhido como o líder dos Apóstolos, tendo criado a comunidade cristã de Roma, vindo a se tornar o primeiro Papa da Igreja Católica. Ele é festejado como protetor das casas e suas chaves, porque São Pedro é guardião das chaves do Céu.

Também as Festas desses Santos Populares, vieram das tradições de países europeus e que eram historicamente relacionadas com as festas pagãs da antiguidade e cristianizada na Idade Média como "Festa de São João", no dia 24 de junho e outros dois Santos Populares celebrados nesta mesma época, São São Pedro e São Paulo (no dia 29) e a festa de Santo Antônio (no dia 13) que, posteriormente, foram incorporadas pela Quadra Junina e se tornaram tradição também no Brasil.

A QUADRA JUNINA DE ABAETETUBA

A Quadra Junina de Abaetetuba era recheada de diferentes tipos de festas e com uma variada gama de elementos altamente musicados que levavam em conta os mitos, as lendas, o imaginário e os elementos da Natureza incluindo a Fauna, a Flora e a cultura advinda de outros recantos do Brasil ou que eram retiradas dos costumes de nossas colônias agrícolas e povoações ribeirinhas, que compunham as antigas tradições juninas em nossas terras de Abaetetuba, assim como as Festas Dançantes e outros aspectos festivos dessa quadra, conforme veremos a seguir.
Em Abaetetuba essas festas seguiam o figurino de outras partes do Brasil que também incorporaram elementos da cultura local, com direito à fogueiras, fogos de artifícios, iguarias próprias da época, cordões juninos, festas dançantes juninas, quadrilhas, banhos de cheiro, casamentos na roça e outras atrações da Quadra. Essas festas de santos ainda existem em Abaetetuba, porém reduzidas de seus antigos elementos e motivações, quase extintas pela modernidade e outras formas de consumismo cultural.

A QUADRILHA

QUADRILHA, é uma dança que evoluiu de uma dança de salão francesa entre o início do século 19 e a Primeira Guerra Mundial e que se popularizara em toda a Europa e veio para o Brasil seguindo o interesse da classe média e das elites portuguesas e brasileiras do século 19. Ao longo do século 19, a Quadrilha se popularizou no Brasil e se fundiu com danças brasileiras e teve subsequentes evoluções,  entre elas o aumento do número de pares e o abandono de passos e ritmos franceses e da elite, e floresceu no Brasil rural, daí o Vestuário Caipira, e se tornou uma dança própria dos Festejos Juninos, principalmente no Nordeste. A partir de então, a quadrilha foi se tornando um fenômeno popular e rural, tornando-se parte das festas folclóricas brasileiras.

FESTAS JUNINAS DANÇANTES:

Em Abaetetuba as tradicionais Festas Dançantes da Quadra Junina eram realizadas pelas ruas da cidade, em festas de terreiros, pelos clubes esportivos como Vasco, Vênus, Abaeté, Tietê, Palmeiras e clubes sociais, como Bancrévea Clube, Assembléia Abaetetubense e AABB-Associação Atlética Banco do Brasil, e nos demais clubes e Escolas da cidade e a tradicional festa da família Abreu.

Essas festas juninas obedeciam ao tradicional figurino das autênticas músicas juninas, da quadrilha junina tradicional, com suas roupas caipiras, dos pares enfileirados, dos passos e movimentos tradicionais, obedecendo ao comando do “marcador” em passos de alavandus, anarriês, troca de damas, ganches, coroas, chames e outros passos. Esse tipo de festa ainda tenta subsistir através das festas juninas promovidas pelas escolas e a tradicional festa junina da família Abreu. As quadrilhas tradicionais praticamente já não mais existem e foram substituídas pelas quadrilhas modernas. Vide item adiante sobre festas dançantes juninas.

CASAMENTOS NA ROÇA:

Os Casamentos na Roça, eram tradicionais na Quadra Junina de Abaeté, que representava a comédia de um casamento de verdade, com todos os seus elementos, porém com personagens matutos, como: noivo, padrinhos, madrinhas, pais, juiz, escrivão, padre, discursos, conselhos e a dança da valsa e com o uso de utensílios e roupas apropriadas da quadra, em coloridos berrantes e vestidos errados e em palavreado cômico, muito divertido realmente. Eram os casamentos na roça feitos nos salões dos clubes ou em desfiles musicados pelas ruas da cidade. Atualmente, a única entidade que promove casamentos na roça em Abaetetuba é a Escola São Francisco Xavier, com apenas o desfile do pessoal em roupas caipiras transportadas em carroças de cavalos pelas ruas da cidade e sem as comédias dos antigos casamentos da roça e esse desfile serve para anuncia a grande festa junina que a escola promove todos os anos. Os tradicionais casamentos na roça da quadra junina de Abaetetuba já estão extintos.

OS CORDÕES DA QUADRA JUNINA:

Os Cordões da Quadra Junina, com a citação de 1906: “Os cordões de bois de Abaeté saiam pelas trilhas e pelas casas do lugarejo”.

Isso quer nos dizer que, desde os primeiros anos do século 20 e até antes, já existiam os cordões juninos na pequena cidade de Abaeté de pouco mais de 3.000 habitantes. O cearense Manoel Antonio de Souza, a partir de 1915, ajudou na manutenção do rico folclore junino de Abaeté, através dos cordões de pássaros, bois e insetos, sendo desse tempo alguns antigos cordões de Abaeté:

Cordão do Boi Canário
Cordão do Boi Pingo de Ouro
Cordão do Boi Touro Russo
Cordão do Beija-Flor, de D. Nenê Pontes
Cordão do Gavião
Cordão da Borboleta
Cordão do Tucano, criado por Santino Rocha
Existiu outro Cordão do Tucano, de João Batista
Cordão da Andorinha
Cordão do Ben-te-vi.

Usaremos a expressão “cordão”, que conforme nossas pesquisas em jornais e documentos antigos, o nome cordão se refere aos grupos juninos antigos que apresentavam as comédias musicadas com motivações rurais e outras motivações retiradas da cultura local. O mesmo termo “cordão” também era usado na quadra carnavalesca para se referir aos grupos que se formavam nessa quadra para brincar o carnaval. Portanto, a expressão “cordão” se tornou típica para os grupos de quadra junina e carnavalesca e é esse termo que usaremos para retratar os cordões da Quadra Junina de Abaetetuba.

Os diversos quadros dos cordões juninos eram musicados e o antigo músico Nilamon Xavier de Sena, liderava a parte musical do Cordão do Tucano e do Cordão da Andorinha e cordões de bois. Após esses antigos cordões, vieram outros cordões para enriquecer a quadra junina de Abaeté.

Um cordão de pássaro da quadra junina chegava a ter até 55 integrantes e os figurinos eram esmerados, com roupas de cores bem vivas, brilhantes, em personagens que dançavam e cantavam ao som das toadas dos músicos que acompanhavam os grupos de pássaros.

Família Abreu:

O casal Raimundo Abreu/Mestre Abreu e sua esposa Joana Lopes de Abreu foram responsáveis pela continuidade dessa arte folclórica em Abaeté, repassando essa responsabilidade para seus filhos, especialmente Nina Abreu, criadora de belos cordões em Abaeté. Nina Mary de Abreu, nasceu no dia 11/9/1935 em Abaeté herdou de seus pais o gosto pelo folclore junino. Foram inúmeros os cordões juninos que essa grande folclorista e família organizaram na cidade de Abaetetuba.

Os cordões juninos eram comédias com personagens da vida rural e se tornaram tradicionais na cidade de Abaeté, perdurando até a metade do século 20, enchendo as ruas de Abaetetuba de muitos canto, música, alegria, colorido e brilho.

Outros Antigos Cordões nas Artes Folclóricas Juninas de Abaetetuba:

Cordão do Uirapuru
Cordão do Rouxinol, foi criado por Dona Maroquita, esposa do Sr. Mirico
Cordão do Periquito, que foi criado por Benedito Sena dos Passos/Bandute Sena.
O Cordão do Periquito, posteriormente, foi adotado e recriado pela folclorista Nina Abreu/Nina Mary Abreu da Silva, nascida em 30/9/1935, filha de Raimundo Abreu e Joana Lopes de Abreu, que também criou ou recriou outros cordões, como os cordões:
Cordão da Borboleta
Cordão do Canário
Cordão do Curió
Cordão da Arara

Outras pessoas criaram cordões juninos em Abaeté:

O Cordão da Borboleta, cujo 1º cordão foi criado pelo funcionário da Receita e musicista fundador da Banda Henrique Gurjão, Horácio de Deus e Silva, por volta de 1904.
O 2º Cordão da Borboleta foi criado por Dona Ziloca e seu marido, o Mestre Afonso e este também foi o criador de alguns cordões da quadra Carnavalesca.
Posteriormente o Cordão da Borboleta foi recriado por Nina Abreu, com o acréscimo de outros quadros cômicos ou dramáticos e muita musicalidade.

Cordão do Canário, recriação de Nina Abreu
Cordão do Ten-Ten
Cordão do Curió, criação da folclorista Nina Abreu
Cordão do Camarão, de João Dorme, figura popular de Abaeté. Aqui o cordão foge do padrão de pássaros ou boi e apanha a figura do camarão, crustáceo muito comum em nossos rios, igarapés e baías.
Cordão do Inambé, criados pelos familiares de Dona Júlia Lopes, vindo das Colônias da região rural de Abaeté para fazer apresentações na cidade. O Inambé é uma ave silvestre muito arisca, de difícil domesticação e que existia em boa quantidade pelas nossas matas e agora encontra-se quase extinto.
Cordão do Papagaio, da mesma época que o Cordão do Periquito, porém com muita música e comicidade de seus componentes, especialmente do saudoso ator Pombo da Maroca Lima, seu criador.
Esses cordões se apresentavam na forma de teatros musicados da vida rural, com o enredo, cantos e músicas compostas pelos próprios componentes desses grupos juninos ou pelos artistas e músicos de Abaeté.
As Personagens dos Cordões de Pássaros:

As personagens ou comediantes de um cordão de pássaros ou insetos, cada qual com uma função na comédia musicada:

·         A Ave, era o animal de estimação de uma Princesa e todo o enredo da comédia se desenvolvia sobre essa Ave ou Inseto, que era representado por uma pequena escultura  ricamente enfeitada e decorada, que era carregada na cabeça de uma linda moça, esta também vestida em lindo e brilhante colorido.
·         A Dona da Ave, que sempre era uma linda Princesa
·         O Guardião da Ave, espécie de Bobo
·         As Floristas, personagens que ofereciam flores no fim da comédia
·         Os Valentes Índios Guerreiros e seu Tuxaua, o destemido guerreiro Morubixaba, a índia Iracema, que ofereciam o pássaro de presente à Princesa e o defendiam dos perigos.
·         O Curandeiro ou Pajé, que defumava e benzia o pássaro, quebrando o encanto, o feitiço do caçador Mandigueiro.
·         Os Soldados, defensores atrapalhados do pássaro
·         Os Campineiros ou Camponeses, que eram personagens festivos no aniversário da princesa.
·         O Mandingueiro ou Feitiçeiro, pai do Baleador, que eram os vilões da história, que enfeitiçavam o pássaro por pura maldade e inveja.
·         A Bruxa Má ou Feiticeira, mulher do Feiticeiro, que ajudava nas maldades do marido e pais do Baleador.
·         As Fadas Boas e as Fadas Más, que tentavam ajudar ou prejudicar a Ave
·         O Saci, que tentava ajudar a descobrir o esconderijo do Feiticeiro e sua família, raptores do pássaro ou inseto.
·         Os Guardas da Floresta, personagens festivos dos cordões
·         Os Caçadores ou Passarinheiros das florestas
·         Os Matutos, personagens atrapalhados dos cordões
·         Mulatas-de-Cheiro, personagens festivos dos cordões
Como se vê acima, as personagens de um cordão de pássaro eram retiradas dos contos de fadas, dos mitos e lendas amazônicas, do meio rural ou da cultura local.

Os Cordões de Bois de Abaetetuba:

Os Cordões de Bois de Abaeté, também representavam comédias altamente musicadas e que retratavam a vida rural, que em grupos de brincantes saíam pelas estradas ou ruas da cidade, apresentando-se em casas escolhidas previamente. Cada grupo de comediantes se apresentava em quadros, com danças, cantos e diálogos musicados. Os próprios componentes desses grupos juninos se encarregavam de preparar o enredo e os cantos para os quadros apresentados eram de autoria dos participantes do cordão ou eram ajudados pelos antigos músicos, compositores e autores musicais de Abaetetuba.

As Despedidas dos Bois:

No final da quadra junina aconteciam as “Despedidas” ou “Matanças” do boi, isto é, o boi se recolhia, para voltar somente no próximo ano e essa despedida se realizava com uma grande festa de encerramento das apresentações dos cordões de bois. O boi era um boneco quase do tamanho de um boi vivo, oco, embaixo do qual se colocava o brincante denominado “tripa”, que saltitava ao som das toadas, embaixo desse boi, este devidamente enfeitado, cheio de fitas e brilhos,  dançando sob o som dos músicos que compunham o cordão. Essas apresentações eram realmente empolgantes, eletrizantes e os artistas e folcloristas do Boi do Arraial do Pavulagem, em Belém, que nos perdoem, mas ele perde de longe para os antigos bois de Abaeté. Pena que nossos idealistas mestres folclóricos, Roldão e Risó,  se foram e não deixaram herdeiros.

As Personagens de Um Cordão de boi:

Personagens ou comediantes dos cordões de bois eram criados pelos componentes dos cordões, representados por pais de famílias, trabalhadores e cada personagem ou grupo de personagens com música e papel específico no cordão, como:

·         O Boi, que era um boneco em tamanho natural de um boi e o Tripa, este o condutor do Boi e que ficava por baixo do boneco saltitando ao som das toadas e cantos.
·         O Amo ou Fazendeiro, dono do boi e sua mulher, Dona Maria
·         A Filha do Amo
·         Os Vaqueiros, guardadores do boi
·         Os Rapazes
·         Os Índios Guerreiros com o seu Tuxaua, defensores do boi
·         Os Campineiros ou Camponeses
·         Os Mandigueiros: Pai Francisco/Nêgo Chico, Catirina, mulher de Nêgo Chico e seus auxiliares Cazumbá e sua mulher Guimar, que roubavam e enfeitiçavam o boi.
·         O Pajé e seu Ajudante, que quebravam o feitiço do boi
·         As Floristas, que ofereciam flores no final da comédia
Cada personagem ou grupos de comediantes tinha a sua indumentária própria, muito colorida, o seu tipo de dança e o seu canto apropriado na forma de toadas, compostos pelos próprios componentes dos bois ou por músicos locais.
Os cantos de ruas dos Cordões de Bois também eram criados pelos próprios componentes desses grupos ou pelos músicos locais, assim como os quadros da comédia.

Os Principais Cordões de Bois de Abaeté:

·         Boi Estrela Dalva, do Mestre Risó, que se tornou adversário de outro boi, o Boi Pai do Campo, do Mestre Roldão, em confrontos de cantos, de desafios e até brigas físicas entre os componentes desses grupos juninos.

·         Boi Pai do Campo, de Roldão/Raimundo Rodrigues Mendonça, que em 1948 criou o Cordão do Boi Caprichoso e em 1949 criou o Cordão do Boi Flor do Campo e finalmente, em 1950, criou o Cordão do Boi Pai do Campo, grupo que perdurou até o ano de 1959, quando foi extinto. Esse boi transformou-se no grande adversário de outro grande cordão de boi da cidade, o Cordão do Boi Estrela Dalva. Os méritos do sucesso do Cordão do Boi Pai do campo se devem também aos enredos escritos e musicados por Caboquinho/Humberto Cardoso e Mestre Castilho/Raimundo Castilho e os músicos e compositores Cardinal, Miguel Loureiro, Agenor Silva, Nilamom e outros músicos e compositores musicais de Abaetetuba.

Os cordões de bois de Abaeté saíam pelas ruas da cidade cantando músicas apropriadas e iam parando pelo caminho, fazendo apresentações nas residências com quem tinham feito um contrato prévio e alguns componentes dos cordões aproveitavam os botequins do caminho do boi para tomar uns goles de pinga de Abaeté, quando ficavam mais animados. No final da apresentação nas casas o cordão de boi era recompensado com uma quantia de dinheiro, acertada anteriormente, dinheiro que servia para bancar os gastos dos preparativos do cordão e no pagamento de músicos.

Quando esses bois desfilavam pelas ruas da cidade eles atraíam multidões de crianças e até adultos a correr atrás dos cordões e a apoteose eram as Despedidas dos bois da Quadra Junina, onde as multidões acorriam para apreciar essas memoráveis apresentações. Isso porque cada cordão possuía a sua torcida na cidade, que comparecia em massa para ver a Despedida ou Matança do boi de sua preferência. Sim, cada cordão possuía parte da cidade como torcida e as disputas entre eles eram acirradas, com direito a brigas feias, pois os brincantes  já se encontravam animados e exaltados por goles e goles de pinga, bebida alcoólica encontrada em abundância pelos botequins das esquinas da cidade.

Uma toada de cordão de boi, extraída do livro de Antonio Braga da Costa Júnior, “O Imaginário Religioso na Musicalidade dos Artistas de Abaetetuba (1930 a 1955)”:

São João, meu São João,
Eu vim pagar a promessa
De trazer esse boizinho
Para alegrar sua festa
Olhos e papel de seda
Com uma estrela na testa...

Os Intrumentos Musicais Usados nos Cordões Juninos de Abaetetuba:

Muitos músicos e artistas de Abaeté eram requisitados para compor músicas e enredos para os diferentes cordões de bois, de pássaros da cidade. Inicialmente foram os enredos do Mestre Castilho, com melodias de Chiquinho Margalho, Miguel Loureiro, Agenor Silva e Mestre Cardinal.

Os primeiros instrumentos musicais usados nos cordões juninos e folias de santos de Abaeté: rabecas, rabecões, violinos, violas, cavacos, violões, contrabaixo de corda e flautas e instrumentos de percussão rústicos. Anos depois é que entraram os instrumentos de sopro, especialmente os clarinetes e  saxofones ao lado dos antigos banjos, violas, rabecas e violões.
Atualmente os cordões de pássaros e bois já não mais existem em Abaetetuba e a nossa preocupação agora é o de fazer o devido resgate da memória cultural desses grupos juninos, que procuramos publicar na medida do possível. Existem ainda muitos aspectos dessa antiga tradição folclórica de Abaetetuba que precisa ser pesquisada e devidamente resgatada em forma de memoria cultural.

Blog do Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa

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