A MUSICALIDADE 5 DE ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS
Conjunto Os Muiraquitãs do acervo de
Lial Bentes
Um boi de Cordão de Boi de
Abaetetuba
A MUSICALIDADE 5 EM
ABAETETUBA ATRAVÉS DOS ANOS
A Quadra Junina
A musicalidade é um dos aspectos
da cultura de Abaetetuba que funciona como guardiã de uma rica memória, ainda
viva na lembrança de cada filho destas terras que vivenciou os ricos períodos
desse aspecto cultural e em muitas de suas vertentes, considerando aspectos dos
mitos, do imaginário e da cultura que essas vertentes da musicalidade
construíram através dos tempos, como veremos a seguir. Esse aspecto cultural da
musicalidade usou suas vertentes como forma de comunicação, de transmissão de
mensagens, de histórias que marcaram pra sempre, direta ou indiretamente, a
vida de muitas pessoas que ainda são depositárias dessas memórias ou que já
estão marcadas nos escritos de nossos historiadores em um rico acervo onde pode
se encontrar esses variados aspectos da musicalidade de Abaetetuba.
A música em si nada mais é que um
conjunto de sons articulados para formar um discurso poético de sons, vozes e
encenações de linguagem transmitida através dos tempos usando de recursos
rústicos até chegar aos mais sofisticados, de acordo com o período histórico em
questão.
Deste modo a musicalidade
torna-se uma importante fonte ou documento histórico da memória sobre o nosso
passado, conservado e analisado a partir de pessoas e contextos que nos permite uma volta a esse passado para o
conhecimento de seu meio e dos variados aspectos da musicalidade a ser
analisada.
Esses aspectos da musicalidade
serão aqui analisados em várias postagens que faremos sobre “A MUSICALIDADE EM
ABAETETUBA ATRAVÉS DOS TEMPOS” e, em certos casos, tecendo comentários,
considerações e sugestões de melhorias naquilo que pode se constituir um
aspecto cultural que pode se consolidar como um evento com identidade própria
e, desse modo, se constituir em Abaetetuba um evento que possa também gerar
renda e trabalho para o município.
Portanto, a memória da
musicalidade, é o ato de lembrar, de reter, o que já se passou, de reconstruir
a relação entre passado e presente, e que pode dar sentido à nossa história. Nesse
aspecto, a memória não seria uma realidade estática e perdida no contexto
cultural de sua época, mas dinâmica e inovadora, se reconstruída em novas
formas culturais que possam nos fazer recordar e apreciar no presente sob nova
roupagem, e com identidade própria, a ponto de se firmar no cenário da
musicalidade em geral como evento que chama a atenção de todos pela riqueza que
contém e, consequentemente, como fator turístico que possa chamar a atenção
para essas manifestações culturais e se firmar no calendário turístico do
município como evento que possa trazer emprego e rendas para muitas pessoas,
além de fazer o município ser conhecido e reconhecido como um verdadeiro centro
de cultura. Os estudos sobre a musicalidade em Abaetetuba estão atrelados à questão
da memória e do que a música desperta em cada pessoa e que marca momentos e
sentimentos que são revividos quando se ouve determinada música ou manifestação cultural onde a musicalidade se
faz presente. Todos nós temos aquelas músicas ou eventos musicais que
vivenciamos na infância, na adolescência, que podem nos trazer a sensação de
nostalgia e de rememoração dos bons tempos que já se foram, onde o passado
ressurge fragmentado em várias
lembranças, advindas de uma memória afetiva onde a sonoridade e até mesmo
sabores e cheiros tinham importante papel nesse processo.
Caso o autor de alguma foto ou texto não queira referidas fotos e textos nestas postagens,
favor avisar para retirarmos as mesmas. Em contrapartida, temos centenas de fotos e textos
que podem ser copiadas por pesquisadores, estudantes interessados, promotores e autores
científicos e culturais.
A Quadra Junina
A Quadra Junina é uma das manifestações mais ricas manifestações culturais brasileiras, que é comemorada em junho. Essa festa tem seus santos, seus rituais, as músicas típicas da Quadra Junina com suas letras apropriadas para a época. A Quadra Junina começou ainda na época da colonização do Brasil, quando os portugueses introduziram em nosso país muitas características da cultura da Europa, incluindo as festas juninas que se disseminaram por todo o país. Mas foi no Nordeste e Norte que essas festas criaram raízes, tornando-se forte traço da cultura dessas regiões. As comerações aos santos da Quadra Junina duram um mês e antigamente havia vários concursos para eleger os melhores grupos de Quadrilha. Essa comemoração é dentro do espírito católico onde se festeja 3 santos: no dia 13, Santo Antonio; no dia 24, São João; e no dia 29, São Pedro. E tem ainda o dia de São Marçal, que é comerado no dia 30 de junho, onde se faz o encerramento das festas da Quadra Junina. Santo Antonio é o que tem mais devotos no Brasil e ele é representado carregando o Menino Jesus e é conhecido como "Santo Casamenteiro" e o mais solicitado para ajudar moças solteiras em busca de noivos. E nas Igrejas se distribuem os tradicionais pãezinhos de Santo Antonio, que devem ficar guardados para garantir a fartura das casas durante o ano inteiro e isso remete ao fato de que o Santo era cozinheiro e que distribuía pão aos pobres. Nas Igrejas eram celebradas as trezenas de 1 a 13 de junho que se constituía de momentos de orações, leituras do responsório, bênção da água e a benção do pão. São João é conhecido como o "Santo festeiro", porque no seu dia são realizadas muitas festas e comemorações com muitas danças com fogueiras, mastros, fogos, palhas o místico "Banho de Cheiro" preparado com as ervas cheirosas típicas desse dia do nascimento de São João. Na Igreja Católica o Santo é venerado e devotado como Precursor, isto é, aquele que vai na frente de Jesus, abrindo os caminhos e anunciando-O ao povo. São Pedro é celebrado no dia 29, que também desperta a devoção de muitas pessoas e ele foi um pescador chamado por Jesus no meio de seu trabalho e que foi escolhido como o líder dos Apóstolos, tendo criado a comunidade cristã de Roma, vindo a se tornar o primeiro Papa da Igreja Católica. Ele é festejado como protetor das casas e suas chaves, porque São Pedro é guardião das chaves do Céu.
Também as Festas desses Santos Populares, vieram das tradições de
países europeus e que eram historicamente relacionadas com as festas pagãs da antiguidade e cristianizada na Idade Média como "Festa
de São João", no dia 24 de junho e outros dois Santos Populares celebrados
nesta mesma época, São São Pedro e São Paulo (no dia 29)
e a festa de Santo Antônio (no dia 13)
que, posteriormente, foram incorporadas pela Quadra Junina e se tornaram
tradição também no Brasil.
A QUADRA JUNINA DE ABAETETUBA
A Quadra Junina de Abaetetuba era
recheada de diferentes tipos de festas e com uma variada gama de elementos
altamente musicados que levavam em conta os mitos, as lendas, o imaginário e os
elementos da Natureza incluindo a Fauna, a Flora e a cultura advinda de outros
recantos do Brasil ou que eram retiradas dos costumes de nossas colônias
agrícolas e povoações ribeirinhas, que compunham as antigas tradições juninas
em nossas terras de Abaetetuba, assim como as Festas Dançantes e outros
aspectos festivos dessa quadra, conforme veremos a seguir.
Em
Abaetetuba essas festas seguiam o figurino de outras partes do Brasil que
também incorporaram elementos da cultura local, com direito à fogueiras, fogos
de artifícios, iguarias próprias da época, cordões juninos, festas dançantes
juninas, quadrilhas, banhos de cheiro, casamentos na roça e outras atrações da
Quadra. Essas festas de santos ainda existem em Abaetetuba, porém reduzidas de
seus antigos elementos e motivações, quase extintas pela modernidade e outras
formas de consumismo cultural.
A QUADRILHA
QUADRILHA, é
uma dança que evoluiu de uma dança de salão francesa entre o início do século
19 e a Primeira Guerra Mundial e que se
popularizara em toda a Europa e veio para o Brasil seguindo o interesse da
classe média e das elites portuguesas e brasileiras do século
19. Ao longo do século 19, a Quadrilha se popularizou no Brasil e se
fundiu com danças brasileiras e teve subsequentes evoluções, entre elas o aumento do número de pares e o
abandono de passos e ritmos franceses e da elite, e floresceu no Brasil rural,
daí o Vestuário Caipira, e se tornou uma dança própria dos Festejos Juninos,
principalmente no Nordeste. A partir de então, a quadrilha foi se tornando um
fenômeno popular e rural, tornando-se parte das festas folclóricas brasileiras.
FESTAS
JUNINAS DANÇANTES:
Em
Abaetetuba as tradicionais Festas Dançantes da Quadra Junina eram realizadas pelas
ruas da cidade, em festas de terreiros, pelos clubes esportivos como Vasco,
Vênus, Abaeté, Tietê, Palmeiras e clubes sociais, como Bancrévea Clube,
Assembléia Abaetetubense e AABB-Associação Atlética Banco do Brasil, e nos demais
clubes e Escolas da cidade e a tradicional festa da família Abreu.
Essas festas juninas obedeciam ao
tradicional figurino das autênticas músicas juninas, da quadrilha junina
tradicional, com suas roupas caipiras, dos pares enfileirados, dos passos e
movimentos tradicionais, obedecendo ao comando do “marcador” em passos de
alavandus, anarriês, troca de damas, ganches, coroas, chames e outros passos.
Esse tipo de festa ainda tenta subsistir através das festas juninas promovidas
pelas escolas e a tradicional festa junina da família Abreu. As quadrilhas
tradicionais praticamente já não mais existem e foram substituídas pelas
quadrilhas modernas. Vide item adiante sobre festas dançantes juninas.
CASAMENTOS NA ROÇA:
Os Casamentos na Roça, eram
tradicionais na Quadra Junina de Abaeté, que representava a comédia de um
casamento de verdade, com todos os seus elementos, porém com personagens
matutos, como: noivo, padrinhos, madrinhas, pais, juiz, escrivão, padre, discursos,
conselhos e a dança da valsa e com o uso de utensílios e roupas apropriadas da
quadra, em coloridos berrantes e vestidos errados e em palavreado cômico, muito
divertido realmente. Eram os casamentos na roça feitos nos salões dos clubes ou
em desfiles musicados pelas ruas da cidade. Atualmente, a única entidade que
promove casamentos na roça em Abaetetuba é a Escola São Francisco Xavier, com
apenas o desfile do pessoal em roupas caipiras transportadas em carroças de
cavalos pelas ruas da cidade e sem as comédias dos antigos casamentos da roça e
esse desfile serve para anuncia a grande festa junina que a escola promove
todos os anos. Os tradicionais casamentos na roça da quadra junina de
Abaetetuba já estão extintos.
OS CORDÕES DA QUADRA JUNINA:
Os Cordões da
Quadra Junina, com a citação de 1906: “Os cordões de bois de Abaeté saiam pelas
trilhas e pelas casas do lugarejo”.
Isso quer nos dizer
que, desde os primeiros anos do século 20 e até antes, já existiam os cordões
juninos na pequena cidade de Abaeté de pouco mais de 3.000 habitantes. O
cearense Manoel Antonio de Souza, a partir de 1915, ajudou na manutenção do
rico folclore junino de Abaeté, através dos cordões de pássaros, bois e
insetos, sendo desse tempo alguns antigos cordões de Abaeté:
Cordão do Boi Canário
Cordão do Boi Pingo
de Ouro
Cordão do Boi Touro
Russo
Cordão do
Beija-Flor, de D. Nenê Pontes
Cordão do Gavião
Cordão da Borboleta
Cordão do Tucano,
criado por Santino Rocha
Existiu outro
Cordão do Tucano, de João Batista
Cordão da Andorinha
Cordão do
Ben-te-vi.
Usaremos a
expressão “cordão”, que conforme nossas pesquisas em jornais e documentos
antigos, o nome cordão se refere aos grupos juninos antigos que apresentavam as
comédias musicadas com motivações rurais e outras motivações retiradas da cultura
local. O mesmo termo “cordão” também era usado na quadra carnavalesca para se
referir aos grupos que se formavam nessa quadra para brincar o carnaval.
Portanto, a expressão “cordão” se tornou típica para os grupos de quadra junina
e carnavalesca e é esse termo que usaremos para retratar os cordões da Quadra
Junina de Abaetetuba.
Os diversos quadros
dos cordões juninos eram musicados e o antigo músico Nilamon Xavier de Sena,
liderava a parte musical do Cordão do Tucano e do Cordão da Andorinha e cordões
de bois. Após esses antigos cordões, vieram outros cordões para enriquecer a
quadra junina de Abaeté.
Um cordão de
pássaro da quadra junina chegava a ter até 55 integrantes e os figurinos eram
esmerados, com roupas de cores bem vivas, brilhantes, em personagens que
dançavam e cantavam ao som das toadas dos músicos que acompanhavam os grupos de
pássaros.
Família Abreu:
O casal Raimundo
Abreu/Mestre Abreu e sua esposa Joana Lopes de Abreu foram responsáveis pela
continuidade dessa arte folclórica em Abaeté, repassando essa responsabilidade
para seus filhos, especialmente Nina Abreu, criadora de belos cordões em
Abaeté. Nina Mary de Abreu, nasceu no dia 11/9/1935 em Abaeté herdou de seus
pais o gosto pelo folclore junino. Foram inúmeros os cordões juninos que essa
grande folclorista e família organizaram na cidade de Abaetetuba.
Os cordões juninos
eram comédias com personagens da vida rural e se tornaram tradicionais na
cidade de Abaeté, perdurando até a metade do século 20, enchendo as ruas de
Abaetetuba de muitos canto, música, alegria, colorido e brilho.
Outros Antigos Cordões
nas Artes Folclóricas Juninas de Abaetetuba:
Cordão do Uirapuru
Cordão do Rouxinol,
foi criado por Dona Maroquita, esposa do Sr. Mirico
Cordão do
Periquito, que foi criado por Benedito Sena dos Passos/Bandute Sena.
O Cordão do
Periquito, posteriormente, foi adotado e recriado pela folclorista Nina
Abreu/Nina Mary Abreu da Silva, nascida em 30/9/1935, filha de Raimundo Abreu e
Joana Lopes de Abreu, que também criou ou recriou outros cordões, como os
cordões:
Cordão da Borboleta
Cordão do Canário
Cordão do Curió
Cordão da Arara
Outras pessoas
criaram cordões juninos em Abaeté:
O Cordão da
Borboleta, cujo 1º cordão foi criado pelo funcionário da Receita e musicista
fundador da Banda Henrique Gurjão, Horácio de Deus e Silva, por volta de 1904.
O 2º Cordão da
Borboleta foi criado por Dona Ziloca e seu marido, o Mestre Afonso e este
também foi o criador de alguns cordões da quadra Carnavalesca.
Posteriormente o
Cordão da Borboleta foi recriado por Nina Abreu, com o acréscimo de outros
quadros cômicos ou dramáticos e muita musicalidade.
Cordão do Canário,
recriação de Nina Abreu
Cordão do Ten-Ten
Cordão do Curió,
criação da folclorista Nina Abreu
Cordão do Camarão,
de João Dorme, figura popular de Abaeté. Aqui o cordão foge do padrão de
pássaros ou boi e apanha a figura do camarão, crustáceo muito comum em nossos
rios, igarapés e baías.
Cordão do Inambé,
criados pelos familiares de Dona Júlia Lopes, vindo das Colônias da região
rural de Abaeté para fazer apresentações na cidade. O Inambé é uma ave
silvestre muito arisca, de difícil domesticação e que existia em boa quantidade
pelas nossas matas e agora encontra-se quase extinto.
Cordão do Papagaio,
da mesma época que o Cordão do Periquito, porém com muita música e comicidade
de seus componentes, especialmente do saudoso ator Pombo da Maroca Lima, seu
criador.
Esses cordões se
apresentavam na forma de teatros musicados da vida rural, com o enredo, cantos
e músicas compostas pelos próprios componentes desses grupos juninos ou pelos
artistas e músicos de Abaeté.
As Personagens dos
Cordões de Pássaros:
As personagens ou comediantes
de um cordão de pássaros ou insetos, cada qual com uma função na comédia
musicada:
·
A Ave, era o animal de estimação de uma Princesa e todo o enredo da
comédia se desenvolvia sobre essa Ave ou Inseto, que era representado por uma pequena
escultura ricamente enfeitada e decorada,
que era carregada na cabeça de uma linda moça, esta também vestida em lindo e
brilhante colorido.
·
A Dona da Ave, que sempre era uma linda Princesa
·
O Guardião da Ave, espécie de Bobo
·
As Floristas, personagens que ofereciam flores no fim da comédia
·
Os Valentes Índios Guerreiros e seu Tuxaua, o destemido guerreiro
Morubixaba, a índia Iracema, que ofereciam o pássaro de presente à Princesa e o
defendiam dos perigos.
·
O Curandeiro ou Pajé, que defumava e benzia o pássaro, quebrando o
encanto, o feitiço do caçador Mandigueiro.
·
Os Soldados, defensores atrapalhados do pássaro
·
Os Campineiros ou Camponeses, que eram personagens festivos no
aniversário da princesa.
·
O Mandingueiro ou Feitiçeiro, pai do Baleador, que eram os vilões da
história, que enfeitiçavam o pássaro por pura maldade e inveja.
·
A Bruxa Má ou Feiticeira, mulher do Feiticeiro, que ajudava nas maldades
do marido e pais do Baleador.
·
As Fadas Boas e as Fadas Más, que tentavam ajudar ou prejudicar a Ave
·
O Saci, que tentava ajudar a descobrir o esconderijo do Feiticeiro e sua
família, raptores do pássaro ou inseto.
·
Os Guardas da Floresta, personagens festivos dos cordões
·
Os Caçadores ou Passarinheiros das florestas
·
Os Matutos, personagens atrapalhados dos cordões
·
Mulatas-de-Cheiro, personagens festivos dos cordões
Como se vê acima,
as personagens de um cordão de pássaro eram retiradas dos contos de fadas, dos
mitos e lendas amazônicas, do meio rural ou da cultura local.
Os Cordões de Bois de
Abaetetuba:
Os Cordões de Bois
de Abaeté, também representavam comédias altamente musicadas e que retratavam a
vida rural, que em grupos de brincantes saíam pelas estradas ou ruas da cidade,
apresentando-se em casas escolhidas previamente. Cada grupo de comediantes se
apresentava em quadros, com danças, cantos e diálogos musicados. Os próprios
componentes desses grupos juninos se encarregavam de preparar o enredo e os
cantos para os quadros apresentados eram de autoria dos participantes do cordão
ou eram ajudados pelos antigos músicos, compositores e autores musicais de
Abaetetuba.
As Despedidas dos
Bois:
No final da quadra
junina aconteciam as “Despedidas” ou “Matanças” do boi, isto é, o boi se
recolhia, para voltar somente no próximo ano e essa despedida se realizava com
uma grande festa de encerramento das apresentações dos cordões de bois. O boi
era um boneco quase do tamanho de um boi vivo, oco, embaixo do qual se colocava
o brincante denominado “tripa”, que saltitava ao som das toadas, embaixo desse
boi, este devidamente enfeitado, cheio de fitas e brilhos, dançando sob o som dos músicos que compunham o
cordão. Essas apresentações eram realmente empolgantes, eletrizantes e os
artistas e folcloristas do Boi do Arraial do Pavulagem, em Belém, que nos
perdoem, mas ele perde de longe para os antigos bois de Abaeté. Pena que nossos
idealistas mestres folclóricos, Roldão e Risó, se foram e não deixaram herdeiros.
As Personagens de
Um Cordão de boi:
Personagens ou
comediantes dos cordões de bois eram criados pelos componentes dos cordões,
representados por pais de famílias, trabalhadores e cada personagem ou grupo de
personagens com música e papel específico no cordão, como:
·
O Boi, que era um boneco em tamanho natural de um boi e o Tripa, este o
condutor do Boi e que ficava por baixo do boneco saltitando ao som das toadas e
cantos.
·
O Amo ou Fazendeiro, dono do boi e sua mulher, Dona Maria
·
A Filha do Amo
·
Os Vaqueiros, guardadores do boi
·
Os Rapazes
·
Os Índios Guerreiros com o seu Tuxaua, defensores do boi
·
Os Campineiros ou Camponeses
·
Os Mandigueiros: Pai Francisco/Nêgo Chico, Catirina, mulher de Nêgo
Chico e seus auxiliares Cazumbá e sua mulher Guimar, que roubavam e
enfeitiçavam o boi.
·
O Pajé e seu Ajudante, que quebravam o feitiço do boi
·
As Floristas, que ofereciam flores no final da comédia
Cada personagem ou
grupos de comediantes tinha a sua indumentária própria, muito colorida, o seu
tipo de dança e o seu canto apropriado na forma de toadas, compostos pelos
próprios componentes dos bois ou por músicos locais.
Os cantos de ruas
dos Cordões de Bois também eram criados pelos próprios componentes desses
grupos ou pelos músicos locais, assim como os quadros da comédia.
Os Principais Cordões de Bois de
Abaeté:
·
Boi Estrela Dalva, do Mestre Risó, que se tornou adversário de outro
boi, o Boi Pai do Campo, do Mestre Roldão, em confrontos de cantos, de desafios
e até brigas físicas entre os componentes desses grupos juninos.
·
Boi Pai do Campo, de Roldão/Raimundo Rodrigues Mendonça, que em 1948
criou o Cordão do Boi Caprichoso e em 1949 criou o Cordão do Boi Flor do Campo
e finalmente, em 1950, criou o Cordão do Boi Pai do Campo, grupo que perdurou
até o ano de 1959, quando foi extinto. Esse boi transformou-se no grande
adversário de outro grande cordão de boi da cidade, o Cordão do Boi Estrela
Dalva. Os méritos do sucesso do Cordão do Boi Pai do campo se devem também aos
enredos escritos e musicados por Caboquinho/Humberto Cardoso e Mestre
Castilho/Raimundo Castilho e os músicos e compositores Cardinal, Miguel
Loureiro, Agenor Silva, Nilamom e outros músicos e compositores musicais de
Abaetetuba.
Os cordões de bois
de Abaeté saíam pelas ruas da cidade cantando músicas apropriadas e iam parando
pelo caminho, fazendo apresentações nas residências com quem tinham feito um
contrato prévio e alguns componentes dos cordões aproveitavam os botequins do
caminho do boi para tomar uns goles de pinga de Abaeté, quando ficavam mais
animados. No final da apresentação nas casas o cordão de boi era recompensado
com uma quantia de dinheiro, acertada anteriormente, dinheiro que servia para
bancar os gastos dos preparativos do cordão e no pagamento de músicos.
Quando esses bois
desfilavam pelas ruas da cidade eles atraíam multidões de crianças e até adultos
a correr atrás dos cordões e a apoteose eram as Despedidas dos bois da Quadra Junina,
onde as multidões acorriam para apreciar essas memoráveis apresentações. Isso
porque cada cordão possuía a sua torcida na cidade, que comparecia em massa
para ver a Despedida ou Matança do boi de sua preferência. Sim, cada cordão
possuía parte da cidade como torcida e as disputas entre eles eram acirradas,
com direito a brigas feias, pois os brincantes
já se encontravam animados e exaltados por goles e goles de pinga,
bebida alcoólica encontrada em abundância pelos botequins das esquinas da
cidade.
Uma toada de cordão
de boi, extraída do livro de Antonio Braga da Costa Júnior, “O Imaginário
Religioso na Musicalidade dos Artistas de Abaetetuba (1930 a 1955)”:
São João, meu São
João,
Eu vim pagar a
promessa
De trazer esse
boizinho
Para alegrar sua
festa
Olhos e papel de
seda
Com uma estrela na
testa...
Os Intrumentos
Musicais Usados nos Cordões Juninos de Abaetetuba:
Muitos músicos e
artistas de Abaeté eram requisitados para compor músicas e enredos para os
diferentes cordões de bois, de pássaros da cidade. Inicialmente foram os
enredos do Mestre Castilho, com melodias de Chiquinho Margalho, Miguel
Loureiro, Agenor Silva e Mestre Cardinal.
Os primeiros
instrumentos musicais usados nos cordões juninos e folias de santos de Abaeté:
rabecas, rabecões, violinos, violas, cavacos, violões, contrabaixo de corda e
flautas e instrumentos de percussão rústicos. Anos depois é que entraram os
instrumentos de sopro, especialmente os clarinetes e saxofones ao lado dos antigos banjos, violas,
rabecas e violões.
Atualmente os
cordões de pássaros e bois já não mais existem em Abaetetuba e a nossa
preocupação agora é o de fazer o devido resgate da memória cultural desses
grupos juninos, que procuramos publicar na medida do possível. Existem ainda
muitos aspectos dessa antiga tradição folclórica de Abaetetuba que precisa ser
pesquisada e devidamente resgatada em forma de memoria cultural.
Blog do Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa

Nenhum comentário:
Postar um comentário