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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Júlio Orlando dos Santos - Cultura e Poesia em Abaetetuba








Júlio Orlando dos Santos - Cultura e Poesia em Abaetetuba
As músicas dos cantores e compositores de Abaetetuba são de cunho regionalista e de uma simplicidade a toda prova e não são obras-primas da grandeza dos grandes compositores do Brasil e do Pará e muitos podem até achá-las piégas. O mérito dessas músicas e composições é retratar a cultura e a vida do povo de Abaetetuba e essas músicas e composições são parte da própria cultura de Abaetetuba.
JÚLIO ORLANDO DOS SANTOS, é abaetetubense nato, que sempre gostou de cantar e compor desde a sua juventude nos grupos de jovens católicos de Abaetetuba e até os dias atuais, foi vereador na gestão dos prefeitos Elzemar da Silva Paes (1997-2000) e Francisco Maués Carvalho (2001-2004), é católico engajado na Pastoral Familiar e é pesquisador da história da Igreja Católica (cujos trechos serão futuramente publicados por este Blog), filho de Orlando Maciel e Julieta dos Santos/Giloca (esta casada em um 2º matrimônio), tem vários irmãos e irmãs dos dois casamentos de sua mãe, sendo duas destas irmãs conceituadas pesquisadoras, escritoras e poetisas em Abaetetuba (Maria do Monte Serrat e Maria de Nazaré) com livros publicados e Júlio Orlando é casado com Maria José Machado e com filhos.
AS MÚSICAS DE JÚLIO ORLANDO DOS SANTOS
A música abaixo é uma homenagem do Júlio Orlando ao chamado Vovô. Este era um antigo funcionário do também antigo Departamento de Estradas de Rodagens-DER, que saía em serviços pelas estradas de Abaetetuba e aproveitava o tempo ocioso para retirar do mato um tipo de graveto que só ele conhecia. E com o uso de um canivete Vovô começava a esculpir na casca do graveto figuras geométricas que lhes vinham da inspiração do momento e, após horas nesse trabalho de esculpir a varinha, surgia um belo trabalho artesanal de uma varinha que em toda a sua extensão possuía centenas de figuras geométricas, conforme cita a música abaixo de Júlio Orlando. Para quem não conhece a história do Vovô escultor a música tem duplo sentido.

A VARINHA DO VOVÔ

A varinha do vovô é bonitinha
A varinha do vovô é engraçadinha

No toque retoque de feri
Ele é grande na arte de esculpi
Com seu canivete a entalhar
Quando a vara está em suas mãos
Ele faz maravilhas sem medir
Vovô é um grande artesão
E rola pra lá e rola pra cá
E lá vai o vovô a balançar

Refrão:
Sai quadrado triângulo
Sai losângulo
É como uma máquina teando
Com brilho estilo e sutileza
Tira da mãe natureza
A matéria e a beleza
E começa a lapidar
É encomenda pra lá encomenda pra cá
E lá vai o vovô a balançar.

Como Júlio Orlando é amazônida ele também compõe músicas de exaltação da história e cultura da Amazônia, conforme a música abaixo.

AMAZÔNIA, MINHA ALDEIA

Amazônia
Minha aldeia
Tem história
Cultura, tradição, costumes e crenças
Tuas lendas
Os teus mitos
Teu folclore
Cultura, tradição, costumes e crenças

É pororoca, açaí, é tapioca
Jacaré a mandioca, Peixe-boi, mapinguari
O curupira, sucuri, boto, iara
Arara azul a seringueira
O saci, e o miriti

Tuas matas
Tuas águas
Tuas riquezas
Cultura, tradição, costumes e crenças

Tua fauna
Tua flora
Tua nobreza
Cultura, tradição, costumes e crenças

A nossa gente
Embalada pelas águas
Com medo da curupira
Na reponta da maré
Preamar enchente
Na vazante o lobisomem
Boto, matinta-pereira
Na beira do garapé

Obrigado deus Tupã
Obrigado deus Jaci
Por fartura em minha aldeia
Por eu ter nascido aqui.

Na música abaixo, Júlio Orlando fala da lenda do boto, que é uma lenda contada como verdade pelos ribeirinhos das centenas de ilhas de Abaetetuba e até os dias atuais, em suas diferentes versões.

REI DOS RIOS

Foi boto não, seu moço
Foi boto não, a criança que nasceu
Tem a cara do patrão

O rei da sedução está rondando
As casas ribeirinhas
É noite de luar
Mistérios a navegar
Nas correntezas
No rio perfume exalando pelo ar
Arte de seduzir
Donzelas as paixões
Agita o coração
Encanto e emoção
Não dá pra segurar
Corre pra beira-mar
Pra um moço namorar
E a ele se entregar

Refrão:

Foi boto não, seu moço
Foi boto não, a criança que nasceu
Tem a cara do patrão

Histórias de então do nosso povo
Contada por patrão
Pra engrambelar o pai
Que boto vira homem namora a beira-mar
Emprenha as meninas nas noites de luar
Conto pra boi dormir
Arte de confundir
A gravidez precoce
É a insensatez de muitos

O miritizeiro é uma palmeira da Amazônia onde tudo é aproveitado. Do fruto miriti se faz o delicioso vinho de miriti e o mingau de arroz com miriti. Da polpa se faz o brinquedo de miriti agora exportado até para o exterior e todas as partes do miritizeiro são aproveitados pelos ribeirinhos locais. Júlio Orlando fez a música abaixo falando do festival do miriti chamado Miritifest, que atrai milhares de turistas á Abaetetuba.

MIRITIFEST

Miriti é festa
Que contagia
É cultura popular
Surge imensa riqueza
Do brejo, pro o mundo girar
É a palmeira milagrosa
De utilidades mil
É o fruto deste solo
Do Pará, Norte, Brasil

Da arte do artesanato
É a magia e a inspiração
Do belo que enfeita e encanta
Que nos dá a sensação
De navegar mundo afora!
Nas asas da imaginação
Através do toque retoque
Que sai das mãos do artesão.

Na música abaixo Júlio Orlando brada a sua indignação contra a agressão que a Hidrelétrica de Tucuruí provocou no grande rio Tocantins e outras agressões que o Pará e o seu povo sofrem até os dias atuais.

ALGEMAS

Chora Tocantins
Com tuas mãos algemadas
Por uma grande muralha
Barrando a tua liberdade
A sutileza de teu leito foi agredida
Qual efeito pororoca
Que só provoca terror
Terror que arrebenta
Que alarga, que obstrui
Que derruba, que extermina
Que arrasta que domina
Que constrói e que destrói

Chora indignado Tocantins
Tua liberdade não tem preço
Tua virgindade era bonita
Cultura é identidade
História de um povo é eternidade
Te estruparam acorrentado ai que dor
Te sangraram, te acuaram
Poluíra, te despiram,
Te assombraram, te agrediram
E nada vale o teu grito e o teu clamor
Num meio hostil e a pergunta que ecoa
No ar, no mar, na terra
No cerrado brasileiro
No Congresso, no Senado
Nos rincões deste país
Quando é que o Pará vai ser Brasil?

Abaetetuba é rica em lendas, mitos, crendices, superstições e histórias de assombrações e de fantasmas. Júlio Orlando se reporta a uma famosa história de fantasma que assombrava a cidade em tempos passados. Esse tempo era bom de viver, apesar dos fantasmas, por que agora o que assombra é a violência que grassa em todos os recantos do município.

FANTASMA DE ABAETÉ

Meia noite ele surgia
Caminhando pelas ruas
Tinha forma esquisita
Apavorando as criaturas
Tum, tum, tum, seus passos ritmados
Tum, tum, tum, em noite de luar
Tum, tum, tum, acordava a cidade
Tum, tum, tum, estarrecendo quem o via
Passar

Acredite se quiser, minha gente
Era estranho sim senhor
Acredite se quiser
No fantasma de Abaeté

Tinha altura de girafa
De cor branca como a neve
Sua forma animal
Ora pequeno, ora um paquiderme
Traz notícias de seus filhos
Tum, tum, tum, seus passos ritmados
Tum, tum, tum, em noite de luar
Tum, tum, tum, acordava a cidade
Tum, tum, tum, estarrecendo quem o via
Passar

Acredite se quiser, minha gente
Era estranho sim senhor
Acredite se quiser
No fantasma de Abaeté.

Mariá é uma música que mistura a cultura de Abaetetuba com os sentimentos humanos. É o lado romântico de Júlio Orlando.

MARIÁ

Mariá
Traz o mingau
Mas traz bem quente
Que eu vou tomar, com castanha-do-pará
Mariá
Hoje é luar
Faz o menino se aquietá
Traz a viola, vamos prosar
E vem pra cá, vamos namorar
Amanhã ninguém sabe se vai fazer luar
Amanhã ninguém sabe se vai fazer luar
Mariá

Mariá
Olha pro céu
Estrela, a lua e o mar
Reflete nós
Num beijo a sós
Que alimenta
O nosso amor
E também cura
A nossa dor
Mariá escuta a voz
Da madrugada chamando nós
A rede está vazia
Vai amanhecer o dia
E vamos nos amar
Amanhã ninguém sabe se vai fazer luar
Amanhã ninguém sabe se vai fazer luar
Mariá.

Na cultura de Abaetetuba aparece o fofoi que era um canto versificado para os noivos que acabavam de casar nas Ilhas de Abaeté viajando nas canoas ribeirinhas e a comitiva das canoas a festejar os recém-casados cantando o fofoi. E a música é baseada em um livro de lendas e cultura resgatadas por sua irmã escritora, Maria de Nazaré.

REBOQUE DOS NOIVOS

Vem Sinhá
Cantar o fofoi
Fofoi é de graça, vem logo cantar
Vem nesse reboque aproveitar a maré
Olha a cachoeira do rio Abaeté
Os noivos casaram
Aproveira a maré
Pra chegar ainda cedo no Curuperé
Vem sinhá os versos tirar
Dos outros reboques fofoi vão gritar
De pinga to quente, eu junto com Zé
Vamos minha gente
Pro Curuperé

Eu sou filho de uma rosa
Ae fofoi
Nascido de uma roseira
Ae fofoi
Eu não posso desprezar
Ae fofoi
Uma flor
Que tanto cheira
Ae fofoi.

Na música abaixo Júlio Orlando se reporta a riqueza que no passado era a Amazônia e Abaeté com seu povo, a natureza e a exuberância dos rios, flora e fauna e compara com a situação atual em forma de extinção, destruição, poluição e derrespeito do homem para com a então rica natureza e clama pela volta do equilíbrio dos elementos da natureza, inclusive o homem, que sente falta da fartura e pureza dos tempos antigos.

BÁLSAMO

Povo meu
Deixa eu cantar um canto
Deixa enxugar teu pranto
Deixa eu ser o teu bálsamo
Povo meu
Esqueçamos as guerras
E plantemos na terra
O amor que vem de Deus
Triste é
A gente olhar outrora
No bojo da história
Nossa gente era de fé
Florestas verdejantes
E matagais floridos
Rios fecundos, animais protegidos
Triste é
A gente olhar agora
A natureza chora
Com queimadas e inundações
E fauna reduzida
Com extinção mortífera
Fruto de nossa ambição
Ah! Não dá mais para segurar
A gente tem que respirar
Ar puro que é a razão de todo o ser
Ah! Não dá mais pra continuar
O homem e a natureza têm de estar
De mãos dadas que é a grandeza do viver
Povo meu.

Na música abaixo Júlio Orlando se reporta a fatos históricos da história de Abaetetuba, a fé do povo, o ciclo da cana-de-açúcar e outras culturas e atividades econômicas e alguns trechos das famosas lendas de Abaetetuba.

FATOS E SÁTIRAS

Refrão:
Cabocla, caipira, porá
Tu tens muitas histórias
Nesse Grão-Pará
Um náufrago aqui chegou
E um altar ergueu
Pra índios mortiguar

Freguesia começou
Samaúma superou
Quem pesca, edifica, quem planta
Quem colhe, debulha, se chama Abaeté
Cana de canavial, cacau, e o nosso açaí
Engenhos e as olarias
Cachaça que outrora
Melhor do Brasil

Refrão:

Aqui o padre apanhou
A formiga dominou
Fortes amaldiçoada, mas abençoada
Pela Virgem Mãe
Cobra grande aqui morou
Um homem a terra sugou
Havias bois e serenatas
A Santa foi trocada
E o povo rebelou

Refrão:

Aqui peso já boiou
Contraste já se consagrou
Terra que choveu dinheiro
Solo brasileiro, árvores chou
Recordo São Miguel do Beca
São Raimundo dividido
Defunto aqui é caso sério
Não quis cemitério novo pra habitar

Refrão:

Houve tempo em Abaetetuba em que o único meio de locomoção de pessoas e transporte de mercadorias de Belém era feito através de pequenos barcos e canoas à vela pelos inúmeros rios, igarapés e baías do município. Aqui Júlio Orlando homenageia um famoso marítimo e sua não menos famosa canoa à vela “Cidade de Abaeté” e cita localidades e gêneros e outras novidades vindas da capital do Estado, Belém do Pará, que causava até alvoroço em sua chegada à Abaetetuba.

CIDADE DE ABAETÉ

Olha, lá vem...
De Belém
“A Cidade de Abaeté”
Olha, lá vem, lá vem, lá
A Cidade de Abaeté
Ela vem velejando
Ela vem balançando
Ela vem, lá

Quando ela apontava
Tabatinga ou Jarumã
Alegrava nosso povo
Euforia e emoção
Vem trazendo mantimentos
Linha, agulha e botão
Milho, arroz, café, açúcar, manteiga, feijão
E pão
Macarrão, charque, sardinha, tecidos
Remédio e sal
Traz notícias de seus filhos
Novidades e o jornal

Olha lá, vem
Ela vem velejando
Ela vem balançando
Ela vem, lá

Atracou na Ponte Grande
Alegria era geral
Corre-corre, entrega-entrega
Desembarque afinal
Emiliano , homem valente
Vai pra casa descansar
Vários dias mal dormidos
Velejando em alto mar
Outro já desperta
A maré como é que está?
Pega novas encomendas
Abastece e volta ao mar

Olha lá vai
Ela velejando
Ela vai balançando
Ela vai lá
Olha lá vai, pra Belém
A Cidade de Abaeté.

O título da música abaixo lembra a frase filosófica “Quem eu sou, de onde vim e para onde vou?” Porém o título da música de Júlio Orlando, apesar do viés filosófico, quer nos contar um pouco a história de Abaetetuba, suas antigas atividades econômicas e lendas que o progresso fez desaparecer e, com isso, também o desaparecimento da memória cultural do município. De tudo o que Júlio Orlando se refere nessa música só resta o açaí, o miriti, a fé na Virgem da Conceição e outras poucas coisas. Abaetetuba mudou muito com o progresso. Porém é necessário o resgate, em diferentes aspectos, daquilo que Abaetetuba já foi e teve. Uma cidade sem memória é uma cidade sem história. Júlio Orlando nos ajuda nesse ponto.

O QUE FOMOS O QUE SOMOS O QUE TEMOS

O que fomos o que somos o que temos
O que fomos o que somos o que temos
Nossa terra foi crescendo dia-a-dia
Povoado, freguesia e depois vila
Hoje é cidade que aos olhos irradia
Do nativismo surgiu nossa valentia

Nossa cultura, tradição, costume, credo
O povo buscava o certo
Cultivando o seu chão
Plantando cana, extraindo andiroba
Seringueira a qualquer hora
Se doava feito pão
Nosso cacau, ucuúba, macaxeira, mandioca e a
Peneira, miriti, arroz, feijão
O urucu, açaí sangue da vida
Engrandece a economia
Olarias e embarcações

Refrão:

A nossa gente embalada pelas águas
Com medo da curupira
Na reponta da maré
Pré amar, enchente, na vazante o lobisomem
Boto, matinta-pereira na beira do igarapé
As olarias e os engenhos que cresceram
Depois desapareceram
Sem nos dar explicação
E com o progresso, veio luz, água encanada
Mais escolas, mais estradas
Vem TV, computação

Refrão:

Nossas crianças, já sem rodas, sem histórias
Vão perdendo da memória
Desse tempo, a vibração
Foi-se estaleiros, boi-bumbá
O chá da quina, permanece a fé divina
Na Virgem da Conceição.

Refrão:

A música abaixo segue o esquema da música acima, porém com pitadas de nostalgia.

NOSTALGIA

Refrão:
Onde estão
Os teus engenhos, mãe
Tuas olarias pra onde vão mamãe?
Teu cacau, tua borracha
Tuas canas verde
Onde é que estão?
Teus roçados, tua cachaça
Que já sumiram nos aningais
Alegria de teus gritos
Dos teus apitos, não se tem mais
Alegria de teus gritos
Dos teus apitos, não se tem mais

Terra de homens fortes
De bravos guerreiros não se fala mais
Enfraqueceram sufocando o brado
Dentre os cipoais
Que hoje cobrem casas
Taperas tristonhas, frios igarapés
E rios solitários poluídos aquários
De seus mandubés

Refrão:

Minha linda jóia
Helena de Tróia
Morreria por ti,
Tantas as belezas, tantas as riquezas
Que vimos sumir
Toda a tua cultura, toda a tua bravura
Quase se perdeu
Até a Ponte Grande
De tristeza imensa
Desapareceu

Refrão:

Prof. Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa, em 21/4/2011.

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