Em busca de outros Iluminismo
Daniel Samam
"Apoiando-se na Razão e na Ciência, as Luzes europeias enfrentaram
a servidão — mas também sacrificaram todas as demais formas de conhecimento. Em
contrapartida, é preciso afirmar, a partir das lutas, as Epistemologias do
Sul", por Boaventura de Sousa Santos.
Em busca de
Outros Iluminismos, por Boaventura de Sousa Santos
Publicado no Outras Palavras.
A conhecida revista de arte
norte-americana Artforum solicitou-me um curto texto sobre o tema “O que é o
Iluminismo?” Este é o título do famoso texto de Immanuel Kant publicado em
1784, glosado desde então por muito autores, inclusivamente por Michel
Foucault. A editora da revista queria especificamente que eu abordasse o tema a
partir da minha proposta das epistemologias do sul (Epistemologies of the South:
Justice against Epistemicide. Nova Iorque, Routledge, 2014; The End of
the Cognitive Empire: The Coming of Age of the Epistemologies of the South. Durham, Duke University Press,
2018.). Eis a minha resposta.
Em 1966, um dos mais inovadores
intelectuais ocidentais do século XX, Pier Paolo Pasolini, escreveu que somos
muitas vezes prisioneiros de palavras doentes. Referia-se a palavras que
parecem plenas de sentido, mas que, de fato, estão desprovidas dele ou, talvez
mais precisamente, palavras que possuem conotações vagas e misteriosas, mas nos
deixam muito inquietos, dada a sua aparência de estabilidade e coerência.
Pasolini refere três palavras doentes—cinema, homem e diálogo—, insistindo no
fato de existirem muitas mais. Penso que uma delas é Iluminismo. Foucault
mostrou já que somos prisioneiros desta palavra. Contudo, na sua obsessão com a
ideia de poder, não reconheceu que os prisioneiros nunca estão totalmente
aprisionados e que a resistência nunca é apenas determinada pelas condições
impostas pelo opressor. Afinal, as conquistas revolucionárias dos protagonistas
do Iluminismo europeu mostram-nos precisamente isso. Devemos então começar a
partir do ponto em que Foucault nos deixou. Poderemos nós curar essa palavra
doente? Duvido que possamos. Contudo, se houver uma cura, ela ocorrerá, sem
dúvida, contra a vontade do doente.
Se perguntarmos a um budista o
que é o Iluminismo, poderemos obter uma resposta como a de Matthieu Ricard, um
monge que vive no Nepal. Para Ricard, Iluminismo implica:
Um estado de
conhecimento ou sabedoria perfeitos, aliado a uma infinita compaixão. Neste
caso, o conhecimento não significa somente a acumulação de dados ou uma
descrição do mundo dos fenómenos até aos mais ínfimos pormenores. O Iluminismo
é uma compreensão tanto do modo relativo da existência (a forma como as coisas
se nos apresentam) como do modo último da existência (a verdadeira natureza
dessas mesmas aparências). Tal inclui as nossas mentes, bem como o mundo
exterior. Esse conhecimento é o antídoto básico para a ignorância e o
sofrimento.
Até que ponto é que o
Iluminismo de Ricard é diferente do de Kant, Locke ou Diderot? Ambas as
concepções implicam uma ruptura com o mundo tal como ele nos é dado. Ambas
exigem uma luta contínua pela verdade e pelo conhecimento, sendo que o seu
objetivo último equivale a uma revolução — uma revolução interior, no caso do
Iluminismo budista, e uma revolução social e cultural, no caso do Iluminismo
europeu. Será que existem continuidades entre essas rupturas, tão distantes em termos
das suas gêneses e dos seus resultados? Devemos considerar como dado adquirido
que nos conhecemos a nós ao conhecermos o mundo, conforme nos promete o
Iluminismo europeu, ou devemos antes partir do pressuposto de que conhecemos o
mundo uma vez que nos conheçamos a nós, conforme a promessa do Iluminismo
budista? Qual dos dois pressupõe a tarefa mais impossível?
Qual dos dois acarreta mais
riscos para os que não acreditam nas suas promessas? E, finalmente, porque é
que questionar o Iluminismo europeu é ainda hoje, mais de dois séculos depois
da sua formulação, tão mais relevante e controverso do que questionar o
Iluminismo budista? Será apenas porque a maioria de nós é ontológica, cultural
e socialmente eurocêntrica, e não budocêntrica?
A força do Iluminismo europeu
baseia-se em duas demandas incondicionais: a busca do conhecimento científico,
entendido como a única forma verdadeira de conhecimento e como fonte única de
racionalidade; e o empenho no sentido de vencer a “escuridão”, ou seja, de
banir tudo quanto é não-científico ou irracional. A incondicionalidade dessas
demandas tem como premissa a incondicionalidade das causas que as orientam. E
causas incondicionais levam logicamente a consequências incondicionalmente
positivas. Aqui reside a fatal debilidade dessa força tão extrema, o seu
calcanhar de Aquiles. Tomar como base uma concepção única de conhecimento e de
racionalidade social exige que se sacrifique tudo aquilo que não lhe é
conforme. A natureza sacrificial desta confiança reside em que a tolerância e a
fraternidade decorrentes da celebração da liberdade e da autonomia contêm em si
a fatal incapacidade de distinguir coerção e servidão de modos alternativos de
ser livre ou autônomo. Ambos são concebidos como inimigos da liberdade e da
autonomia e, logicamente, tratados com desapiedada intolerância e violência. É
esse o impulso atávico que subjaz à construção iluminista da humanidade
“universal” e o impele a sacrificar alguns humanos, banindo-os da categoria do
humano, como o antigo bode expiatório abandonado no deserto. Isso explica a
razão pela qual os direitos humanos podem ser violados em nome dos direitos
humanos, a democracia pode ser destruída em nome da democracia e a morte pode
ser celebrada em nome da vida. Aquilo que torna o Iluminismo europeu tão
fatalmente relevante e tão necessitado de constante reavaliação é o fato de, ao
contrário de outros projetos iluministas (como o budista), o poder de impor as
suas ideias aos outros não se reger, ele próprio, por essas ideias e sim pelo
desígnio de prevalecer, se necessário através de uma imposição violenta, sobre
aqueles que não acreditam em tais ideias iluminadas ou se veem fatalmente
afetados pelas consequências da implementação delas na vida económica, social,
cultural e política.
A natureza sacrificial do
Iluminismo europeu manifesta-se na forma como raciocina sem razoabilidade, na
forma como apresenta as opções que rejeita ou os caminhos que não escolhe como
prova da inexistência de outras vias, na forma como justifica resultados catastróficos
como danos colaterais inevitáveis. Estas operações traçam uma linha abissal
entre, por um lado, a luz forte das boas causas e das formas iluminadas de
organização social e, por outro, a escuridão profunda das alternativas
silenciadas e das consequências destruidoras. Historicamente, o capitalismo, o
colonialismo e o patriarcado são as forças principais que têm sustentado a
fronteira abissal entre seres totalmente humanos, que merecem a vida plena, e
criaturas sub-humanas descartáveis.
Essa linha abissal é uma linha
epistêmica. Por isso, a justiça social exige justiça cognitiva e a justiça
cognitiva exige que se reconheça que a querela entre a ciência, por um lado, e
a filosofia e a teologia, por outro, é um conflito que se enquadra
confortavelmente no âmbito da epistemologia iluminista. Aquilo que precisamos
de entender é o fato de estes modos de conhecimento se oporem coletivamente a
formas de pensamento e sabedorias alheias ao paradigma ocidental. O colonial
propriamente dito poderia definir-se em termos dessa terra incógnita
epistemológica. Como observou Locke de forma bem reveladora, “No princípio o
mundo todo era a América”. Longe de representar a superação universal do
“estado de natureza” pela sociedade civil, o que o Iluminismo fez foi criar o
estado de natureza, consignando-lhe amplas extensões de humanidade e vastos
conjuntos de conhecimentos. A cartografia, enquanto disciplina, inscreveu uma
demarcação precisa entre a metrópole civilizada e as distantes terras selvagens
(americanas, africanas, oceânicas). Esse mundo “natural”, na lógica
geo-temporal lockiana, tornou-se também uma história “natural”. A
contemporaneidade e a simultaneidade dos mundos do Outro colonial tornaram-se
uma espécie de passado dentro do presente.
Para se chegar ao tipo de
pensamento pós-abissal capaz de transcender completamente a oposição binária
metropolitano/colonial, é necessário travar uma batalha que excede parâmetros
epistêmicos. Apenas se pode confrontar o poder hegemônico através das lutas
daqueles grupos sociais que têm sido sistematicamente lesados e privados da
possibilidade e do direito de representar o mundo como seu. Os seus
conhecimentos, nascidos em lutas anticapitalistas, anticoloniais e
antipatriarcais, constituem aquilo a que chamo epistemologias do sul. Tais
lutas não se regem por princípios anti-iluministas (a opção conservadora, de
direita), mas criam condições para que seja possível uma conversação entre
diferentes projetos de Iluminismo, uma ecologia de ideais iluministas.
Os conhecimentos nascidos nas
lutas apontam para a razoabilidade (troca de razões) e não para racionalidade
unilateralmente imposta, e partem das consequências em vez de partirem das
causas. A noção de causa enquanto objeto privilegiado de conhecimento—a ideia
de que a nossa tarefa consiste em ir cada vez mais fundo até se chegar, por
fim, às fundações epistemológicas ou ontológicas, a causa sui ou causa sem
causa—é ela própria um artefato da modernidade ocidental. Para os oprimidos,
uma epistemologia a partir das consequências torna legível a experiência e
possível a justiça. Só assim podem as ruínas converter-se em sementes.
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Boaventura de Sousa
Santos é
doutor em sociologia do direito pela Universidade de Yale, professor
catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, diretor dos
Centro de Estudos Sociais e do Centro de Documentação 25 de Abril, e
Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa - todos
da Universidade de Coimbra. Sua trajetória recente é marcada pela proximidade
com os movimentos organizadores e participantes do Fórum Social Mundial e pela
participação na coordenação de uma obra coletiva de pesquisa denominada
Reinventar a Emancipação Social: Para Novos Manifestos.
Reproduzido
pelo Blog do Ademir Rocha

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