Fonte; Planeta Invertebrados Brasil
Artigo publicado em 06/05/2012, última edição em 02/07/2017

Sylviocarcinus/Zilchiopsis
Nome
em português: Caranguejo de água doce, Caranguejo de rio, Araruta.
Nome em inglês: -
Origem: América do Sul
Tamanho: carapaça com largura de até 6,0 cm
Temperatura: vide texto
pH: vide texto
Nome em inglês: -
Origem: América do Sul
Tamanho: carapaça com largura de até 6,0 cm
Temperatura: vide texto
pH: vide texto
Dureza: vide texto
Reprodução: especializada, todo ciclo de vida em água doce
Comportamento: agressividade média
Dificuldade: fácil
Reprodução: especializada, todo ciclo de vida em água doce
Comportamento: agressividade média
Dificuldade: fácil
Apresentação
Existem quatro
espécies de caranguejos sul-americanos de água doce
que são quase idênticos, de identificação praticamente impossível para um não-especialista.
São eles:
- Sylviocarcinus pictus (H. Milne-Edwards 1853)
- Sylviocarcinus australis Magalhães & Türkay 1996
- Zilchiopsis oronensis (Pretzmann 1968)
- Zilchiopsis colastinensis (Pretzmann 1968)
São animais bastante comuns nas bacias continentais da
América do Sul, cada um deles tendo uma distribuição geográfica específica, mas
cujas áreas se sobrepõem. São pequenos caranguejos
aquáticos, de hábitos noturnos, com uma bela padronagem de pequenas
manchas avermelhadas.
Etimologia:
- Sylvio tem etimologia incerta, ou é derivado de um nome próprio, de origem desconhecida, ou do latim silva (floresta); carcinus vem do grego karkinos (caranguejo).
- Zilchiopsis é uma referência a outro gênero de caranguejo de água doce, Zilchia (Pseudothelphusidae), -opsis designa semelhança.
- Pictus tem origem no latim, e significa “pintado”.
- Australis vem do latim auster, significa com distribuição ao Sul.
- Oronensis é uma menção ao Riacho del Oro, Chaco, Argentina, onde foi coletado o espécime-tipo.
- Colastinensis é uma menção ao Río Colastiné, Santa Fe, Argentina.
Origem
Somadas, as quatro espécies têm uma ampla distribuição na América do Sul, desde a Bacia Amazônica até a do Paraguai/Baixo Paraná, como demonstrado no mapa.
Somadas, as quatro espécies têm uma ampla distribuição na América do Sul, desde a Bacia Amazônica até a do Paraguai/Baixo Paraná, como demonstrado no mapa.
O Sylviocarcinus
pictus é a espécie encontrada mais
ao norte, até a pouco era considerada uma espécie confinada à Bacia Amazônica, e focos nas bacias costeiras do norte-nordeste.
Ocorrem na Guiana, Guiana Francesa,
Suriname, Colômbia, Peru,
Bolívia e Brasil. Recentemente (2009) foi descrito na Argentina, Bacia
do médio
Paraná, ampliando sua distribuição, e sobrepondo-a com a das demais
espécies. No Brasil, é encontrado nos estados do AP, RR, AM, PA, MA, PI e
RO. No PA, são chamados localmente de "Araruta".
Como o nome
já diz, o Sylviocarcinus australis tem uma ocorrência mais ao
sul, sendo encontrado na Bacia do Rio Paraguai (Brasil e
Paraguai), e áreas vizinhas da Bacia do Paraná na Argentina. No Brasil ocorre no Pantanal, nos estados do MT e MS.
O Zilchiopsis
oronensis é tipicamente uma
espécie tropical, ocorre na porção central e sul da Bacia Amazônica, e na bacia do Rio Paraguai, norte do Paraguai,
Bolívia e Brasil, e também Argentina. Na Argentina, acreditava-se que era
restrito somente à sua região norte, mas desde 2002 há registros desta espécie
mais ao sul, sobrepondo-se com a distribuição do Z. colastinensis. No Brasil, é encontrado nos estados do AM, PA, MT e RO.
Até onde se sabe,
o Zilchiopsis colastinensis é uma espécie de
climas temperados, com área de ocorrência restrita à Argentina, onde é
encontrado na região nordeste. Não é encontrado no Brasil.
Estes caranguejos habitam variados
corpos d´água, mas são mais comuns em rios e riachos. Ocorrem também em terrenos
que sofrem inundação periódica, como na região do Pantanal. Têm hábitos
semi-aquáticos, adultos constroem tocas emersas junto às margens.

Distribuição geográfica das quatro espécies de Tricodactilídeos na América do Sul. Imagem
original Google Maps; dados de Magalhães C 2003, Magalhães C et al. 1996, Collins PA et al. 2002 e 2009.
Aparência
Cefalotórax
de altura média, arredondado e convexo. Olhos pequenos, antenas curtas, margem
frontal lisa e bilobada. Grandes quelípodos, assimétricos nos machos, pernas
dispostas lateralmente. Carapaça lisa, com uma padronagem de pequenas pintas
avermelhadas, ou manchas maiores de aspecto circular, como os de uma onça.
Dentro da
família Trichodactylidae, os Sylviocarcinus e Zilchiopsis podem ser identificados
baseados na forma do abdômen (fusão parcial dos somitos, III-VI), e a presença
de 3 a 4 dentes
na margem da carapaça, além do dente exorbital.
A
identificação da espécie é muito difícil para o não-especialista, e somente
possível em machos mortos, pela análise dos gonopódios. O gênero das fêmeas
pode ser identificado baseado no espermatóforo. Citando dois trechos de um
artigo de revisão do Dr. Célio Magalhães (1996):
“Ambas espécies são próximas, e indistinguíveis se não
houver machos adultos disponíveis para análise.” (sobre as duas espécies
de Sylviocarcinus)
“De fato, a morfologia externa não pode ser usada para se
distinguir o Z. collastinensis, Z. oronensis, S. pictus e S. australis.
Isto significa que, no presente momento, espécimes do sexo feminino não podem
ser identificados além do seu gênero.”


Sylviocarcinus pictus, fotografado em um riacho nas Montanhas Kanuku, Guiana. Imagens gentilmente cedidas pelo Dr. Arthur Anker (UFC).


Caranguejo
de espécie desconhecida, coletado em Buenos Aires, Argentina. Fotos
cedidas pela aquarista argentina Maria Romina Chirico.

Caranguejo de espécie desconhecida,
fotografado no Rio da Prata, Bonito, MS. Foto cedida pela aquarista Raquel Toledo.
Parâmetros
de Água
Por habitar uma
extensa área geográfica, e bacias hidrográficas distintas, as condições
físico-químicas dos seus locais de origem variam bastante. Além do clima e
temperaturas distintas, a Bacia Amazônica tem águas ácidas e moles, rica em
compostos orgânicos. As Bacias do Paraná e Paraguai têm água dura, com um pH próximo de
neutro.
Entretanto, são espécies
robustas, bastante tolerantes quanto às condições da água.


Caranguejo de espécie desconhecida,
coletado em um afluente do Rio Paraná, na Argentina. Fotos cedidas por Pablo Daniel Lopez.
Dimorfismo Sexual
Como todo caranguejo, pode ser feita facilmente através da
análise do abdômen, o macho possui abdômen estreito, e a fêmea, abdômen largo,
onde fixa seus ovos. Os machos também têm maiores dimensões, garras mais
desenvolvidas e assimétricas.


Provável Sylviocarcinus pictus, macho coletado no parque nacional Alto Purús, em Ucayali, Peru. Fotos de James Albert.
Reprodução
Vive em águas continentais, todo seu
ciclo de vida se dá em água doce. Reprodução sazonal, pico reprodutivo nos
meses mais quentes e chuvosos, geralmente de novembro a março.
Na cópula, o macho segura a fêmea com suas garras, a qual
rebaixa seu pleon abdominal, os dois animais ficando ventre a ventre.
Produzem poucos ovos esféricos de
grandes dimensões, medindo cerca de 2 mm. O número médio é de 200 ovos (S. australis). De forma
semelhante a outros Tricodactilídeos, estes ovos não ficam fixos aos pleópodes
abdominais, mas somente alojados em uma cavidade incubatória formada por uma
depressão na face ventral da carapaça, e pelo abdômen alargado da fêmea. Desta
forma, estes animais são bastante sensíveis a estresse nesta fase, abandonando
os ovos em contato com alguma ameaça. Trabalhos mostram que somente o estresse
da coleta e manipulação é o suficiente para fazê-las abandonar a prole.
Apresentam desenvolvimento pós-embrionário
direto, também chamado epimórfico, onde as fases larvais completam-se ainda
dentro do ovo. Na eclosão são liberados indivíduos juvenis, já com
características semelhantes ao adulto, medindo cerca de 3,5 mm (S. pictus). Por vários dias (cerca de 17 no S. pictus),
os jovens são
protegidos e carregados pelas fêmeas sob o abdome, caracterizando
cuidado
parental. Nesta fase, os filhotes se alojam na mesma cavidade onde se
localizavam os ovos. Durante este período os pequenos caranguejos não
realizam
ecdises, abandonando a mãe somente após a primeira muda. Diferente dos
lagostins com cuidado parental, estes filhotes não têm nenhuma estrutura
anatômica especializada para se fixarem no corpo da mãe. Mesmo após este
período, os filhotes mostram comportamento gregário, escalando a
carapaça da mãe por algumas semanas.
O tempo de desenvolvimento
embrionário não é bem estudado, mas estima-se em cerca de 15~20 dias. Os ovos
mudam de cor, inicialmente são laranja-escuro, tornando-se depois laranja-claro,
e depois amarelado-claro. Nesta fase final os caranguejos juvenis já são
visíveis dentro do ovo, com seus grandes olhos escuros.
Semelhante ao Dilocarcinus
pagei, acredita-se que estes caranguejos também apresentem o que se chama
de Desova Parcelada. Ou seja, os ovos são liberados de forma não-sincronizada,
mais de uma vez durante o período reprodutivo, em parcelas. Por este motivo, as fêmeas carregam ovos
em diferentes estágios de desenvolvimento, juntamente com juvenis.


Provável Sylviocarcinus pictus, fêmea carregando filhotes, fotografado no Amapá. Foto de Flávio Mendes.





Caranguejos
argentinos em um aquário. Nas últimas imagens, é visível o abdômen com
os segmentos fundidos. Fotos cedidas por Nicolas N. Acosta.



Caranguejos amazônicos em um aquário, provável Sylviocarcinus pictus, coletado em um igarapé no Pará. A
última imagem mostra as pintas na carapaça em close. Fotos
cedidas por Higo Abe.
Comportamento
Embora sejam animais aquáticos, tem
hábitos anfíbios, suportando algum tempo fora d´água, principalmente se houver
umidade. Fugas são bastante frequentes, o aquário deverá ser sempre mantido bem
tampado.
São relativamente agressivos, não
sendo recomendada a sua manutenção com outros animais. Mesmo entre indivíduos
da mesma espécie, pode haver predação de animais menores. Plantas tenras costumam
ser devoradas também.
Adultos são escavadores, não são
indicados para tanques com substrato fértil, ou com layout ornamental. Adultos
têm hábitos noturnos, e costumam ficar entocados até anoitecer, jovens
são mais ativos durante o dia.
Como os demais crustáceos, tornam-se vulneráveis após a ecdise, e podem ser predados por outros
animais. Por este motivo, nesta época permanecem entocados, até a solidificação
completa da carapaça.


Pequeno caranguejo juvenil de espécie desconhecida,
coletado em Buenos Aires, Argentina. Fotos cedidas pela aquarista
argentina Maria Romina Chirico.


Sylviocarcinus pictus, fotografados em Abaetetuba, Pará. Fotos
gentilmente cedidas por Ademir Heleno A. Rocha.
Alimentação
São onívoros, com
importante componente vegetal na dieta. Não são nada exigentes quanto à
alimentação, comendo desde algas, animais mortos a ração dos peixes. Caçam pequenos
invertebrados, e podem se alimentar também de plantas com folhas tenras.







Sylviocarcinus pictus, fotografados em Abaetetuba, Pará. Nas duas últimas imagens, sobre um Valdivia serrata. Fotos
gentilmente cedidas por Ademir Heleno A. Rocha.
Bibliografia:
- Magalhães C. Famílias Pseudothelphusidae e Trichodactylidae. In: Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
- Magalhães C, Türkay M. Taxonomy of the Neotropical freshwater crab family Trichodactylidae II. The genera Forsteria, Melocarcinus, Sylviocarcinus and Zilchiopsis (Crustacea: Decapoda: Trichodactylidae). Senckenbergiana Biologica, v.75, p. 97-130, 1996.
- Rosa FR, Lopes IR, Sanches VQA, Rezende EK. Distribuição de caranguejos Trichodactylidae (Crustacea, Brachyura) em alagados do Pantanal Mato-Grossense (Brasil) e sua correlação com a proximidade do rio Cuiabá e cobertura vegetal. Pap. Avulsos Zool. (São Paulo). 2009; 49(24): 311-317.
- Collins PA, Giri F, Williner V. Range extension for three species of South American freshwater crabs (Crustacea: Decapoda: Trichodactylidae). Zootaxa 1977, 2009: 49–54.
- Collins PA, Williner V, Giri F. A new distribution record for Zilchiopsis oronensis (Pretzmann, 1968) (Decapoda, Trichodactylidae) in Argentina. Crustaceana, 2002. 75: 931–934.
- Mansur CB, Hebling NJ. Análise comparativa entre a fecundidade de Dilocarcinus pagei Stimpson e Sylviocarcinus australis Magalhães & Turkay (Crustacea, Decapoda, Trichodactylidae) no Pantanal do Rio Paraguai, Porto Murtinho, Mato Grosso do Sul. Rev. Bras. Zool. 2002 Sep; 19(3): 797-805.
- Greco LSL, Viau V, Lavolpe M, Bond-Buckup G, Rodriguez EM. Juvenile Hatching and Maternal Care in Aegla uruguayana (Anomura, Aeglidae). Journal of Crustacean Biology Vol. 24, No. 2 (May, 2004), pp. 309-313.
- Sant’Anna B, Takahashi E, Hattori G. (2013) Parental care in the freshwater crab Sylviocarcinus pictus (Milne-Edwards, 1853). Open Journal of Ecology, 3, 161-163.
Agradecimentos ao professor Ademir Heleno A. Rocha (veja seu blog aqui ), aos zoólogos Flávio Mendes, Dr. Arthur Anker (Universidade Federal do Ceará, Fortaleza) e Dr. James Albert (Departamento de Biologia, Universidade de Louisiana, Lafayette) pela cessão das fotos para o artigo. Agradecemos também aos colega aquaristas brasileiros Higo Abe e Raquel Toledo, e aos colegas aquaristas argentinos Maria Romina Chirico, Nicolas N. Acosta e Pablo Daniel Lopez pela cessão das fotos.
Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha
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