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sexta-feira, 8 de março de 2013

"TRABALHADEIRA" FEMININA

"TRABALHADEIRA" FEMININA NA ECONOMIA DO MUNICÍPIO
Casa ribeirinha, mata de várzea e algumas mulheres
ribeirinhas de Abaetetuba

Fonte: Dalgisa da Conceição Araújo da Silva:
Publicado por Clovis Cardoso
Republico este texto da Dalgisa da Conceição Araújo da Silva como forma de reconhecimento as mulheres ribeirinhas de Abaetetuba:
 “TRABALHADEIRA” RIBEIRINHA NA ECONOMIA DO MUNICÍPIO
Os habitantes atuais das ilhas de Abaetetuba, são geralmente referidos como ribeirinhos, termo usado na Amazônia para designar a população que mora às margens das águas, que vivem da extração e manejo de recursos florestais. Com a imensa miscigenação ocorrida ao longo desses anos, desde a chegada dos europeus, africanos para trabalharem nas lavouras e outros camponeses do nordeste, surge o ribeirinho como processo dessa heterogeneidade cultural que o forma para adaptação do meio ambiente; com traços fortíssimos da cultura indígena, traços étnicos e estratégicos de subsistência. Nessa sociedade onde o tempo não é cronológico, onde a lei da natureza, o saber é resultado do entendimento homem-natureza.
O imaginário amazônico está presente nas lendas, mitos e buzões do dia-a-dia do ribeirinho. É nessa ordem natural que aparece a mulher como símbolo da desordem, através dos processos “naturais” que lhes são peculiares como a menstruação, a gravidez, a menarca, menopausa, estágios de liminaridade, onde ela não é nem uma coisa nem outra, ela está “aberta” para o mundo, está fragilizada para as malinesas dos bichos da mata, para as coisas ruins, que permite trata-las como fonte de perigo e desordem.
Esta simbologia que atinge as mulheres e vão coloca-las em situação sempre inferior a dos homens, mesmo nas situações em que seria de se esperar, uma predominância das mulheres. “podemos dizer que existe, no plano ideológico, um tipo de relações, entre os dois sexos, em que cabe ao homem assumir sempre o comando das coisas, o que traduz no campo das relações sociais, pelas posições ocupadas em cada um dos setores em que ambos atuam, quer em conjunto, ou separadamente”.
A pesca tida como a mais importante atividade de subsistência econômica, é de domínio masculino, em que a mulher só participa na confecção e manutenção dos apetrechos utilizados. Em Abaetetuba algumas mulheres participam da pesca, quando se trata de captura para o próprio sustento. A sua presença só é vedada quando da “ pesca para fora”, na baia, por causa do tempo, das tempestades e da distância. Também é vedada quando ela esta “doída” (menstruada ou de parto), que pode dar “panema” ( falta de sorte, azar). Em Itapuá, na região do salgado, segundo Maria Angélica Maués, “tudo que de alguma forma esteja ligado à atividade pesqueira, em si é vedado à mulher”. Antes de qualquer coisa ela não pode pescar e nem acompanhar uma expedição de pesca, por mais curta que seja. A mulher também não pode lidar com os “aparelhos do pescador”.
Em Abaetetuba são muitas as atividade da mulher, onde participa da economia doméstica, sem a interferência direta do homem. Para D. Graci, 51 anos “Na pesca a gente ajeita o da bóia, a gente tem que roçá, arrumá venda para defender mais um dinheirinho”. Como os ribeirinhos tem geralmente muitos filhos, como uma média de oito filhos, é comum os filhos maiores tomarem conta dos menores, para as mulheres fazerem suas vendas “ir pra lida”.
A roça surge como principal atividade para subsidiar as necessidades da casa e escassez do peixe. A mandioca é o segundo produto agrícola local, (o primeiro é o açaí- dados CNM/PNUD), compõe juntamente com o açaí e o peixe a dieta básica da população. Outros produtos também são cultivados para serem vendidos no comércio local, em pequena escala como: o mamão, maxixe, quiabo, banana, manga e outros. E lá vão elas em direção à feira, compor o cenário de maior convergência da cidade de Abaetetuba, sinalizando o comércio como a verdadeira vocação do município.
O extrativismo tradicional tem um ramo certo para essas mulheres. A venda de produtos da floresta como espécies oleaginosas (azeite, as ceras e resinas), é levada para serem comercializados na “beira” como é chamado o comércio na cidade ás margens do rio. Apesar desses produtos serem hoje substituídos por produtos quimicamente sintetizados, ainda encontramos óleo de patauá, azeite de andiroba, mel de abelhas e outras sementes oleaginosas.
 Expansão da população das classes médio e alta da cidade possibilitou um mercado para plantas ornamentais. Elas trazem em pequenos paneiros, ainda bem cedo, plantas decorativas típicas da região como: entrada de baile, crisântemo, monsenhor, espada de São Jorge, onze horas, rosas, etc. As ervas medicinais também fazem parte desse comércio, assim como as cascas medicinais de árvores da região e ervas para banhos de cheiro. Para chá de doenças diversas encontramos: hortelã, pariri, canela, sacaca, sucurijú, sabugueiro e outros. Para banho de cheiro, muito usados nas festas juninas temos: trevo, catinga de mulata, alecrim, oriza, patchoulim e outros. Como cascas para chá têm: casca de jatobá, casca de caxinguba, casca de jutaí, casca doce, casca do pau d’darco, casca da Marapoama e verônica também utilizados em banhos.
O barro de boa qualidade encontrado nessas ilhas, tem-se destinado na fabricação de produtos artesanais, além é claro da fabricação da fabricação de telhas e tijolos, que é de manuseio exclusivo dos homens. As mulheres se ocupam como mão-de-obra (diaristas), nas olarias das proximidades, na fabricação de potes e talha (espécie de pote com duas alças). Trabalham de maneira caseira na fabricação de bilha (espécie de jarra), alguidar, moringa (espécie de garrafa), panela de barro, frigideiras e outros. Esse material é devidamente tratado para uso e pintado com flores decorativas para serem comercializados.
A diversidade de atividades econômicas entre os ribeirinhos, esta gerando um número crescente no setor de serviços e fabricação de outros produtos artesanais. A produção de cuias pintadas demonstra muito bem a habilidade feminina, assim como a confecção de utensílios de pesca; feitos com tala de miriti: como o paneiro, balaio, cesto, abano, tipiti ; tala de jupatí: têm o matapi, a rasa (para o açaí), o parí serve como auxílio para tapar igarapés, na pesca artesanal. Tudo é cuidadosamente confeccionado, inclusive com a participação da família. Esses produtos muitas vezes não chegam a ser comercializado na “beira”, mas diretamente com os ribeirinhos que já fazem suas encomendas. Hoje com os CRAS-Centros de Referência de Assistência Social nas ilhas, mais possibilidades de geração de renda foi criado, através da oferta de oficinas de artesanato para as famílias do Programa Bolsa Família. Nas comunidades quilombolas as estampas e motivos se dão a partir do resgate da cultura afro-brasileira.
A confecção de utensílios caseiros e de pesca demonstra, não só a habilidade feminina, como a criatividade. O manejo de recursos naturais num sistema tradicional adaptado para suas necessidades, sugere não só o meio de subsistência na complementação alimentar, como o caso de plantio da mandioca para a produção de farinha, do açaí e frutas e verduras; mas também atende o mercado abaetetubense com a comercialização de ervas, plantas ornamentais e artesanato que vai gerir renda, para atender a economia doméstica e também para gerir oportunidade para independência população feminina. As mulheres dos pescadores dessa região ribeirinha de Abaetetuba saem do seu contexto de esposa pare serem “trabalhadeiras”, onde a simbologia que as permeiam é respeitada, mas não paralisam suas ações.
Dalgisa da Conceição Araújo da Silva
Socióloga
Entardecer ribeirinho
Barcos ribeirinhos
Açaí, produto ribeirinho

Reproduzido pelo Blog do ADEMIR ROCHA

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