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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Poesias do Clóvis Cardoso - Poetas e Poesias

Poesias do Clóvis de Figueiredo Cardoso - Poestas e Poesias
Clóvis Cardoso

DECAMERON E O TRAPICHE DE ABAETETUBA
TIVE UMA FASE NA VIDA QUE MINHA COMPULSÃO DIRIGIU-SE PARA A LEITURA DAS OBRAS CLÁSSICAS DA LITERATURA.
MORANDO EM SÃO CARLOS-SP, APROVEITEI DA EXISTÊNCIA DE FARTO ACERVO EXISTENTE NAS DIVERSAS BIBLIOTECAS PÚBLICAS, TAIS COMO DA UNIVERSIDADE FEDERAL, USP, FACULDADES PARTICULARES, AS DO MUNICÍPIO E A DA CÂMARA MUNICIPAL.
MERGULHEI NOS TEXTOS DE CAMÕES, VICTOR HUGO, DANTE ALIGHIERI, STHENDAL, TOLSTÓI, MARK TWAIN, SHAKESPEARE, MACHADO DE ASSIS, FLAUBERT, GÓGOL E POR AI VAI.
NESSA MALUCA E OBSTINADA VIAGEM PELO MUNDO DAS MELHORES OBRAS LITERÁRIAS, ENCONTREI UM IGUAL QUE ME AJUDOU MUITO.
O SECRETÁRIO DA CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO CARLOS, XAVIERZINHO, HAVIA, RECENTEMENTE, ADQUIRIDO ENORME QUANTIDADE DESSAS OBRAS PARA O JÁ GRANDE E IMPORTANTE ACERVO DA BIBLIOTECA DAQUELE PODER. ENTRETANTO NÃO ERA PERMITIDA A RETIRADA DOS LIVROS E FUI OBRIGADO A LÊ-LOS SOB AQUELE EDIFÍCIO QUE FOI PROJETADO POR EUCLIDES DA CUNHA PARA SER UM PRESÍDIO.
O SECRETÁRIO INDICOU A LEITURA DE DECAMERÃO, DO ITALIANO GIOVANNI BOCCACCIO, ESCRITA ENTRE OS ANOS DE 1348 E 1353.
SETE MOÇAS E TRÊS RAPAZES, FUGINDO DA PESTE NEGRA QUE ASSOLAVA FLORENÇA, REFUGIAM-SE FORA DA CIDADE, ONDE PASSAM O TEMPO SE DISTRAINDO CONTANDO CASOS AMOROSOS DURANTE DEZ DIAS SEGUIDOS, TOTALIZANDO 100 NOVELAS. DAÍ O NOME DA OBRA: “DECAMERON” = “DEZ DIAS” EM GREGO.
MEU ASSOMBRO AO LER E RELER ESSE LIVRO É QUE, ANTES DE CONHECÊ-LO, JÁ SABIA DA MAIORIA DOS CASOS ALI DESCRITOS!
COMO PODERIA TER CIÊNCIA DAS NOVELAS DESSE CLÁSSICO ANTES DE LÊ-LO?

MINHA MEMÓRIA REPORTOU AO TRAPICHE DE ABAETETUBA. AQUELE MESMINHO QUE FOI TRAGADO PELA COBRA-GRANDE QUE TEM O RABO ESCONDIDO BEM EMBAIXO DA CATEDRAL.
UMA DAS AVENTURAS MAIS PRAZEIROSAS QUE TINHA ERA PESCAR DE CIMA DO TRAPICHE OS MANDIIS, MANDUBÉS, BACÚS E OUTROS PEIXINHOS.
ENQUANTO ESPERAVA A “BATIDA” NO ANZOL ISCADO COM CHARQUE, IAM APORTANDO AS GELEIRAS, FUBICAS, CANOAS, BARCOS E OUTROS. OS EMBARCADIÇOS SE REUNIAM NAS BARRAQUINHAS DE CAFÉ OU EM VOLTA DE UM BELO LITRO DE CACHAÇA DE ABAETÉ. OS CASOS ERAM NARRADOS COMO ELES PRÓPRIOS TIVESSES PARTICIPADO DOS FATOS. MONSTROS, TRAIÇÕES, LENDAS, VISAGENS, DOENÇAS MULHERES, MÚSICAS, ETC. o)S CASOS MAIS DIVERTIDOS ERAM JUSTAMENTE OS DO BOCAGE – SACANAGEM PURA!
EU AGORA DEBRUÇADO SOBRE UMA MESA DA BIBLIOTECA DA CÂMARA MUNICIPAL DE SÃO CARLOS, LIA OS CASOS QUE JÁ HAVIA ESCUTADO INÚMERAS VEZES, POR NARFRATIVAS DE CABOCLOS, MUITOS DOS QUAIS ANALFABETOS, NO TRAPICHE DO MUNICÍPIO DE ABAETETUBA QUE UM DIA A COBRA GRANDE ARRASTOU PARA SEU NINHO.




FRASQUEIRA DE CACHAÇA DE ABAETÉ
Adenaldo Santoscardoso
Água ardente de cana doce / Passarinha à embuança / Seu destino é a cabeça / Mas faz escala pela pança.
Clovis Cardoso
Pela pança ela passa, Pelo fígado e pelos rins, Com uma frasqueira de cachaça Nado de Abaeté a Parintins.
Adenaldo Santoscardoso
Frasqueira, tsunami da pura / Aniquila amargura / Mata o medo e o frio / Garapa, mel, açúcar e rapadura / Ardência e doçura / Sangue bom do Brasil.
Clovis Cardoso
O sangue corre pela veia, O camarão pelo igarapé Meu almoço, merenda e ceia É a cachaça de Abaeté . Entornando o garrafão de cachaça, Pensava em jogar a meia do Santo, Mas, para meu maior espanto, Eu era o santo que recebia a graça.
Adenaldo Santoscardoso
Que desgraça! / Se antes eras santo / Hoje és a cachaça / E a frasqueira é teu manto / Milagre da "mardita" / Que entornaste pelo canto / Da tua boca atrevida / Provana de desencantos!
Edu Dias
"Quem dá pro Santo é um devoto / na mais pura devoção / quem toma cachaça de Abaetetuba / aprende a graça tomar um garrafão"
Adenaldo Santoscardoso
Não eboles graça / A água é ardente / Se não deres pro santo / Serás um penitente.
Clovis Cardoso
Essa pena pago com mui fé, Delirando ao sabor da caninha, Pois minha alma não esta sozinha: O povo inteiro que mora em Abaeté.
Adenaldo Santoscardoso
Pobre frasqueira / Vazia vive no ninho / No museu: canto da casa / Onde mora o Clovinho / De Abaeté pra Cuiabá / Ela deu um trabalhão / Foi presente do Serginho / Com carinho e compaixão / Mas como não se morre de paixão / Não matará o beberrão.
Clovis Cardoso
A frasqueira esta vazia de pura Mas é repleta de recordação , Por isso a guardo com ternura, No centro do meu coração . Quando a vejo eu navego Em Abaeté no seu centro, Meu louco passado nao nego, E na frasqueira vou adentro...
Adenaldo Santoscardoso
Vai frasqueira na maresia / No peso de muitas mágoas / Tomamos no gole da agonia / Agonizando vejo o Engenho Pacheco / Enrolado pela maresia / No carnaval tudo é tão vistoso / Depois que se morre vem a alegoria / A riqueza de nossa história / Mostramos em nossas fantasias. A vida é como o rio / rendada à maresia / Passa vida, passa rio... / Bordados pela ventania / Na frasqueira fica o sonho / A colagem do passado / O alegre e o tristonho / rotulada poranduba: / " O Canto Angustiado / Aos Plantadores de cana de Abaetetuba".
João Pedro Maués
Clovis Cardoso, Clovinho, Leco-Leco/ Não importa o nome ou alcunha/Sempre foi seca-boteco/ tirava gosto com café preto e pupunha.../O Maxico reclamava/A Piquixita, coitada, sofria/Quando cachaça ele tomava/E com o "do índio" rebatia/ Da poesia acho graça/do pingado vejo a agonia/qdo seca a frasqueira de cachaça/fica aquela euforia.../Tento escrever o que presta/Me livrar da rima pobre/Só uma verdade não se contesta/O Clovis é um cara nobre...
Clovis Cardoso
Passa a vida num gorjeio/ de um carachué arredio/depois de tomar um copo cheio/viro ponte sobre o rio.
Adenaldo Santoscardoso
Livrai-me Nossa Senhora! / Da tua goela mardita / Depois de uma grande talagada / Deixa a cidade aflita / Coitado de quem pisar no teu cuspe / E aquele que te irritar / Vai escutar só palavrão / Quando tua boca se agitar.
Clovis Cardoso
Minha boca tremula e agitada/ não era resultado da cachaça/ mas do beijo da minha amada/ que ainda hoje me abraça/ chamando de paixão da vida/ e eu chamando-a de minha querida.
Clovis Cardoso
O Nobre fazia aguardente, Engarrafava a disgramada Que na noite enluarada, Fazia rir e chorar o coração da gente.
Clovis Cardoso
A golfada vem de dentro, A cachaça vem de fora, Um vai-e-vem lazarento Que pega o homem e a senhoraemails de advogadas

TE AMO MULHER
(Clóvis Cardoso)

AMO TEU SINAL,
TUA FORÇA QUE ME ELEVA COMO SER.
TE AMO COMO MULHER QUE ÉS
NESTA JORNADA DE LUTA E PAIXÃO.
AMO TUA COMPREENSÃO E TEU DESABAFO
NOS DIAS SOLITÁRIOS E DE MULTIDÕES.
AMO TUA PRESTEZA EM SE DOAR A MIM
NA NECESSIDADE E NA INCERTEZA.
AMO TUAS PALAVRAS DURAS, TUA DIREÇÃO.
AMO TUA TERNURA ALIVIANDO MEU CORAÇÃO.
AMO TUA FRANQUEZA EM DIZER UM NÃO,
TEU AMOR INCONDICIONAL E SEM RAZÃO.
AMO TEU RISO E ABOCA QUE O EXPELE.
AMO TEU ABRAÇO E O FOGO DE TUA PELE.
AMO TEU TRABALHO PRODUZINDO DIREITO
A LUZ QUE RECLAMA O PULSAR DE TEU PEITO.
AMO O TEU OLHAR DISTANTE E O MIRANTE
PARA OS CÉUS E PELAS SENDAS ERRANTES.
AMO O QUE TU OUVES DO MUNDO E DE MINHA BOCA,
CAOS, VERSOS MÉTRICOS, RIMAS, POESIA LOUCA.
AMO TUAS DÚVIDAS E TEUS MEDOS
AMO QUANDO ME ACORDAS CEDO.
AMO A LEMBRANÇA DE NOSSO PASSADO
AMO A TUA PRESENÇA AO MEU LADO.
EU TE AMO MULHER
EU TE AMO!

08 de março de 2013

PARA O SEXO A EXPIRAR

Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.

Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.

Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, eisvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.

Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo. Jumper - saltadeira - papa-moscas


SENTIDOS SENTIDOS

(Clóvis Cardoso)

I
VISÃO

EU TE OLHO
E TU, COMO UM TANQUE DE GUERRA,
OLHAS
E ME ARRASAS

II
AUDIÇÃO

OUVES UMA PERGUNTA:
- QUE FAZES AQUI?
OUÇO UMA CONFIRMAÇÃO:
- O MESMO QUE TU.

III
TATO

MEUS DEDOS
SÃO NUVENS ARTICULADAS
DESRESPEITANDO A FORMULAÇÃO
DOS TEUS CABELOS,
FAZENDO VOLTAR AO QUE É:
CACHO MADURO DE AÇAÍ
NAS MANHÃS DE TEMPORAIS.

IV
OLFATO

ABRAÇAMO-NOS SOBRE AS ÁGUAS
EFERVESCENDO A CARNE
E IRRADIANDO O ODOR DE SEXO:
SOMOS A CABALA DO MUNDO!

V
PALADAR

EU TE DEGUSTO BILINGUE
E TU ÉS UM UNIVERSO ME ENGOLINDO.

(Clóvis Cardoso)

I
VISÃO

EU TE OLHO
E TU, COMO UM TANQUE DE GUERRA,
OLHAS
E ME ARRASAS

II
AUDIÇÃO

OUVES UMA PERGUNTA:
- QUE FAZES AQUI?
OUÇO UMA CONFIRMAÇÃO:
- O MESMO QUE TU.

III
TATO

MEUS DEDOS
SÃO NUVENS ARTICULADAS
DESRESPEITANDO A FORMULAÇÃO
DOS TEUS CABELOS,
FAZENDO VOLTAR AO QUE É:
CACHO MADURO DE AÇAÍ
NAS MANHÃS DE TEMPORAIS.

IV
OLFATO

ABRAÇAMO-NOS SOBRE AS ÁGUAS
EFERVESCENDO A CARNE
E IRRADIANDO O ODOR DE SEXO:
SOMOS A CABALA DO MUNDO!

V
PALADAR

EU TE DEGUSTO BILINGUE
E TU ÉS UM UNIVERSO ME ENGOLINDO.
SOLIDÃO E BUSCA         
As retas e tortas da ruas gritantes,
Me levam emaranhadas e distantes,
pelas lembranças de minha vida,
em busca de minha amada perdida...

Eu que a perdi, saindo do útero materno,
Tornando-me cosmopolita de mim mesmo,
Vítima de um amor puro e eterno,
que não busquei e fiquei só, a esmo...

Vivo a saudade nos trapiches do passado,
Ouvindo histórias e lendas de um herói
que conquista sua heroína ao seu lado,
mas que a perde e o seu coração dói...

15 DE AGOSTO DE 2013
CLÓVIS CARDOSO
O QUARTETO DO CARALHO

Na Praça da Bandeira iam o Bitita,
Caminhando com Berilo Carvalho,
Um levava uma garrafa de birita,
O outro ia gritando sonoro caralho.

Caminhava também o Pedro Maués,
Por baixo do belo monumento,
Mas olhando o mundo de través,
Em razão de seu apagamento.

O Zukhov subia nas tramas do xadrez,
Enquanto sua namorada dava tudo...
E ele seguia em alta etilica mudez
arruinado, cego e pescoçudo..

24 de maio de 2014

Clóvis Cardoso

Clóvis
Os urubus em seus cabelos,
Revolteiam nossos sonhos,
Lançando no ar, apelos,
Com gritos bem medonhos.

Sou ave! Ave Maria!
Não enganem os os incautos!
A sujeira do meu dia,
Não é a sujeira do assalto!

(Clovis Cardoso)
Clovis Cardoso Uma Giranda de Currupios,
Soprando o vento no vento,
A flor que ainda não se abriu,
Pro boto por sexo sedento!


Clovis Cardoso
Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Pra engolir...
Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta
Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida dá gente
Gritando que não...
NELSON
Clóvis
Ao meu irmão Trik
Conversamos e jejuamos limites.
Desapercebidos passam o tempo e as palavras soltas.
Tu libertas palavras encandeadas com o mundo
Tu me falas de amores e vidas
Refletes a minha própria.

O que há em ti
Que os dias fazem-se batalhas
E as noites ritmam valsas?

O que acontece conosco
Nesta fórmula alquímica
Nesta busca filosófica da pedra
Ângulo da transformação?

Um projeto surge
Outro se insurge.
Uma versação de poemas croma teu peito
Insuflando camarada meu coração.

Quantas porradas levamos?
Lavramos um campo de discórdias
E surgem dissabores desordenados
Assim como brotam viçosas as sementes
Que libertarão o mundo.

Existirão milhões de alegrias
Compartilhadas senão juntos
Ao menos em certezas.

Voamos!
Do alçar desejam-nos inexatidão.
Querem que sejamos pássaros
Fluindo entre sóis e desagradando estações.
Querem que sejamos homens livres
No meio das multidões.
Imagina!
Que outra forma alada
Pode realizar o futuro
Sentir as vitórias do agora
E continuamente as do final?
São Carlos-SP, 26 de março de 1986.
Clóvis Figueiredo Cardoso
Adenaldo Santoscardoso Prosseguindo com a bela homenagem: Alcimar canta / Feliz pra nos alegrar / No ventre de Abaetetuba / O verbo se fez Alcimar
A RABETA
(Clóvis Cardoso)
Uma rabeta nas águas infinitas
Percorre seu caminho nas ondas,
que sobre ondas ficam aflitas
querendo alguém que responda:

Por que uma onda puxa outra,
Sobre águas tão barrentas?
Seria uma mágica escrota
Ou um milagre que alimenta?

A água em si se movimenta,
Sem precisão de quem a aceita
Mas antes de chegar, arrebenta,
E sem perceber vai-se a rabeta.


Poesias do Clóvis Cardoso
Clovis Cardoso Uma Giranda de Currupios,
Soprando o vento no vento,
A flor que ainda não se abriu,
Pro boto por sexo sedento!
POEMA INACABADO (Para minha Amada)
(Clóvis Cardoso)

Te encontrei de verdade,
Naquela cidade...
Estavas perdida, desconfiada,
E eu, não sabia nada...

Não sabia o que aconteceu
Comigo e contigo na jornada.
Na minha vida que era breu,
Na minha vida errada.

Te encontrei na rodoviária
E tu vinhas desconfiada.
Mas sabia ser necessária,
Essa viagem esperançada.

Não sabias quem era então,
E lançastes um olhar com gosto.
Eu quis beijar teu coração
E tu me destes apenas o rosto.

Peguei-te pela mão e andamos,
Juntos com nossas bagagens.
Sem saber o que falar, falamos,
De desesperos, sonhos e imagens.

Fomos crescendo a cada passo.
A cada passo uma história.
E me destes um tímido abraço,
Que pra mim foi uma glória.

E andamos e andamos abraçados
Sem saber para qual o final.
E andamos, seres entrelaçados,
Com febre e frio, sem igual.

E cedestes um beijo fantástico,
Que incendiou minhas razões
Eu, homem estático,
Movi meu corpo de emoções.

E fomos para nosso leito
E deitastes e eu deitei
De qualquer forma e jeito
Eu contigo me deitei.

Eu estava te amando
E amando tu estavas
Fazias gestos urrando,
E meu corpo em ti penetrava.

E falávamos de amor e esperanças
E falávamos de sonhos e passados
E virávamos duas crianças
Amando um amor há muito amado.
Eu te encontrei na quente piscina
E tu me sonhastes um poema
Eu te aqueci, minha menina,
Com uma lingua de fonemas...

E nosso quarto era o universo
E nossos corpos eram estrelas
Sob os edredons submersos
Eu amante a amar e querê-la.

E amantes, e apaixonados e namorados,
Dançamos a valsa que nunca dancei,
E de um amor eterno, inacabado,
Eu contigo, em segredo, me casei.

E todos os desejos desejados
Realizamos em um só dia
Um dia que me senti amado,
Pela mulher que me queria.

E sexo e gozo e carne e fome
Eu em ti me entregava,
E tu me fizestes um homem
Que em ti, por toda navegava.

Cansada fostes embora
Pro mundo que não é teu,
E eu, depois de horas,
Voltei ao lugar que não é meu...

Cuiabá, 07 de outubro de 2013
)
Urubu, que voa, que passa
Não é nenhuma ameaça
Não caça, nem traz desgraça
Seu banquete é de carcaça

NeClóvis Cardoso
Os urubus em seus cabelos,
Revolteiam nossos sonhos,
Lançando no ar, apelos,
Com gritos bem medonhos.

Sou ave! Ave Maria!
Não enganem os os incautos!
A sujeira do meu dia,
Não é a sujeira do assalto!

(Clovis CardosoClóvis Cardoso
Os urubus em seus cabelos,
Revolteiam nossos sonhos,
Lançando no ar, apelos,
Com gritos bem medonhos.

Sou ave! Ave Maria!
Não enganem os os incautos!
A sujeira do meu dia,
Não é a sujeira do assalto!

(Clovis Cardoso

O VIOLEIRO

QUANDO NO CÉU SE DESFEZ A NUVEM
BRILHANTE ELA APARECEU
RELUZINDO O RIO PREAMANTE
ENCANTANDO O VIOLEIRO DA PONTE
TRANSFORMANDO A NOITE EM MADRUGADA.

E COMO NUM CIRCUITO
NO PÉ DO CALVÁRIO ERRANTE
O VIOLEIRO DA PONTE
DE SÚBITO ESTREMECEU.

TODOS NÓS QUE NA PRAÇA O ESCUTÁVAMOS
ACORDAMOS COMO UMA ENCHENTE
FORTE QUE AS MARGENS ALARGA
DEBROCHANDO IGUAL UMA FLOR
QUE A QUALQUER PAIXÃO SE RENDE

UNS ACORDES RADICAIS
INVADINDO A NOITE CALMA DA CIDADE]
IMPLANTANDO NOS PEITOS O ARDOR
QUE NA HORA NINGUÉM ENTENDE
PEDIU UM POUCO DE PAZ

O RIO NAVEGANTE SE ARDE
EM ETERNAS MARESIAS
SEU LEITO AGORA É ÁGUA
BARRO COR SOM
E PRINCIPALMENTE LUZ
ACENDENDO COM TODA EUFORIA

A IARA LINDA SEM IDADE
OFUSCANDO A PRÓPRIA BELEZA
ATÉ AO PRÓPRIO BOTO SEDUZ
NESTE INSTANTE ONDE TODA NATUREZA
É SÓ E PLENAMENTE ORGIA

NO INSTANTE DAS LOUCAS AVENTURAS
ESTÁ ELA ETÉREA A BRILHAR
SOZINHA COMO – NUM CÉU
SOZINHAS BRILHAM AS ESTRELAS PURAS –
BAILANDO NUM SALÃO ELÍTICO

BEIJANDO A ERÓTICA PRAIA
(DONDE TALVEZ ELA TENHA SURGIDO)
NÓS, OS ETERNOS BÊBADOS
COM OLHARES MAIS QUE ETÍLICOS
ADMIRAMOS-A COM O CORAÇÃO ESTENDIDO
SOBRE A PELE.

SUBLIME, A CANÇÃO DEDILHADA
NO ESPAÇO ABERTO PELA LUZ,
VOA COM VELA ABERTA
SEMPRE NA MESMA E ÚNICA DIREÇÃO
QUE A MARÉ OSCILANTE LHE ENSINA

NÃO HÁ NA CIDADE CORAÇÃO
QUE LHE RESISTA NUA
NAVEGANDO E ILUMINANDO
OS RIOS AS PRAÇAS OS QUARTOS
AS RUAS EM SUA CANOA

E NÓS SEUS CANTADORES
ONDE ESTIVERMOS, SEMPRE HAVEREMOS
DE CANTÁ-LA

NA REBELDIA QUE NOS FEZ PRESENTE
A TODO INSTANTE
NO VERBO MUTANTE
NO MAIS LONGÍNQUO LUGAR
NO TODO E NO QUALQUER DO MOMENTO
A VEREMOS SEMPRE A DANÇAR
NAS PONTES
NA PRAIA
NO CALVÁRIO DA PRAÇA VAZIA
NO RIO BARRENTO
E, ANTES DE QUALQUER SENTIMENTO
ESTAREMOS SEMPRE A AMAR

Clóvis Cardoso - 1984



Clovis Cardoso ABAETETUBA PRIVÊ
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás só fazendo de conta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir
— com Carmem Parente.


MELANCOLIA
(Clóvis Cardoso)

I
Confundo a canção com o tempo
Numa noite que nunca existirá.
Devoro tormentos, nevoeiros de melancolia,
Na tarde encantada da minha explosão,
Em explosões de meios-dias.

Correndo aberto, vulcão
Jorrando alegrias
Imprimindo um sentido em minha vida,
Vida calada e gritada, em meio às sensações.

Espraio meu verbo, peito aberto,
Amazonas, vida em convulsão.
Cenas armadas, praças caindo,
E a noite vai embora,
E eu, triste, fico sorrindo.

Eu te olho no espelho,
Semblante de horizonte, cruzando
Falhas e labirintos.
Fantasia forte, haste de glória,
História sem herói para embelezar.

II
O preparo que não fiz
Na penumbra de teu corpo,
Meu coração fágico, trágico,
Balançando no peito, acomete-se
Contra meu cérebro.

Talvez escondesse a melancolia,
Os sonhos de minha morte,
Mas a noite desaparece na tentativa,
Com suas cores, raios de açoite.

III
Amigo da dor, da morte insatisfeita,
Campeio as auroras em cores de abismos.
Desfaleço em cada romaria de adrenalinas,
E me fazem calores pelo corpo.
E surgem estranhas constelações matinais:
Assombros de crianças.

IV

Muitos buscam vencer a guerra
Em revoltas contra a existência.
Mais feroz, porém, é o rugir da morte,
Bala plantada, regada à urina e sangue
Nas portas do mercado.

V

Os barcos da aventura iluminam-se,
Velozes na corrida contra o sentimento.
Lendas de clarões, abundantes clarões,
Que se escondem nos peitos desarmados,
E fogem, fogo amordaçado, em suas velas
De infelicidades.

Eu me aventuro em minha solidez
De náufrago encurralado pelas maresias
Da paixão. Digo mais: Encontro-me sozinho
Em todas as buscas, em todos os desacertos,
Caminho perdido, rumo despoetizado,
Idiotas sensações.
Procuram-me em montes e sinais
Enquanto formulo minha própria bíblia.
Acho que valeu a procura e o encontro
Mais que o maldito engano a chicotear
Minha tola incompreensão.
Reneguei todos os instantes, todo o saber,
Na incongruência do vento.

Alertei da primavera
E o resultado foi a discórdia sobre as flores.

Vôo alerto
Peito aberto, vulcão inominável,
Alegro-me na insatisfação.

VI

Nova aurora.
Retalho de monotonia, desfazendo o orvalho
E compungindo o êxtase.

Lembro-me de nossos desejos
Quebrando luzes de concreto nos centros das cidades.
Vivo agora a réplica do passado.

Ó sonífero calor, translúcida paixão!
Ó fatal harmonia de pétalas!
Por ti deixo a solidão dos dias
E mergulho em tuas indecifráveis multidões.
Clovis Cardoso A vida de droga é uma merda!
Pra que viver ou não viver,
Se a roda do tempo é lerda
E nada me resta perder?

Quero ter o tempo elástico,
Pra colocar meu chapéu,
Usar a barba como véu,
E me enrolar todo no plástico!
Clovis Cardoso Quando a vida se deitar / A morte plastificar / A vida que vivi / Alguma coisa vai sobrar / Vai se eternizar / Pra dizer que eu parti
(Adenaldo)

Vai sobrar muito osso,
e um monte de ossada...
Pra fazer caldo grosso,
Ou fino, pra mulherada...
Quem sabe caldo de mocotó,
Ou sabe-se lá uma rabada
E se sobrar algum pó,
Um maluco dá uma cheirada...


Clovis Cardoso
Clever Loureiro Abaetê
Minha terra tem
Homem de verdade
Minha terra tem
Minas morena, outro lugar
Noutras palavras Jequitinhonha
Levou pro mar força medonha
Trouxe a visão
Que desperta o brilho cego
Do prazer de quem sonha
Língua de dois gumes
Palavra de dois sentidos
Raiva no curtume
Do tempo que tem sofrido
Filho da terra pegou na canção
Riscou no terreiro, gritou pelo chão
Minas morena...


INÍCIO DE NATUREZA

( QUE NUNCA CHEGARÁ A SER MORTA )

CARANGUEIJOS CAMARÕES VÍSCERAS DE PORCO PLANTAS
- QUE PLANTAS MAIS FORMOSAS PODERÃO EXISTIR? –
INCOTURNOS, OS PÉS COMPRAM E VENDEM, SEM MENSTRUAÇÕES,
OS VERMES E SEUS ACESSÓRIOS.

SEM HAVER
SEM NOME
DESPEÇO-ME
BARRENTO, ÁVIDO DE ÁGUA
BUSCANDO A FORMA.
IMPEÇO.

UM TRANSEUNTE DESPREOCUPADO RONDA PELA VIDA E
OBSERVA A SEMIVIVA NORMA QUE SE EXPÕE EM
CADA OBSTÁCULO SUPERPOSTO A OUTRO OBSTÁCULO, COMUMENTMENTE INVALIDADO PELA TRANSTORIEDADE MÍSTICA ENVOLVENTE DA RUDEZA E DA INVIABILIDADE DESSA CONTINUAÇÃO:
- LAMA...RIO...MAR...ROMAR DE LAMA. CONTROLE
FÁGICO...HOMEM...MERDA...MERDAFAGIA.

E DE TUDO UM SORRISO DE FLOR DESPONTA DOS BURACOS
COM NADA SE INCOMODANDO.

(clóvis cardoso)


PARA MINHA AMADA

PELE
(Clóvis Cardoso)
METALÚRGICA TUA LUZ
SANGUE FLOR – DORNA DE ÚLTIMA FERMENTAÇÃO
CORAÇÃO
ESCONDIDO NO ABRIGO ANTI-DEPRESSÃO
(EXPLOSÃO NUCLEAR?)

É VOCÊ
CADEIA
E AO TERROR DE SER
VOCÊ É CADEIA
DE METÁLICA PRATA
UNIVERSAL! O QUE PODE SER MAIS VIVO?

NESTE PARQUE NAVEGAM
AS EMOÇÕES EM LATAS
E ELETRICIDADE

ELÉTRICO
ELÉTRICO?
ÁGUA E NEUTRINO
TRANSPASSO ENERGIA E CRUZO
AS BARREIRAS CONHECÍVEIS

METALÚRGICA TUA LUZ
SANGUE FLOR MELANINA
BROTANDO NA PRAIA DE BEJA.

BEIJO DOCE
(Clóvis Cardoso)
Gostaria de estar presente, neste momento,
No teu corpo, num doce acalento...
Estar em teus olhos olhando a tua alma
E vendo quando te acalmas
Sob o roçar de minha boca
Na tua boca...

Nada pra mim é mais divertido do que te assustar
Com minhas loucuras que te põe a duvidar...
Nada pra mim é mais sério quando pronuncio,
Como um gato no cio, os fonemas do verbo amar...
Nada no mundo pra mim importa se comigo estás:
Nem o tempo, nem os segredos, nem os odores...
Vejo em ti amada, milhões e milhões de cores,
Vejo o universo pulsando sangue em ti...
Vejo vida, vejo expansão de espaços, explosões...
Sinto razão, toda tua razão e teu caminhar...
Quando estamos juntos, meu amor,
Há um processo alquímico que transforma
O sentido mais profundo da profunda norma,
O Estar junto em Ser único...
Meu amor por você tem o sentido delicioso
De um beijo melado e doce, num show do Djavan...
Despir a história e ocupar a memória

Clovis Cardoso
MEU AMOR DE ABAETÉ
Singra o rio minha alma,
na doce flor esperança,
de encontrar quem acalma
minha dor e lembrança:

Meu amor perdido
entre vastos anhingáis...
andará sempre comigo
dia e noite sempre mais...

Um enxó cava meu peito
esculpindo meu coração,
que se amolde de jeito,
como a quilha de batelão.

Meus braços são cordas
das velas de forte vento,
E sou levado pras bordas
de remoinhos de tormento.

Tenho que encontar o amor
que a vida deu de presente,
Ela, minha giranda de flor,
acima dum cirio de gente.



Desafios Adenaldo, Clóvis e Hydelmiro

Eu ando indignado / Com a falta de visão / O o urubu não é o errado / Porra, onde está a educação!?!?... Eles fazem as suas ceias / Da forma que o homem quer / O urubu da Beira / É um anjo de Abaeté...
Não matem os urubus / Nem a tua educação / Não matem as baratas e ratos / Viva a nossa salvação!
De Adenaldo

Os urubus em seus cabelos,
Revolteiam nossos sonhos,
Lançando no ar, apelos,
Com gritos bem medonhos.


Urubu, que voa, que passa
Não é nenhuma ameaça
Não caça, nem traz desgraça
Seu banquete é de carcaça

Nem imagina o quanto a garça
Sendo ela uma devassa
Aprecia o voo da raça
Que não cala na mordaça

Tua cor negra não é falsa
Com a mentira faz pirraça
O teu canto em arruaça
Denuncia toda trapaça

E em linhas cheias de graça
Enrijece no outro a couraça
Assola o medo da massa
Engaiolado na vidraça

Como pode a bela garça
No destino da vida que traça
Não brindar desse vinho na taça
Ao te ver voar sobre a praça? Os urubus em seus cabelos,
Revolteiam nossos sonhos,
Lançando no ar, apelos,
Com gritos bem medonhos.

Sou ave! Ave Maria!
Não enganem os os incautos!
A sujeira do meu dia,
Não é a sujeira do assalto!

(Clovis Cardoso)
Hydelmiro Roberto

m imagina o quanto a garça
Sendo ela uma devassa
Aprecia o voo da raça
Que não cala na mordaça

Tua cor negra não é falsa
Com a mentira faz pirraça
O teu canto em arruaça
Denuncia toda trapaça

E em linhas cheias de graça
Enrijece no outro a couraça
Assola o medo da massa
Engaiolado na vidraça

Como pode a bela garça
No destino da vida que traça
Não brindar desse vinho na taça
Ao te ver voar sobre a praça?


Sou ave! Ave Maria!
Não enganem os os incautos!
A sujeira do meu dia,
Não é a sujeira do assalto!
Clóvis Cardoso



5 de outubro de 2013
Hydelmiro Roberto 

Urubu, que voa, que passa
Não é nenhuma ameaça
Não caça, nem traz desgraça
Seu banquete é de carcaça 


Nem imagina o quanto a garça
Sendo ela uma devassa
Aprecia o voo da raça
Que não cala na mordaça 


Tua cor negra não é falsa
Com a mentira faz pirraça
O teu canto em arruaça
Denuncia toda trapaça 


E em linhas cheias de graça
Enrijece no outro a couraça
Assola o medo da massa
Engaiolado na vidraça 


Como pode a bela garça
No destino da vida que traça
Não brindar desse vinho na taça
Ao te ver voar sobre a praça?


Hydelmiro Roberto
Sem o colorido dos pássaros, branco nasci, por sacanagem preto fiquei
por sorte não sou engaiolado, pois cantar não sei
por minha condição de mascote de coveiro, os humanos nojo de mim tem
não sou estou em extinção, por causa da maldição, se quiser azar é matar o tição

Por causa da malandragem plainar fico no ar 
de olho na galera mau educada, que joga tudo pro ar 
sempre de preto, fico a rapinar, igual povo de luto que vive a chorar
como se estivesse a esperar alguém a velar

Minha qualidade é doença espalhar
não por culpa minha, mas pelo lixo que encontro a espalhar
minha volta é somente me amentar
Sou como mágico carcaça e putrefação, desaparece ao alimentar

Não sou chamado de pássaro, catinguento, fedorento e horroroso sou
“Abutre do Novo Mundo”, imundo, nem galinha perto estou 
tenho um primo chamado Rei, que só come coisa viva
para mim que não tenho frescura, como de todo, e faço tudo
Por uma porcaria, ou carcaça ou carne fedida.



Clóvis Cardoso
Uma Giranda de Currupios,
Soprando o vento no vento,
A flor que ainda não se abriu,
Pro boto por sexo sedento!


O VIOLEIRO

QUANDO NO CÉU SE DESFEZ A NUVEM
BRILHANTE ELA APARECEU
RELUZINDO O RIO PREAMANTE
ENCANTANDO O VIOLEIRO DA PONTE
TRANSFORMANDO A NOITE EM MADRUGADA.

E COMO NUM CIRCUITO
NO PÉ DO CALVÁRIO ERRANTE
O VIOLEIRO DA PONTE
DE SÚBITO ESTREMECEU.

TODOS NÓS QUE NA PRAÇA O ESCUTÁVAMOS
ACORDAMOS COMO UMA ENCHENTE
FORTE QUE AS MARGENS ALARGA
DEBROCHANDO IGUAL UMA FLOR
QUE A QUALQUER PAIXÃO SE RENDE

UNS ACORDES RADICAIS
INVADINDO A NOITE CALMA DA CIDADE]
IMPLANTANDO NOS PEITOS O ARDOR
QUE NA HORA NINGUÉM ENTENDE
PEDIU UM POUCO DE PAZ

O RIO NAVEGANTE SE ARDE
EM ETERNAS MARESIAS
SEU LEITO AGORA É ÁGUA
BARRO COR SOM
E PRINCIPALMENTE LUZ
ACENDENDO COM TODA EUFORIA

A IARA LINDA SEM IDADE
OFUSCANDO A PRÓPRIA BELEZA
ATÉ AO PRÓPRIO BOTO SEDUZ
NESTE INSTANTE ONDE TODA NATUREZA
É SÓ E PLENAMENTE ORGIA

NO INSTANTE DAS LOUCAS AVENTURAS
ESTÁ ELA ETÉREA A BRILHAR
SOZINHA COMO – NUM CÉU
SOZINHAS BRILHAM AS ESTRELAS PURAS –
BAILANDO NUM SALÃO ELÍTICO

BEIJANDO A ERÓTICA PRAIA
(DONDE TALVEZ ELA TENHA SURGIDO)
NÓS, OS ETERNOS BÊBADOS
COM OLHARES MAIS QUE ETÍLICOS
ADMIRAMOS-A COM O CORAÇÃO ESTENDIDO
SOBRE A PELE.

SUBLIME, A CANÇÃO DEDILHADA
NO ESPAÇO ABERTO PELA LUZ,
VOA COM VELA ABERTA
SEMPRE NA MESMA E ÚNICA DIREÇÃO
QUE A MARÉ OSCILANTE LHE ENSINA

NÃO HÁ NA CIDADE CORAÇÃO
QUE LHE RESISTA NUA
NAVEGANDO E ILUMINANDO
OS RIOS AS PRAÇAS OS QUARTOS
AS RUAS EM SUA CANOA

E NÓS SEUS CANTADORES
ONDE ESTIVERMOS, SEMPRE HAVEREMOS
DE CANTÁ-LA

NA REBELDIA QUE NOS FEZ PRESENTE
A TODO INSTANTE
NO VERBO MUTANTE
NO MAIS LONGÍNQUO LUGAR
NO TODO E NO QUALQUER DO MOMENTO
A VEREMOS SEMPRE A DANÇAR
NAS PONTES
NA PRAIA
NO CALVÁRIO DA PRAÇA VAZIA
NO RIO BARRENTO
E, ANTES DE QUALQUER SENTIMENTO
ESTAREMOS SEMPRE A AMAR

Clóvis Cardoso - 1984

Clovis Cardoso
Não quero a razão
Pois eu sei
O quanto estou errado
E o quanto já fiz destruir
Só sinto no ar o momento
Em que o copo está cheio
E que já não dá mais
Pra engolir...
Veja bem!
Nosso caso
É uma porta entreaberta
E eu busquei
A palavra mais certa
Vê se entende
O meu grito de alerta
Veja bem!
É o amor agitando o meu coração
Há um lado carente
Dizendo que sim
E essa vida dá gente
Gritando que não...
NELSON

Ao meu irmão Trik
Conversamos e jejuamos limites.
Desapercebidos passam o tempo e as palavras soltas.
Tu libertas palavras encandeadas com o mundo
Tu me falas de amores e vidas
Refletes a minha própria.

O que há em ti
Que os dias fazem-se batalhas
E as noites ritmam valsas?

O que acontece conosco
Nesta fórmula alquímica
Nesta busca filosófica da pedra
Ângulo da transformação?

Um projeto surge
Outro se insurge.
Uma versação de poemas croma teu peito
Insuflando camarada meu coração.

Quantas porradas levamos?
Lavramos um campo de discórdias
E surgem dissabores desordenados
Assim como brotam viçosas as sementes
Que libertarão o mundo.

Existirão milhões de alegrias
Compartilhadas senão juntos
Ao menos em certezas.

Voamos!
Do alçar desejam-nos inexatidão.
Querem que sejamos pássaros
Fluindo entre sóis e desagradando estações.
Querem que sejamos homens livres
No meio das multidões.
Imagina!
Que outra forma alada
Pode realizar o futuro
Sentir as vitórias do agora
E continuamente as do final?

São Carlos-SP, 26 de março de 1986.
Clóvis Figueiredo Cardoso

A RABETA
(Clóvis Cardoso)
Uma rabeta nas águas infinitas
Percorre seu caminho nas ondas,
que sobre ondas ficam aflitas
querendo alguém que responda:

Por que uma onda puxa outra,
Sobre águas tão barrentas?
Seria uma mágica escrota
Ou um milagre que alimenta?

A água em si se movimenta,
Sem precisão de quem a aceita
Mas antes de chegar, arrebenta,
E sem perceber vai-se a rabeta.


POEMA INACABADO (Para minha Amada)
(Clóvis Cardoso)

Te encontrei de verdade,
Naquela cidade...
Estavas perdida, desconfiada,
E eu, não sabia nada...

Não sabia o que aconteceu
Comigo e contigo na jornada.
Na minha vida que era breu,
Na minha vida errada.

Te encontrei na rodoviária
E tu vinhas desconfiada.
Mas sabia ser necessária,
Essa viagem esperançada.

Não sabias quem era então,
E lançastes um olhar com gosto.
Eu quis beijar teu coração
E tu me destes apenas o rosto.

Peguei-te pela mão e andamos,
Juntos com nossas bagagens.
Sem saber o que falar, falamos,
De desesperos, sonhos e imagens.

Fomos crescendo a cada passo.
A cada passo uma história.
E me destes um tímido abraço,
Que pra mim foi uma glória.

E andamos e andamos abraçados
Sem saber para qual o final.
E andamos, seres entrelaçados,
Com febre e frio, sem igual.

E cedestes um beijo fantástico,
Que incendiou minhas razões
Eu, homem estático,
Movi meu corpo de emoções.

E fomos para nosso leito
E deitastes e eu deitei
De qualquer forma e jeito
Eu contigo me deitei.

Eu estava te amando
E amando tu estavas
Fazias gestos urrando,
E meu corpo em ti penetrava.

E falávamos de amor e esperanças
E falávamos de sonhos e passados
E virávamos duas crianças
Amando um amor há muito amado.
Eu te encontrei na quente piscina
E tu me sonhastes um poema
Eu te aqueci, minha menina,
Com uma lingua de fonemas...

E nosso quarto era o universo
E nossos corpos eram estrelas
Sob os edredons submersos
Eu amante a amar e querê-la.

E amantes, e apaixonados e namorados,
Dançamos a valsa que nunca dancei,
E de um amor eterno, inacabado,
Eu contigo, em segredo, me casei.

E todos os desejos desejados
Realizamos em um só dia
Um dia que me senti amado,
Pela mulher que me queria.

E sexo e gozo e carne e fome
Eu em ti me entregava,
E tu me fizestes um homem
Que em ti, por toda navegava.

Cansada fostes embora
Pro mundo que não é teu,
E eu, depois de horas,
Voltei ao lugar que não é meu...

Cuiabá, 07 de outubro de 2013

Clovis Cardoso

Uma Giranda de Currupios,
Soprando o vento no vento,
A flor que ainda não se abriu,
Pro boto por sexo sedento!

Clovis Cardoso

Quando a vida se deitar / A morte plastificar / A vida que vivi / Alguma coisa vai sobrar / Vai se eternizar / Pra dizer que eu parti
(Adenaldo)

Vai sobrar muito osso,
e um monte de ossada...
Pra fazer caldo grosso,
Ou fino, pra mulherada...
Quem sabe caldo de mocotó,
Ou sabe-se lá uma rabada
E se sobrar algum pó,
Um maluco dá uma cheirada...


Clovis Cardoso

A vida de droga é uma merda!
Pra que viver ou não viver,
Se a roda do tempo é lerda
E nada me resta perder?

Quero ter o tempo elástico,
Pra colocar meu chapéu,
Usar a barba como véu,
E me enrolar todo no plástico!



MELANCOLIA
(Clóvis Cardoso)

I
Confundo a canção com o tempo
Numa noite que nunca existirá.
Devoro tormentos, nevoeiros de melancolia,
Na tarde encantada da minha explosão,
Em explosões de meios-dias.

Correndo aberto, vulcão
Jorrando alegrias
Imprimindo um sentido em minha vida,
Vida calada e gritada, em meio às sensações.

Espraio meu verbo, peito aberto,
Amazonas, vida em convulsão.
Cenas armadas, praças caindo,
E a noite vai embora,
E eu, triste, fico sorrindo.

Eu te olho no espelho,
Semblante de horizonte, cruzando
Falhas e labirintos.
Fantasia forte, haste de glória,
História sem herói para embelezar.

II
O preparo que não fiz
Na penumbra de teu corpo,
Meu coração fágico, trágico,
Balançando no peito, acomete-se
Contra meu cérebro.

Talvez escondesse a melancolia,
Os sonhos de minha morte,
Mas a noite desaparece na tentativa,
Com suas cores, raios de açoite.

III
Amigo da dor, da morte insatisfeita,
Campeio as auroras em cores de abismos.
Desfaleço em cada romaria de adrenalinas,
E me fazem calores pelo corpo.
E surgem estranhas constelações matinais:
Assombros de crianças.

IV

Muitos buscam vencer a guerra
Em revoltas contra a existência.
Mais feroz, porém, é o rugir da morte,
Bala plantada, regada à urina e sangue
Nas portas do mercado.

V

Os barcos da aventura iluminam-se,
Velozes na corrida contra o sentimento.
Lendas de clarões, abundantes clarões,
Que se escondem nos peitos desarmados,
E fogem, fogo amordaçado, em suas velas
De infelicidades.

Eu me aventuro em minha solidez
De náufrago encurralado pelas maresias
Da paixão. Digo mais: Encontro-me sozinho
Em todas as buscas, em todos os desacertos,
Caminho perdido, rumo despoetizado,
Idiotas sensações.
Procuram-me em montes e sinais
Enquanto formulo minha própria bíblia.
Acho que valeu a procura e o encontro
Mais que o maldito engano a chicotear
Minha tola incompreensão.
Reneguei todos os instantes, todo o saber,
Na incongruência do vento.

Alertei da primavera
E o resultado foi a discórdia sobre as flores.

Vôo alerto
Peito aberto, vulcão inominável,
Alegro-me na insatisfação.

VI

Nova aurora.
Retalho de monotonia, desfazendo o orvalho
E compungindo o êxtase.

Lembro-me de nossos desejos
Quebrando luzes de concreto nos centros das cidades.
Vivo agora a réplica do passado.

Ó sonífero calor, translúcida paixão!
Ó fatal harmonia de pétalas!
Por ti deixo a solidão dos dias
E mergulho em tuas indecifráveis multidões.


Clóvis Cardoso

O VENDEDOR DE BALÕES

(Clóvis Cardoso)

I

Eu sou um vendedor de balões.
Eu passeio na eternidade deste parque,
Deste mundo, vendendo balões.
Conheço os mínimos detalhes deste parque,
Porque sou um vendedor de balões.

Às vezes pergunto aos balões:
- Vós que sois formados de gás e elasticidade,
Dizei-me: onde anda a sinceridade?

Às vezes os balões respondem:
- Tu que armas tua insanidade,
tu que armas tua vida,
em mim só encontrarás um totem.

Percorro o imenso vazio do parque,
Procuro um totem.
Carrego comigo um vazio enorme,
Cheio de hélio
Cheio de rosas
Cheio de vácuos.

Hasteados nas mãos, trago balões,
Trago ilusões.
Um longo trago, aliás,
Traz de volta ilusões.

Hirtos, fios perfuram o espaço,
Estraçalham a miopia,
Transluzem cores:
São os balões – flores abertas,
Flores fechadas e certas, flores flores.
Qualquer primavera esplandece flores.

Mas eu sou um vendedor de balões,
E percorro a vida deste parque
procurando ilusões
criando ilusões.

Faço desta vida o que me acolher:
Desfaço-a, Revivo-a, Mantenho-a.
Faço desta vida o que me proporcionarem:
Encontro-a, Vivo-a, Lembro-me.

Vendo balões.
Vendo balões, visualizais:
Existem os balões, o vendedor também existe,
Está no meio dos fios,
Está no meio da multidão
De balões.

Existo, e tu, vendo balões,
Existes.

II

O parque é muito grande,
os rostos são muitos.
Incansáveis, movimentam-se
As estruturas de ferro e trabalho:
Roda a gigante roda,
Voa o dangler,
Rompe o medo a montanha-russa.

Os rostos são múltiplos,
Diversidades de fisionomias
Formando confusões.

Há risos e euforia
E uma criança que me surpreende:
- Moço, eu quero um balão.

Sou um vendedor de balões.
Percorro a interinidade deste parque
Procurando balões.

III

Armei-me de vida
Buscando-a

Luto pela vida
Buscando-a

Balões sobem e não agüentam a pressão
Da atmosfera que os ronda.
A atmosfera, de leve, altera-se pesada,
Na medida que moléculas de incompreensão
Podem viver mais juntas.

Os balões estouram
E eu já não os observo.
Já não observo o movimento do parque:
Crio situações.

IV

Sinto a necessidade da descendência.
Já espalhei sementes e
Tenho uma vida.

Ê madrugada e o parque está parado:
Dormem os protagonistas de sua razão.

Sento-me na intempestiva organização
De minha razão.
Descanso.

É o ultimato da sinceridade.
E aqui acho um totem.

O parque contem intranqüilidades,
Incertezas e possibilidades.

Hoje este parque está tomado
De febre, de um calor que ultrapassa
As paixões.

Ofereço um balão a uma criança
E despeço-me:
- Apenas vendo balões,
minha razão está aquém do teu pedido.
A criança sorri e me diz
No meio da interinidade da profissão
Que ora exerço:
- Moço, eu só quero um balão.

Existe a explosão do momento.
O parque fervilha e, num. dado
Instante, vários balões voam, sobem
Ate onde podem, formulando
Cores na escura realidade que cobre
As diversões desta universalidade de sorrisos.

Estou agora com as mãos livres,
Com os pés livres.
Não encho mais balões,
Não vendo balões.
Espero e luto.

Diversificam-se as paisagens
Extrapolam-se as situações.
Formam-se inúmeras situações:
O sol vem abrindo as pétalas do dia,
A sombra surge do meu corpo.
Floresce a intimidade da vida
Quando a vida já foi feita.

V
Ontem pude vê-la:
Estava linda como as cores dos balões.
Ela percebeu-me olhando o futuro
E realizando a mais impensada situação.

Pude vê-la durante todos os átimos
De minha existência.
Ah! O que seria o parque sem sua presença?

Antes só existiam problemas
E agora encontro situações.
Surgem palavras aladas, verbos livres,
Sonha-se com uma aurora de fato
Espalhando petardos nos peitos sombrios.

Conversei com minha amada.

Sabe, eu te vejo no dia como a luz:
Em qualquer objeto que vejo, vejo-te.
À noite vejo-te armada no escuro:
Retornas para meu sonho.

Lançastes teu sorriso
E colhi-o no ar de minha busca.
Mas não pude guardá-lo na lapela
Forjada no mundo de minha ternura
Porque ele, sem você, inexiste.

Porém, nesta luta que travamos,
Apareço alameda outonal, vivo,
E com as conseqüências da estação.
Tu apareces flor desejada
Mas com as conseqüências da solidão.
Quando será que se juntarão as existências
E os fenômenos da evasão?

VI

Minha amada olha e sorri.
De seus lábios florescem movimentos,
De sua garganta ondas e ondas
Lançam fonemas, letras aladas, sílabas aéreas.
De seus olhos saltam cores, todas as cores,
E todo seu corpo me envolve,
Elástico me ama e me vive,
Como se experimentasse a morte.
E me ama e me tem e me ama
E me ama e ri e me tem e sou eu
E é minha amada e somos...
Nós dois, um parque,
Com suas sortes,
E seus azares.
E sua mecânica de aços e gozos.
E somos o parque com todos os balões
E todas as crianças
E todas esperanças
E todos os desejos
E todos os seus amores.
E todos os nossos amores.

Os urubus em seus cabelos,
Revolteiam nossos sonhos,
Lançando no ar, apelos,
Com gritos bem medonhos.

Sou ave! Ave Maria!
Não enganem os os incautos!
A sujeira do meu dia,
Não é a sujeira do assalto!

(Clovis Cardoso)

Clovis Cardoso ABAETETUBA

Para meu amigo Francisco Girard Rodrigues

SONETO 121
É melhor ser vil do que vil considerado,
Quando não se é, e ser repreendido por sê-lo,
E o prazer justo perdido, que é tão caro
Não por nós, mas pela opinião alheia.
Por que a visão falsa e adulterada dos outros
Deve julgar o meu sangue ardente?
Ou minhas fraquezas, enquanto o mais fraco espia,
Que por eles seja mau o que acredito bom?
Não, eu sou quem sou, e eles que julgam
Meus erros reconhecem em mim apenas os deles;
Posso ser reto, embora eles sejam tortos;
Diante desses pensamentos, meus atos se ocultam,
A menos que esse mal geral que eles mantêm:
Todos são maus e em sua maldade reinam



Clovis Cardoso Não sou escravo sexual,
Sou homem humano,
Liberto o sumano,
Ser humano no plural!


PELE
(Clóvis Cardoso)
METALÚRGICA TUA LUZ
SANGUE FLOR – DORNA DE ÚLTIMA FERMENTAÇÃO
CORAÇÃO
ESCONDIDO NO ABRIGO ANTI-DEPRESSÃO
(EXPLOSÃO NUCLEAR?)

É VOCÊ
CADEIA
E AO TERROR DE SER
VOCÊ É CADEIA
DE METÁLICA PRATA
UNIVERSAL! O QUE PODE SER MAIS VIVO?

NESTE PARQUE NAVEGAM
AS EMOÇÕES EM LATAS
E ELETRICIDADE

ELÉTRICO
ELÉTRICO?
ÁGUA E NEUTRINO
TRANSPASSO ENERGIA E CRUZO
AS BARREIRAS CONHECÍVEIS

METALÚRGICA TUA LUZ
SANGUE FLOR MELANINA
BROTANDO NA PRAIA DE BEJA.


BEIJO DOCE
(Clóvis Cardoso)
Gostaria de estar presente, neste momento,
No teu corpo, num doce acalento...
Estar em teus olhos olhando a tua alma
E vendo quando te acalmas
Sob o roçar de minha boca
Na tua boca...

Nada pra mim é mais divertido do que te assustar
Com minhas loucuras que te põe a duvidar...
Nada pra mim é mais sério quando pronuncio,
Como um gato no cio, os fonemas do verbo amar...
Nada no mundo pra mim importa se comigo estás:
Nem o tempo, nem os segredos, nem os odores...
Vejo em ti amada, milhões e milhões de cores,
Vejo o universo pulsando sangue em ti...
Vejo vida, vejo expansão de espaços, explosões...
Sinto razão, toda tua razão e teu caminhar...
Quando estamos juntos, meu amor,
Há um processo alquímico que transforma
O sentido mais profundo da profunda norma,
O Estar junto em Ser único...
Meu amor por você tem o sentido delicioso
De um beijo melado e doce, num show do Djavan...

Clóvis Cardoso

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir

Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir

Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu

Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair

Não, acho que estás só fazendo de conta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir


Clovis Cardoso
Uma Giranda de Currupios,
Soprando o vento no vento,
A flor que ainda não se abriu,
Pro boto por sexo sedento!


BORQUEIO DE MAPARÁ

                                                               Ao Preto, singular amigo.
                                                               Pelos ensinamentos que
me ofereceu.
I

Escrevo nomes em cada passo.
Ouço catipurus observando dos caules de açaizeiros,
Meu estranho mundo de máquinas fotográficas e passados.

Tudo o que poderia ser, ainda é.
E ainda soa passado.

As sombras das várzeas  revelam  passados,
Amores, rebeliões, sons de violões em Beja.

A volta é solidão e o amor de possível,
Envolve-se em realidades inaceitáveis...

O cruzeiro não é mais cruzeiro,
Enquanto cruzo avenidas buscando o que deixei.
Revolvo com as mãos as lamas de várzeas e igapós,
Procurando a matéria orgânica que me construiu.

Mergulho nas águas que me circundaram,
Onde me afogava, e me inundava de barro,
Argila dissolvida na imensidão do ser.

É impossível ser abaetetubense,
É impossível recobrar Abaeté do Tocantins,
Desconhecendo o fluxo das marés:
A preamar com sua desconhecida lógica,
A maré alta e sua estonteante e avassaladora multiface,
A maré baixa e sua vida pululando em matapis e anhingáis.

II

Quatro mil e quinhentos desempregados são pescadores.
Entre pescadores há os que pescam comida;
Há os que pescam o formulário de seguro desemprego;
Há os que pescam os fundos dos rios e baías;
Há os que, como eu, tentam pescar a si próprios...

Pés, mãos, braços, pernas, pulmões, canoas,
Silentes instrumentos de borqueios.
Aqui o silêncio é meio para saciar a  aventura
De romper o marco da fome.

III

As mulheres aguardam as canoas e seus homens.
E a tarefa que lhes incumbe,
Utilizar a armadilha para caçar o animal que escapa do cheiro
Inebriante do babaçu é árdua.

Como é possível prender em seu coração
- Matapi de possibilidades -
O pescador, largado nas baías do mundo?

Dia após dia, a espera não é esperança,
É, antes de tudo, paixão pela vida,
Pelo alvoroço da vida, pelo mergulho nas águas,
Nas encostas de várzeas, no olhar para a lua,
Que o tempo se encarrega de afirmar:
- Não há mais fase lunar e teu homem vai voltar...

IV

O borqueio se encerra
E ao pescador espera o açaí e o camarão.
E ele oferece o mapará.
Sua amante, desesperada, abre o peixe-trabalho,
Salga-o, dessalga-o;
Assa-o com seu coração.

Seu homem está presente.
Seu homem é sua pesca.

Assa o mapará com os olhos,
Serve o açaí, o camarão,
Sob luz de lamparinas.

Reza para Nossa Senhora da Conceição,
Abre todas as janelas e portas,               
E ama seu pescador,
Como se nenhum homem de terra e das águas,
Pudesse receber tanto mundo e tanta sorte,

Nas terras de Abaetetuba.

Parabéns Abaeté do Tocantins! Minha terra natal! E em cumprimento ao proposto, posto um poema em sua homenagem:

A CIDADE E A MATINTA

É noite novamente

e a cidade decentemente
explode em profissões e putarias
bebedeiras amores bem e mal amados
conversas de bares.
Planejadores de vidas articulam-se
e em primeira mão circulam
boatos de amanhã.
Ninguém mais escuta esculhambações
ou conselhos – raivas de pentelhos.
A donzela – e não a puta –
emputece-se por nada querer
e quem a quer também.
Imagens canibais enfumaçam-se
Braços nos canaviais – rebeldia
represada na Praça do Descobridor.
O estandarte do carnaval anterior
Sujo alforje de incompreensão
Vibra nas artérias ociosas
da avenida principal.

E dizem os senhores da cidade:
- Vagabundos, dêem passagem à mentira.
Deixem que fortaleçamos a cor
Erupção negra e desmascarada, pois máscaras
Enternecem nossas podres consciências.

E refletem os ditos e malditos vagabundos:
- Esta terra é como o céu
é como o mar:
tudo se agita
a turba aflita
transforma-se futuro.
- Aqui o coração é nulo
sem o corpo – pedra de brita.
- É nulo aqui o corpo
sem o coração – forja de vida.

A cidade ainda é noite
Na circundante multidão de dias.
E eu ouço a Matinta-Perera declamando
Suas inacreditáveis certezas:
- Matem o porquê
matem o porquê
mateeemopooorquêêê
maaateeemopooorquêêê
pooooorquêêêêê pooooorquêêêêê



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Ademir Heleno A. Rocha, nascido em Abaetetuba-PA, Brasil, casado com Maria de Jesus A. Rocha, cinco filhos, professor, pesquisador de famílias, religião, genealogia e memória biográfica, ambientalista, católico e amigo.

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