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quinta-feira, 19 de março de 2015

Retratos de Alguns Aspectos da Memória de Abaetetuba e Região Através das Décadas

Retratos de Alguns Aspectos da Memória de Abaetetuba e Região Através das Décadas

Retratos da Cidade de Abaetetuba e Suas Zonas das Estradas e Ribeirinha
A vida na cidade de Abaetetuba e nas suas zonas das Estradas e Ramais e Ribeirinha já foi muito tranquila, onde seus habitantes e comunidades desenvolviam normalmente suas atividades econômicas, vida social e  deslocamantos a qualquer hora do dia e da noite. Mas tudo começou a mudar para pior a partir da década de 1980, em alguns quesitos, conforme reportagem do jornal “O Liberal”, de 19/06/1994, com quase 21 anos de publicada, com algumas inconsistências, que serve também para retratar os demais municípios do Baixo Tocantins e Marajó, publicada no Blog do Ademir Rocha, em sua íntegra:

Abaetetuba Perde Seus Alambiques
“Mais de dois séculos de história marcam Abaetetuba, município com 1.090 quilômetros quadrados, fundado há 114 anos na Região do Baixo Tocantins. Outrora viu crescer, à custa da escravidão de negros africanos e índios, o poderio dos “senhores de engenhos”. Favores como isenção tributária, eram concedidos ao senhorio, alvo, ainda, de honrarias e títulos dados pelo poder público aos “homens de bem”.
Os canaviais perdiam-se de vista e, contam os nativos do lugar, os engenhos eram mais de 300 quando a cidade foi fundada. E a eles deve-se a fama de ser Abaetetuba a cidade onde se produz a melhor cachaça do Pará. Hoje restam apenas três engenhos, funcionando em precárias condições. Entre os extintos estão os famosos Alvorada e Amazônia. A sobrevivência dos engenhos foi comprometida pelas mazelas dos nativos submetidos à escravidão.
Os descendentes de negros africanos e de índios, mestiços de toda sorte, formam hoje o contigente de 100.016 pessoas (Censo de 1991, realizada pelo IBGE) que vivem à mercê de seus próprios esforços, enfretando a miséria que avança impiedosamente sobre a Região. Na Zona Rural concentram-se 43.616 pessoas, 22.885 dos quais homens e 20.731 mulheres.
Abaetetuba, Igarapé-Miri, Marajó possuíam muitos engenhos de cana-de-açúcar
Caboclo
À margem do rio Abaetetuba multiplicam-se as ilhotas onde vivem os ribeirinhos, famílias que, em média, são formadas por dez pessoas. O comerciante Francisco Ferreira, 66 anos, por exemplo, tem com Dona Terezinha, de 62 anos, 16 filhos, 50 netos e 6 bisnetos, todos vivendo lá mesmo.
Conhecido como Caboclo Ferreira, ele não vê um bom futuro, à médio prazo, para a região. “Os engenhos, que empregavam muita gente, se acabaram por causa das dívidas trabalhistas. Os vadios passavam três meses trabalhando e depois jogavam na Justiça do Trabalho. Aí o patrão tinha que vender tudo para pagar os trabalhadores, porque da feita que um botava ele na Justiça os outros iam atrás”, conta.
Caboclo Ferreira admite que foi a miséria que levou muita gente ao tráfico de drogas e ao contrabando, atividades criminosas que rendem uma fama negativa à cidade. Para ele, porém, a pobreza não justifica a prática de um ato ilícito. Defensor da pena de morte, ele trabalha na venda de alimentos, sobretudo peixes e capivara salgados, e com o frete de um a motor. Uma filha cuida de uma pequena mercearia no cais do porto.
Crise
Dono de engenho desde os 18 anos, atividade que herdou de seu pai, João Marcelino Pacheco, de 65 anos, tinha orgulho, no passado mais distante, de ser um dos maiores produtores de cachaça da região. Na pequena ilha situada no Furo do Tucumanduba – ou Furo Grande, como preferem os nativos -, a 45 minutos da sede municipal, de barco, o Engenho Capriche, de “Seu” Marcelino, dá emprego a 7 homens, que ganham diária de Cr$ mil e não têm carteira assinada, algo comum aos demais engenhos da região.
Na semana passada uma peça da moenda quebrou. Sem produção, “Seu” Marcelino terá que sobreviver com a mesada que recebe de 11 de seus 12 filhos. Um deles, Jurandir Pacheco, de 41 anos, trabalha com ele. Há 40 anos o engenho produzia até 24 mil litros de cachaça, além de açúcar, mel e até vinagre. Hoje, a produção semanal média é de 400 litros. O litro da cachaça custa CR$ 1 mil. Vendidos em galões, todavia, o preço do litro cai em até 30%.
“Já pensei em pedir o tombamento dos engenhos ao governo. Mas o governo não toma conta nem do seu patrimônio. Já fomos, em cooperativa, ao governador Jader Barbalho no seu primeiro governo pedir ajuda, pois nos falta capital de giro para incrementar a produção. Recebemos um grande não. Quem sabe, o governador Carlos Santos olha por nós”, afirma “Seu Marcelino, que já foi candidato a vereador pelo PDS e ficou esperançoso com a ida da reportagem de O Liberal ao seu engenho. “Daqui – garante – só saio morto”.
Olarias ameaçadas pela crise agravam o desemprego
Em 1980, quando a Companhia Vale do Rio Doce implantou a Albrás/Alunorte na cidade vizinha de Barcarena, os habitantes de Abaetetuba apostaram na chegada do progresso à região. Mas centenas de nordestinos incharam Abaetetuba em busca do emprego ofertado em Barcarena. Virou “cidade dormitório”. Foi aí que começou a saga de milhares de abaetetubenses que hoje, terminada a fase de implantação da Albrás/Alunorte, vivem no desemprego.
Os moradores também lamentam o processo de extinção de outra fonte de emprego: as olarias. Não se sabe quantas. Entretanto, o baixo preço do tijolo pago ao produtor alimenta a crise. Ângelo Ribeiro, de 20 anos, filho do dono da Olaria Ribeiro, “Seu Djalma, produz 5 milheiros a CR$ 60 mil. Mas diz que é pouco. A produção é toda para Belém.
Os trabalhadores, sem carteira assinada, recebem CR$ 3 mil por dia. A Olaria Ribeiro, na ilha de .........Justiça do Trabalho, assegura Ângelo, mas a maioria foi extinta porque os donos tiveram que vender a propriedade para pagar dívidas trabalhistas. A diária dos trabalhadores, admite Ângelo, é inuficiente para a sobrevivência: “É baixo o preço do tijolo: CR$ 600,00 cada milheiro. Por isso não dá para pagar mais”.
Desemprego
A cada esquina de Abaetetuba pode ser encontrado um ex-empregado da Alrás/Alunorte. “Há dezenas deles entre os famosos “táxiciclistas” que transportam passageiros em bicicletas, cobrando 1 mil a CR$ 2 mil pela corrida. Cláudio Assunção Azevedo, 30 anos, há 3 anos foi emitido da Albrás, restando-lhe trabalhar como taxiciclista. “Faço cerca de 15 viagens por dia. Não sei quanto ganho por semana ou por mês, porque gasto logo tudo com a família”, explica.
Os desempregados vivem nos bairros pobres da periferia que, a exemplo de Belém, são chamados de baixadas: FranciLândia, Mutirão e Vila da Lama são alguns destes bairros, onde grande parte dos moradores veio do Nordeste do país. Nas ruas, uma das tristes realidades é a presença de crianças desassitidas. A maioria é filho de desempregados.
A “Cidade das Bicicletas” registra uma média de duas bicicletas por casa. Muitas são roubadas. Até a Polícia anda de bicicleta. Os policiais algemam os presos ao veículo e eles vão a pé ao lado do policial até a delegacia.
Drogas
O intrincado de rios, baias, ilhas, vegetação no Baixo Tocantins, Marajó criaram
as condições ideais para o contrabando e tráfico de drogas nessas regiões
O Delegado da cidade, Miguel Cunha, há apenas 6 meses na cidade, diz que a Polícia enfrenta uma guerra contra o tráfico de drogas estimuldo pela miséria. “Esses projetos da Albrás e Alunorte só trouxeram mazelas e uma propaganda camuflada de desenvolvimento. Abaetetuba, sendo uma região na área dos projetos, foi muito atingida pelo desemprego e pela invasão de mão de obra não absorvida. O desemprego criou raízes e muita gente caiu na marginalidade. Encontramos aqui pessoas respondendo por 10, 15 e até 16 crimes de todos os tipos. A maioria por tráfico de drogas, mas há roubos e estrupros”, analisa o delegado.
Importante rota do narcotráfico por ser recortada po dezenas de ilhas com pequenos portos clandestinos, Abaetetuba é quase toda semana fiscalizada por agentes da Polícia Federal, segundo o delegado. O forte do tráfico é a cocaína, transportada para o Suriname ou Tabatinga (fronteira do Pará com a Colômbia). Os acertos de conta são comuns: se os traficantes não têm suas ordens atendidas, eles fazem os intermediários da droga “desaparecem”.
Com apenas 6 policiais civís e 40 policiais militares e desequipada (a escopeta é a arma mais moderna), a Polícia teme o confronto desigual com os traficantes. Mesmo assim, em 6 meses de trabalho, o delegado fez 8 prisões por porte de drogas variando de 1 a 1,5 quilo de cocaína. Sete traficantes eram de Abaetetuba e um de Moju. Além do tráfico, o delegado enfrenta o contrabando e gangues de rua que crescem.
Reproduzido pelo Blog do Ademir Rocha
Considerações sobre a reportagem sobre Abaetetuba
·         Os antigos engenhos de cana-de-aúcar realmente desapareceram do cenário econômico de Abaetetuba, Igarapé-Miri, Marajó, restando somente sua memória e história oral, e os poderes públicos nada fizeram realmente para ajudar financeiramente ou culturalmente alguns antigos engenhos, estes como símbolos de uma era econômica muito importante para a região do Baixo Tocantins. E não só a presença da Justiça do trabalho a partir da década de 1970, como outros fatores influenciaram na decadência da Indústria Canavieira.
·         Dos antigos engenhos não restaram nem as peças que compunham o maquinário de um engenho, nem peças da arquitetura, nem peças das caldeiras, peças de armazenamento dos produtos e outros que bem poderiam fazer parte do acervo de um imaginário “Museu dos Engenhos de Abaetetuba”.
·         Abaetetuba antigamente era conhecida também como “Cidade da Cachaça”
·         Grande parte dos habitantes da Região Ribeirinha de Abaetetuba mudou para a sede do município ou para Belém e outros lugares do Brasil e mundo, tendo outra população igual de abaetetubenses morando e trabalhando nesses outros lugares.
·         Temos muitas comunidades “quilombolas” residindo nas regiões Ribeirinha e das Estradas.
·         O açaí, modernamente, é a modalidade econômica que está prevalecendo nas comunidades rurais e ribeirinhas do município e o mesmo se sucede com os demais municípios do Baixo Tocantins e Marajó.
·          Das antigas olarias da região, algumas ainda teimam em subsistir e as causas da decadência da maioria das olarias foram: técnicas muito rústicas de produção de telhas e tijolos, escassês  da matéria-prima devido a intensa extração do produto, o barro, a chegada de telhas e tijolos de fabricação mais aprimoradas de outras localidades, presença da Justiça do Trabalho a partir da década de 1970 e outros fatores.
·         Realmente a chegada do complexo industrial Albrás/Alunorte fizeram chegar à sede do município muitos ribeirinhos, muitos nordestinos, em fato que fez mais que dobrar o números de bairros periféricos da cidade de Abaetetuba.
·         Abaetetuba também ficou conhecida com “Cidade das Bicicletas” devido o desemprego que grassava e ainda grassa na cidade, onde muitas pessoas começaram a usar as bicicletas para as chamadas “deixadas” de bicicletas. As bicicletas, modernamente, foram substituídas por centenas de “mototáxis” existentes por todos os recantos da cidade para o transporte de passageiros e pequenas quantidades de compras pelos moradores, fenômeno que se repete por todas as demais cidades do Pará e Brasil.
·         O contrabando é uma contravenção muito antiga no Baixo Tocantins, devido o emaranhado de vias fluviais de todos os tipos que levam até o Suriname, Paramaribo e outras localidades onde existisse essa contravenção. Depois, a partir da década de 1980, intensificou-se o tráfico de drogas que se espalhou por todas as partes da cidade e município.
·         Como em Belém e no Pará inteiro, a violência cresceu exponencialmente, em Abaetetuba, na medida da passagem dos anos e o seu combate se faz muito tímido, devido a falta de um maior número de policiais e estes devidamente aparelhados com estruturas modernas de segurança pública e também a falta de um poder judiciário mais atuante e ágil, que pudesse ajudar o sistema de segurança no Estado.
·         Abaetetuba não mais é uma cidade provinciana, tendo atualmente um grande crescimento populacional, avanços no urbanismo,  nos serviços e comércio, da assistência social, turismo de eventos e tendo retrocedido nas questões da educação (escolas vítimas da violência externa e falta de infraestrutura física e educacional), retrocessos nas questões da saúde pública, transportes urbanos, turismo de visitação  e segurança, fato que é o mesmo nas demais cidades do Estado.

Blog do Ademir Rocha, de Abaetetuba/PA

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