Foto: Cidade de Breves, de Benedito Miranda
Fonte: José Varella PereiraCULTURA MARAJOARA: ENTRE CHUVAS E ESQUECIMENTO E OUTROS
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uma
re-visão antropoética sobre a marginalização histórica do povo marajoara.
Em
meio às águas barrentas do golfão amazônico, empurrando o azul do
mar profundo para longe da costa, a Amazônia Marajoara manda
notícias históricas ao vasto mundo numa garrafa de náufrago
através da corrente das Guianas além do Cabo do Norte e da
fronteira do Oiapoque. No extremo-norte brasileiro a grande ilha dos
Marajós parece porta-aviões ancorado no delta-estuário Pará
-Amazonas. Ou seria o navio encantado no reino das Amazonas? A bordo
o fantástico carregamento de lendas e mitos numa história incrível
remontando a mais de mil anos... Balsa de carga de contos dos antigos
caciques e matriarcas do tempo da vela de jupati ou arca de Noé
tapuia encalhada na boca do maior rio do mundo.
A ilha grande conta por alto o drama de seus tesos
pisoteados por búfalos animais ou humanos ruminantes, debaixo da
chuva da ignorância, como foi que a população de 503 mil almas
ribeirinhas em rico território de 104 mil km² nascida, cometeu a
incrível façanha de chegar aos piores níveis de pobreza da América
latina. Pobre gente ribeirinha. Ou seria a criaturada sem eira nem
beira rica herdeira de um paraíso perdido? Se os últimos serão os
primeiros, como outrora diziam os padres dos primeiros dias do
catecismo de Nosso Senhor Jesus Cristo no rio Babel: quem sabe o
futuro há de vir, neste ilhado fim de mundo, pelas beiras da
história ou pelas margens da civilização em decadência. Começo
de outro mundo menos infeliz para o povo do país, é esta mesma
gente quem diz.
Esta brava gente – “Criaturada grande de Dalcídio”
no dizer de Eneida de Moraes – há muitos séculos habita o tempo
de 500 e tantas aldeias sobre antigas palafitas e tesos
proto-históricos. Hoje ela faz contraponto à aldeia global, tal
qual a estúrdia academia do peixefrito no Ver-O-Peso foi o grito de
independência ou morte das letras amazônidas face ao augusto
cenário literário nacional. Isto é, na verdade, a terceirização
luso-brasileira da cultura universal assim chamada. Já que a
diversidade é a fada madrinha destas ilhas filhas da pororoca.
Lugares ancestrais que se perdem na memória e se desdobram em
milhares de sítios panemas por varjas, campos e matas virgens
diversas, dispartidos em mais de duas mil ilhas pelas regiões
isoladas do Arari e Furos de Breves. Assim também na terra firme,
mato adentro, na região de Portel chamada rumo aos confins do
Tocantins e do Xingu.
Quem diria? A desconhecida “Ilha dos Nheengaíbas”,
com a barbaridade de seus antigos costumes pagãos na invencível
guerrilha a peso de zarabatana de paxiúba e dardos de talo de patauá
envenenados, mais a ruindade da sua língua incompreensível;
enganados na falsa pax de Mapuá, se tornaria este vasto
latifúndio na dimensão de um país atravessado na boca do maior rio
do mundo!... Onde os donos das antigas sesmarias meteram os pés
pelas mãos e encheram a terra dos índios de currais, engenhos de
cachaça, olarias, casas de comércio, serrarias e igrejas. Masporém,
Deus paresque se esqueceu de botar a mão em riba desta gente;
zangado que nem Tupã antigamente, com sua voz de trovão, ralhando
pajé que mijava fora do caco. Segundo contam alguns velhos a lenda
explicativa da panemice geral destas ilhas, devido a praga lançada
como castigo pela expulsão dos padres e frades a rogo de
escravagistas coloniais.
Quanto Marajó desencanta de seus antigos males? Talvez
– pensando eu, aprendiz de pajé reprovado por falta de fé – ,
quando a gente resgatar com brilho a utopia evangelizadora do reino
de Jesus Cristo consumado na terra, em fraternidade com o mito
fecundador de Terra sem males: paraíso selvagem onde não existe
Fome, Trabalho escravo, Doença, Velhice e Morte... Haverá algo mais
ecumênico e planetário do que isto? Entretanto, tudo se passava
debaixo do nariz do “payaçu dos índios” e ele não viu
aonde queriam chegar os Tupinambás, nem entendeu o que os
Nheengaíbas poderiam dizer se lhes não tivessem tapado a voz na
garganta com a corda e o baraço. Os obrigando a falar a língua-geral
para, enfim, aprender português sob peso de palmatória.
Ao todo, as velhas aldeias do passado distante se
transformaram em dezesseis municípios do Marajó velho de guerra,
resultado da repartição de terra dos extintos confederados
Nheengaíbas pelo famigerado Diretório dos Índios. Eis a lista
alfabética das municipalidades marajoaras, desde 1757 (ano do édito
pombalino) até 1961 (dos mais recentes desmembramentos de
municípios):
Afuá (o mistério africano de um nome de mulher),
Anajás (segredo da brava nação indígena invencível), Bagre (como
um peixe vivo no rio Panaúba), Breves (a terra do cacique Piié
Mapuá), Cachoeira do Arari (memória viva de Ananatuba), Chaves (a
morada eterna dos Aruãs), Curralinho (aldeia de Maruaru), Gurupá
(lugar de memória de Mariocai), Melgaço (aldeia de Aricará), Muaná
(cidade histórica da brasilidade parauara), Ponta de Pedras (aldeia
dos Guaianás), Portel (aldeia de Aracaru), Salvaterra (pátria
amada dos Sacacas), Santa Cruz do Arari (o lago ancestral dos marajoaras), São
Sebastião da Boa Vista (a bela das ilhas) e Soure (aldeia dos
Maruanás).
Cada um deles um Marajó à parte. Ilhas dentro de
ilhas repartidas por furos e igarapés. Onde esta boa gente se acha
dividida deste muitas antigas rivalidades, herdadas de velhas
guerrilhas locais e pobrezas importadas de além mar. Sem exagero, o
primitivo Marajó foi mata fome de todo mundo e já deu de comer a
muita gente...
O peixe nosso de cada dia, camarão de matapi mais o
pirão de açaí, roças de mandioca em quantidade e os gados do rio
(peixe-boi, tartaruga e pirarucu). A piracema de peixe do mato foi
chamariz e comedia de bandos de aves aquáticas e vários outros
predadores: fossem eles rastejantes como a cobra grande sucuriju,
andassem sobre quatro ou duas patas... Tal qual o paleo-índio
mariscador que aprendeu, por necessidade e acaso, a pescar de gapuia
de tanto ver lambança de guaxinim pegando peixe na maré seca no
leito de igarapé.
A gapuia será talvez a grande mestra de ofício
inventora da Cultura Marajoara cantada em prosa e verso, neste mundo
anfíbio onde as águas e o tijuco são inseparáveis. A educação
pelo barro dos começos do mundo. Infinita reivenção de ilhas-arcas
de Noé ao longo da costa, que seguem a correnteza ao sabor da maré:
divisa entre animalidade e humanidade. Pra não dizer, Natureza e
Cultura (pela fé da mucura, cá entre nós, que é nome de bicho e de festa
improvisada a cabo da faina do dia).
E quando, apesar de tudo, as aldeias da Missão
sossegavam dos tormentos iniciais da invenção da Amazônia, lá vem
o tal Diretório dos Índios! Dizendo o senhor capitão-general e
governador do estado do Grão-Pará e Maranhão que, diz-que, era
para liberdade dos índios... escravos dos jesuítas. Todavia as
mesmas promessas de liberdade dos índios e o papel histórico da
Companhia de Jesus como protetora dos índios fora invocada cem anos
antes: aqui a promessa foi quebrada mediante a primeira expulsão dos
padres e depois, para retorno ao Pará, conciliação destes últimos
com o regime das tropas de resgate (o “descimento” e “redução”
dos gentios).
Como diria Voltaire, “o mundo só terá paz quando se
enforcar o último rei com a tripas do último padre”... Porém, no
caso do Marajó, se não existisse el-rei Dom João IV e padres na
capitania-geral do Pará o genocídio teria sido total, atendendo o
pedido da Câmara de Belém ao governador do Maranhão e Grão-Pará,
mameluco André Vidal de Negreiros, a fim de levar a “guerra justa”
(cativeiro e extermínio) à Ilha dos Nheengaíbas.
Já na segunda
expulsão dos jesuítas – não tão inocentes das acusações,
segundo historiadores tais como o ponderado João Lúcio de Azevedo
–, a declarada liberdade dos índios logo se tornaria descarada
servidão em mãos de diretores de aldeias e até mesmo de vigários
das freguesias; recrutados apressadamente para substituir os
missionários expulsos e recolhidos à prisão em Portugal.
Claro que os cabocos (índios recentemente "extintos" por decreto) já declarados novos súditos portugueses,
iguais perante às leis do reino a todos mais súditos da coroa; com a
estúpida notícia cairam no mato sem cachorro: caminho do feio é
por onde veio...
E, por isto, a imigração clandestina e o
contrabando na rota do Oiapoque também teve forte incremento com o
Diretório dos Índios dentre a longa série de acontecimentos
históricos, escritos e não-escritos, que costuram as regiões
amazônicas às ilhas do Caribe desde tempos imemoriais.
Na luta entre o iluminismo e a escolástica índios,
negros e mestiços pagaram o pato, conforme conta Alejo Carpentier,
no romance “O Século das Luzes”. Eu acho, ademais, que
por conta da 'obra' (sic) do Diretório dos Índios, se acaso
existisse vida além túmulo, o primeiro ministro de Dom José I estaria a
pé queimando no quinto dos infernos...
Ou não. Pois, segundo uma
santa senhora curandeira em Icoaraci, o Marquês converteu-se no
Purgatório das capitanias hereditárias do outro mundo. Agora ele é
um espírito de luz montado no "cavalo" mediúnico e trabalha, que nem carola de igreja, numa seara
de umbanda lado a lado com caruanas, cabocos de arco e flecha e
pretos velhos. Para resgate de sua dívida histórica, cuida ele
zelosamente dos destinos da antiga terra Tapuia. Aonde, paresque,
queria transferir a Família Real para fundar no Pará o Quinto
Império do Mundo, conforme profecias sebastianistas do Padre Antonio
Vieira.
Se não é vero, espero que por artes políticas deste
e outros mundos ainda seja possível fazer alguma coisa neste
sentido, embora a irremediável contradição entre pajelança,
jesuitismo e iluminismo não deixe margem à concretude das utopias. Quem quer saber de coerência numa terra
onde gente vira bicho e bicho vira gente, plantas mágicas se
transformam em guardiões de caminhos e guardadores de casa? Aqui o
realismo mágico fez capital.
No
mundo pós-moderno já se fala em inventar, na Amazônia "celeiro do mundo" pra variar;
uma tal ecocivilização. Mas a gente sabe que ecocivilização
existia aqui antes dos civilizados chegar e estragar a ecologia
humana com as suas inglezias, matanças e viagens philosophicas,
que estão na origem da biopirataria.
Não
ria, mano velho, o caso é serio... As esperanças dos Marajós são
agora que a gente mesma possa converter, na terra, os malfeitos do
diretório pombalino e seus seguidores no “desenvolvimento”
insustentável da Amazônia. Como no céu dos terreiros e casas de
Mina das populações tradicionais o avatar do Marquês está a dar
serviço a fim de curar a estória, sem pé nem cabeça, da
“elevação” de antigas aldeias indígenas em vilas e lugares com
nomes tirados por acaso de Portugal, tais quais: Aricará
(Melgaço), Aracaru
(Portel), Maruaru
(Curralinho), Aruans
(Chaves), Guaianazes
(Vilar), Joanes
(Monforte), Maruanazes
(Soure), Cayá
(Monsarás), Jaburuacá
(Condeixa) e outros que já não me lembro.
Deste modo, o Homem marajoara por ele mesmo libertado
de tantas libertações estranhas, achará caminho para o futuro de
seu próprio desenvolvimento humano. Por exemplo, 500 aldeias
marajoaras autossustentáveis – como, no passado, aldeias suspensas
em tesos sobre campos alagados –, na prancheta dos sonhos,
configuram o amanhã da Ciência & Teconologia que precisamos.
Por que não?
domingo, 27 de outubro de 2013
CABOCO NA CASA DO BARÃO
exposição comemorativa dos 80 anos da Primeira Comissão Brasileira Demarcadora de Limites
CABOCO
NA CASA DO BARÃO
Meu ex-chefe mandou-me convidar para solenidade na
Primeira Comissão Brasileira
Demarcadora de Limites (PCDL). O convite: “O Ministério
das Relações Exteriores e a Primeira Comissão Brasileira
Demarcadora de Limites tem a honra de convidar para a entrega da
Medalha “Euclides da Cunha”, em homenagem aos demarcadores da
Fronteira Norte.”. Não é
todo dia que um caboco da ilha do Marajó recebe convite como este. Ainda
mais que faço jus à medalha comemorativa dos 80 anos da PCDL,
para mim mais importante ainda por que fará par à medalha “Pedro
Teixeira”, atribuída
pelo Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) a seus
membros.
Fiz
parte do IHGP, nele tendo sido admitido durante o curto tempo em que
foi, em articulação minha, instalado temporariamente na PCDL para
trabalhos de recuperação do Solar do Barão de Guajará, sob supervisão do
IPHAN. Do velho Silogeu paraense afastei-me sem
quebra de amizade nem de respeito. Simplesmente minha
passagem pelo solar do Barão de Guajará estava de bom tamanho.
Tenho horror a direitos cativos e medo da eternidade. Deixei espaço a
melhor figurante da cátedra de Paul Le Cointe e me
deixei desligar, tranquilamente, como manda o estatuto. Fiquei com a
amável lembrança do presidente do IHGP. Falecido na altura dos seus
oitenta e tantos anos de idade lutando por recuperar o arruinado Solar
contra a indiferença da intelectualidade local para revitalizar a
instituição e contra a insuficiência renal que o ia matando
inexoravelmente. Era comovente vê-lo chegar àquele solar em ruína,
semelhante a um naufrágio no qual o comandante se recusa a abandonar o
navio, amparado por seu filho Manoel Gama diretamente da sessão de
diálise para reunião de diretoria temperada de infinitos causos
marajoaras. Era o Dr. Guaraciaba Gama, fiel zelador da canhapira,
contemporâneo de Dalcídio Jurandir e suposto personagem do romance na
figura de Tales de Mileto, o menino proprietário do único velocípede da
vila de Cachoeira invejado por Alfredo, alter-ego do autor.
Eu
também com as mazelas da velhice e os curtos proventos da aposentadoria
a contemplar que o velho Silogeu carecia de sangue novo e mudança de
mentalidade, que felizmente agora está em curso com uma nova diretoria.
Ademais, o velho estatuto do silogeu impõe
contribuição mensal aos confrades, quando na verdade a instituição
de interesse público não poderia jamais desta maneira suprir suas
reais necessidades de manutenção. Acredito que outros tantos na
mesma disposição também pegaram bilhete azul e
espero que novos membros encontrem apoio do poder público
com dispensa da ficção das mensalidades. Abolição que não
defendi quando lá estava a fazer dificultosa figuração, obrigado a ir e
vir no trânsito infernal de ponta a ponta da cidade, para não advogar em
causa própria. Mas penso que, para constar, é hora de manifestar aquela
opinião de outrora.
Neste momento, o ex-confrade do IHGP quer expressar gratidão aos que o
acolheram no Silogeu, notadamente o falecido presidente Guaraciaba e o
amigo Pedro Rocha, registrando por este meio apreço à medalha “Pedro Teixeira”
recebida em cerimônia no mesmo auditório da PCDL, de gratas
memórias, onde irá acontecer a entrega da comenda
Euclides da Cunha. O
que o faz lembrar, inclusive, que ele foi um dos
narradores do documentário “Cariua-Catu,
a Grande Expedição de Pedro Teixeira”, em
co-produção da TV Cultura do Pará com Portugal.
FRONTEIRA NORTE
demarcando e aproximando a Amazônia
PRIMEIRA COMISSÃO BRASILEIRA DEMARCADORA DE LIMITES
demarcando e aproximando a Amazônia
PRIMEIRA COMISSÃO BRASILEIRA DEMARCADORA DE LIMITES
Ocorre-me pensar estas coisas quando
chega em casa, na Marambaia, o honroso convite do amigo Dauberson
Monteiro
da Silva, Engenheiro Cartógrafo, sucessor na PCDL de nosso
legendário mestre Coronel Ivonilo Dias Rocha, e me faz escrever estas
linhas de memória e gratidão. Dauberson é o primeiro dirigente civil em
80 anos da PCDL na linha sucessória desde o Almirante Braz de Aguiar
que dá nome ao Auditório, foi aluno de cartografia do Coronel, no Rio de
Janeiro. Homem do Centro-Oeste o engenheiro cartógrafo diretor da PCDL,
como seu mestre cearense Ivonilo cuja última vontade foi ser enterrado
junto a um marco de fronteira onde está, no limite entre Tabatinga
(Brasil) e Letícia (Colômbia), tem o gosto pela nova fronteira
consolidada que prima pela integração dos países amazônicos na União das
Nações da América do Sul (UNASUL). Fronteira que aproxima os países
vizinhos, longe de os separar como ao tempo das colônias com as capitais
longe do sertão voltadas para a Europa e de costas umas para as
outras.
A cidade de Belém do Pará, cognominada
Feliz Lusitânia; nunca deve esquecer que ela foi berço do Presépio em
acordo guerreiro entre militares portugueses e índios de nação
Tupinambá, em 1616, carregada pelas armas e barões assinalados para o
Norte do Brasil desde Nova Lusitânia (Olinda-PE) para expulsão dos
estrangeiros inimigos, mas que ocultava por contradição o acordo de paz
dos índios do Marajó, sob tutela legal da Companhia de Jesus tal qual o
SPI e a FUNAI; no limite da fronteira de Tordesilhas. Cuja pacificação,
parece claro agora, era exigência sine qua non para formação do uti possidetis de 1750, na vitoriosa tese da diplomacia do luso-brasileiro Alexandre de Gusmão, que se acha na gênese do país do Futuro.
A extensão do Nordeste para o Norte tem a dimensão da utopia selvagem daquela Yby Marãey
("terra sem mal") - lugar encantado onde não existe fome, trabalho
escravo, doença, velhice e morte -, assim entre a PCDL com seu
emblemático marco do Tratado de Madri (1750) e o Museu de História do
Estado do Pará (MHEP), no Palácio Lauro Sodré; existe uma ligação
histórica que remete à Fonteira Norte de suas origens em Pernambuco até,
recentemente, o Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), assinado em
1978, e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), em
1995, com sua sede em Brasília.
Portanto, a Medalha "Euclides da Cunha"
tem a ver com esta longa história de integração continental,
entrelaçando índios e mamelucos da invenção da Amazônia ao anônimo surara
das campanhas demarcatórias até a alta diplomacia do Barão do Rio
Branco e seus homólogos nas respectivas Chancelarias sul-americanas.
Ainda mais feliz a ideia da comenda
quando me dou conta de que está prevista a vinda de Brasília a Belém do
Coordenador-Geral das Comissões Demarcadoras de Limites,
Ministro de carreira Márcio Fagundes; e do
Subsecretário-Geral da América do Sul, Central e Caribe, Embaixador
Antonio José Ferreira Simões. Não posso deixar de
lembrar do jovem economista da UNB e estudante do Instituto Rio Branco
Antonio José que conheci em animadas conversas em fins de expediente com
o então chefe da
Divisão de Fronteiras (DF), Primeiro Secretário Paulo Roberto
Palm; que nos daria carona para a Asa Sul num fusca famoso pelas broncas
mecânicas e sustos que costumava dar a condutores e passageiros.
Tempos idos e vividos a rememorar numa
pequena série do blogue marajoara para compartilhar com os conterrâneos
da Ilha do Marajó as aventuras do caboco de Ponta de Pedras na casa do
Barão do Rio Branco e me fazer porta-voz voluntário de muitos outros
servidores das demarcações dos confins da Amazônia ao longo do tempo e
do espaço, onde não pode chegar o convite e a condecoração em apreço:
justo eu, o menos merecedor; por acaso sorteado a fazer papel de
"Guimarães Rosa" na Comissão Demarcadora ou a ser escrivão de
acampamento, contador de causos aprendidos com os suraras. Quem dera!
LEMBRANÇAS DE UM CANDANGO ADOTIVO
Ingressei no Ministério das Relações Exteriores em 1973, por concurso público para o cargo de Oficial de Administração
muito concorrido na UnB, no ano de 1971. Enquanto 1967 foi o ano da
minha "morte" psicológica e quase física em Belém, quatro anos depois
ressuscitei em Brasília (aprovação completa em exames de ensino
supletivo de I e II graus em 1970 seguido de aprovação em quarto lugar
no vestibular de direito na extinta UDF, em 1971; emprego fixo na
Companhia Brasileira de Alimentos (COBAL), requisição pelo Ministro
Jarbas Passarinho para o MEC).
Depois de um tempo difícil após a
mudança, achei amigos e consegui emprego onde desfrutei de excelente
ambiente de trabalho e bom salário na matriz da estatal COBAL, todavia
me faltou tempo para concluir o sonhado curso universitário duramente
conquistado. Tive, então, que pedir ajuda a Jarbas Passarinho, que me
conhecia ligeiramente de priscas datas no interior do Pará e
oferecera-me bolsa de estudo no exterior. Fui requisitado ao MEC, mas ao
soar do gongo finalmente o MRE me convocou a tomar posse (bateria de
exames de saúde, teste psicológico e psiquiátrico, entrevista
eliminatória com o poderoso Ministro chefe da Divisão do Pessoal, uma
gafe de estreia revelando falta de intimidade do concursado com a língua
de Camões, não seria a primeira nem a derradeira, valeu admoestação
tipicamente diplomática de chegada)...
Deus me livre do homem do SNI no
Itamaraty, que botou o poetinha Vinícius de Moraes pra fora da Carreira;
sonhar com a infiltração de um comunistazinho nortista na casa do
Barão!.. Ansioso me apresentei à Divisão do Pessoal (DP) para o primeiro
dia de trabalho. Mandaram-se assinar o "livro" de ponto e falar ao Sr.
Carlos (era um mulato baiano boa praça), perguntei o que deveria fazer. E
ele, "já assinou o ponto?"... "Já sim, Senhor". "Pois - retrucou ele -
fez a coisa mais importante".
Boa recepção, finalmente eu passava a
ser de direito e de fato servidor efetivo do Itamaraty. Mas, uma
dramática redução de salário me esperava no fim do mês, na ordem
aproximada de 40% em relação à administração indireta na COBAL. Bem que
minha ex-chefa, dona Iolanda, prima de Dom Helder Câmara; avisou que na
administração direta o "índio brabo", como ela carinhosamente me
chamava; poderia quebrar a cara... E tudo isto para continuar pagando
universidade privada do Senador Eurico Resende em horário noturno,
sustentar esposa e filho recém-nascido, mais o custo de aluguel. A corda
no pescoço do novato Oficial de Administração, sem possibilidade de
destrancar a matrícula do curso.
Foi aí que, por acaso, ao escutar a
chefa da seção falar com Belém ao telefone descobri que o MRE havia uma
repartição na capital do Pará. Seria possível uma remoção salvadora?
Coincidência, a chefa era sobrinha do General Bandeira... O diabo era
que a PCDL estava com excesso de lotação com servidores remanejados dos
finados SNAPP e SPVEA. Carecia muita conversa, a começar com o sub-chefe
Ministro Luciano Rosa. Este acenou com possibilidade de colocar meu
nome entre futuros recebedores de casas em construção para servidores
que tinham ingressado em Brasília.
O tempo passou, voltei à carga, o
cronograma de entrega das casas em atraso. Então, a surpresa, o Ministro
Diégues concordou, à titulo excepcional, em mandar remover o Agente
Administrativo da DP (Brasília) para a PCDL (Belém). Disse-me o Ministro
em entrevista de despedida com a portaria publicada no DOU,
significativamente, que eu seria o primeiro de uma série. Dito e
feito... Até aquela data não havia um único caso de funcionário do
quadro permanente do MRE em Brasília removido para a PCDL em Belém.
A chegada em Belém, quatro anos depois
de uma tristonha partida em busca de melhoria de vida, foi para mim o
retorno ao país natal. Brasília será sempre uma boa lembrança para o
caboco que se transformou em candango e num dia de 1970 partiu de ônibus
pela Belém-Brasília convalescente, desempregado, frustrado depois de
ter sido "gente" grande: aos 33 anos de idade, mas sem poder comprovar
nem mesmo conclusão de ensino de primeiro grau. Coisas desta nossa vida
ribeirinha, sem eira nem beira, à margem da História (no dizer de
Euclides da Cunha).
De volta a Belém, março de 1974, vinha
eu recém-casado e o primeiro filho do casal, emprego estável, uma casa
de família grande e generosa por parte de minha esposa e companheira,
estava curado, cursando direito com vaga garantida na Universidade
Federal do Pará...
Primeiro dia na PCDL: um casarão do
patrimônio da União na avenida Governador José Malcher (antiga São
Jerônimo de muitas histórias da época da Borracha), entrou portas
adentro sem topar porteiro, no salão deserto respira-se antiguidade como
outrora mutatis mutantes nas casas de seus dois avós em Ponta de Pedras, na ilha do Marajó.
A sede da PCDL é uma maravilha de museu
com biblioteca de estantes negras cheias de títulos vetustos, mapas
históricos, acervo histórico indígena de testemunho do encontro da
Comissão com povos originais das regiões amazônicas e no pátio interno
do casarão um marco vindo de Portugal para a primeira demarcação de
limites na Amazônia, nos termos do tratado de limites luso-espanhol de
1750, que esteve submerso no Rio Negro durante 200 anos.
Destes
marcos históricos trazidos pelo capitão-general, Demarcador e
governador do estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de
Mendonça Furtado; um deles ficou na cidade de Barcelos-AM, que foi sede
das demarcações do Tratado de Madri e teve seu Palácio dos Demarcadores.
Outro marco histórico do Tratado de Madri se encontra à entrada do
palácio Itamaraty, em Brasília, e dois outros estão em Belém. Destes
últimos há o mencionado no pátio-quintal do casarão da Governador José
Malcher e o outro está na praça D. Pedro II fronteira ao Solar do Barão
de Guajará, sede do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP). Em
qual história de fronteiras e fronteiros, por mais ordinária ou menor
que seja, cumpre estabelecer as devidas ligações de tempo e lugar do
correspondente roteiro geográfico.
E pensar que um dia, pelo ano de 1964 ou
1965, estando o caboco secretário municipal de Faro em trânsito por
Santarém com destino a Belém, em angustiosa dificuldade de achar
transporte para prosseguir a viagem; o comandante do N/M "Braz de
Aguiar" da PCDL, secamente, lhe disse que "o navio da Comissão de
Limites não carrega passageiro"... E o tal caboco, por acaso, viria a
ser encarregado do Setor de Administração da PCDL, competindo a ele
executar ordem do Coronel Ivonilo para mudar o sistema de transportes da
Comissão. O sub-Chefe Wiltgen Barbosa, oficial de Marinha, havia
demostrado como parceria com a FAB seria mais vantajosa para operações
de campanha demarcatória, do que o antigo transporte fluvial dos tempos
de Euclides da Cunha, Rondon e até mesmo do capitão de Mar-e-Guerra Braz
Dias de Aguiar. É claro que toda mudança implica desconforto e tem suas
reações contrárias: mas tinham acabado os tempos heroicos das grandes
campanhas, que levam até um ano, quase a metade a bordo de canoas,
lanchas e navio entre Belém e os extremos da Fronteira Norte. Avião e
caminhão numa nova Amazônia mapeada e demarcada estavam a abrir uma nova
etapa na história dos países amazônicos.
Com muita conversa, tolerância e
teimosia o Coronel Ivonilo promoveu uma mini-revolução, inclusive no
sentido do Itamaraty perceber que a PCDL é de fato parte técnica de seu
organograma e não extensão do Serviço Geográfico do Exército que havia
sido no passado. Como sinal das mudanças técnicas e administrativas das
Comissões de Limites a antiga flotilha de lanchas e canoas baseada em
Manaus foi a leilão e o antigo Aviso "Tocantins" da Marinha de Guerra,
rebatizado "Braz de Aguiar" e transferido à PCDL, que ficava em Belém,
foi repassado em convênio entre o Ministério das Relações Exteriores e o
Ministério da Saúde a fim de auxiliar na distribuição de defensivos de
combate à malária pela SUCAM na Amazônia, uma articulação bem sucedidas
iniciada por dois pontapedrenses a serviço do Governo Federal, Fernando
Malato e este que vos fala; respectivamente, pela SUCAM e PCDL.
O caboquinho do Marajó parou extasiado
no meio do salão do casarão da antiga São Jerônimo a contemplar aquelas
relíquias da formação territorial das Amazônias. Sem saber ainda que
acabava de chegar numa casa dividida a meio por um inusitado processo
administrativo conforme a famigerada lei de Segurança Nacional. Grossas
acusações de parte a parte e muitos ressentimentos. Sobretudo, segundo
diziam no gabinete, fundas magoas do General Bandeira contra o Sargento
Chaves do contingente militar, que se formou advogado sob as bênçãos do
superior. E fora "ingrato" o sargento advogado arregimentando entre
subalternos indisciplinados acusadores dos principais oficiais da
Comissão. Chaves talvez pensasse, diziam os mais moderados, que ao
detonar rivais não macularia a figura impoluta do Chefe de todos eles,
bons ou maus servidores.
No final de contas, o tiro saiu pela
culatra com a penalização dos acusadores (convertida em perda parcial de
vencimentos). Entre mortos e feridos escaparam todos. Mas ficou um
enorme calo entre oficiais e subalternos, o velho General não esperou
por outro motim na Comissão, disse adeus e foi-se embora pouco tempo
depois. Como seria natural a recepção fria ao "homem de Brasília"
revelava desconfiança de ambos os lados: quem sabe um informante mandado
pelo Itamaraty? O lendamento dos acontecimentos é incontrolável numa
repartição como esta, sobretudo quanto se está em acampamentos de
fronteira longe de tudo e o conflito entre oficiais e subalternos se
aguça. Com o passar do tempo viram que o homem, na verdade, era do
Marajó e ali estava tão só para salvar o ambicionado diploma que não
pôde pagar em Brasília e controlar despesas de família cujo salário não
dava mais para continuar longe de Belém a pagar aluguel de casa.
Ah, sim! Existia o expediente das
missões temporárias, disputadas com unhas e dentes, mas para tanto
carecia ser peixinho de chefinho com prestígio junto a chefão que
concedesse a missão compensatória dos tempos canibalescos da Inflação.
Já viu a dificuldade de um caboco estranho ao ninho... Caminho do feio é
por onde veio.
A PCDL era, então, dirigida pelo General
Ernesto Bandeira Coelho um dos três chefes da "revolução" que com os
coronéis Jarbas Gonçalves Passarinho e José Lopes de Oliveira ("peixe
agulha") aparecia no primeiro time da ditadura em Belém. Peixe Agulha
era o terror dos "subversivos" e "corruptos", enquanto Passarinho
conquistaria o poder político regional visando o plano nacional e o
velho general Bandeira, na reserva, era um gaúcho bonachão sucessor do
Almirante Braz Dias de Aguiar - ícone da PCDL -, que adorava prosear e
frequentar a society...
Já viu! Vivaz, irônico e rico em trocadilhos (por exemplo, "meu filho, esse pessoal botou os pés onde homem nenhum havia colocado as mãos"),
o General gastava horas para despachar o expediente burocrático
entremeado com causos fabulosos. E o caboco sonso a querer mostrar
serviço racionalizando a repartição... Vaidoso até à medula o Chefe da
revolução não rubricava um simples memorandum sem revisar erros
gramaticais e apurar o estilo, mas ao contrário do Ministro chefe da DP
não humilhava a ignorância de ninguém.
Num caso mais hilário, o estafeta voltou
do banco sem descontar o cheque do General por que este se esquecera de
"adoçar" (endossar) o reverso do cheque... Contendo o riso o velho
militar assinou e disse "pronto, meu filho já "adocei" o cheque, pode buscar o dinheiro por que estou a perigo"..
Fazia isto com espírito jovial. O pessoal, fosse ele dos chamados
"oficiais" ou formado por "subalternos", havia genuíno apreço pelo
General: já entre os primeiros havia surda competição pela preferência
do Chefe da Comissão e entre subalternos temor e animosidade contra os
tais "oficiais" considerados puxa-saco...
A Fronteira Norte de 1494 a 1750 era a Costa Fronteira do Pará na margem oriental da ilha do Marajó. Quem sabe?
Rato de biblioteca, o acervo da PCDL me
encantava. Mas ali reinava uma pequena aristocracia como num castelo
feudal com seus senhores cortesãos e serviçais. Como podia um pé rapado
vir meter bedelho na papelada que parecia timbrada de 'secreto' ainda
que não fosse? Eis o conflito latente que espelhava a própria formação
de nossas fronteiras ultramarinas.
Claro que eu não sabia nadinha e só com o
tempo, enquanto servidor na Casa do Barão do Rio Branco, o caboco
marajoara iria compreender onde ele estava metido desde algumas gerações
pregressas. Por necessidade de emprego e instinto de sobrevivência me
tornei um aplicado agente administrativo, como meus antepassados
indígenas catequizados aprendiam latim para ajudar na missa e também
aprender a língua do inimigo. Ou, de outra parte, os antepassados
colonizadores aprendiam usos e costumes nativos para melhor passar na
colônia.
Todavia, estava por vir o derradeiro
milico da PCDL e com ele uma extraordinária virada de mesa, seu nome:
Coronel Ivonilo Dias Rocha, nativo de Caucaia (antiga Soure, do Ceará),
nacionalista sincero e humanista convicto. Quando meu prefeito
inesquecível morreu, Antonico Malato, escrevi elogio fúnebre publicado
no jornal "O Liberal" pranteando a morte do fundador do Círculo Operário Pontapedrense e da Banda de Ponta de Pedras.
Ivonilo era um apaixonado educador
republicano e gostava de reunir o pessoal da Comissão para longas
preleções, a tesoureira dona Maria Júlia Chaves se desesperava com os
processos de contas a pagar e prestação de contas parados sobre a mesa
de trabalho. Ela odiava quando Ivonilo convocava os servidores, oficiais
e subalterno, sem exeção; e eu pedia a palavra alongando a coisa.
Naquele dia, Ivonilo leu meu elogio fúnebre a Antonico e se emocionou.
Era preciso acreditar que ainda há cidadãos honestos e patriotas neste
país. Então pediu-me, "quando eu morrer quero que escrevas assim para
mim". Promessa cumprida com dor no coração, Ivonilo é meu guru para
sempre. Em plena ditadura, ele sabia de minha secreta militância em
memória do comunista marajoara Dalcídio Jurandir, meu amado mestre e tio
paterno. Reclamava, "publica pois do contrário vais deixar pras minhocas o que aprendeste".
Não há nada pior nas sociedades
neocoloniais do que índio metido a gente e preto que não sabe ficar em
seu devido lugar. Nem nas repartições de governo servidor que serve ao
público em vez de servir a seus superiores hierárquicos.
Meu colega Maurílio era homem de inteira
confiança do General Bandeira desde a fronteira do Setor Oeste, um
verdadeiro português, de bom coração; mas com desconforto quando via
"subalterno" metido a intelectual. Rivalizava com Dilermando o comando
efetivo da Comissão, mas o sábio General dividia os limites entre os
dois, de maneira que Maurilio tinha as chaves da sede nas mãos e
Dilermando, segundo seus desafetos, era o "reizinho" do campo. Manda a
verdade que se diga, entretanto, que sem Dilermando no comando dos
trabalhos de campo e os mateiros de costume recrutados em Óbidos seria
difícil levar a bom termo as campanhas àquele tempo. O secretário da
Comissão implicava gratuitamente comigo, todavia sem me causar mal
nenhum; por eu andar sempre com um livro à mão e copiar toda obra que
podia consultar. Ele não via que deveria fazer o mesmo, naquela
universidade corporativa sem igual. Chamava-me, ironicamente, de
"Guimarães Rosa". Se ele chamasse alguém de "poeta", queria dizer um
inútil... Um bom homem, afinal de contas, e o que mais sofreu com a
despedida do General quando este pediu dispensa da Chefia da PCDL ao
MRE.
Quando, com o amigo sargento Alberto
Mendes (comandante do contigente militar que dava guarda na sede da
PCDL; bacharel e professor de geografia) "descobrimos" que o geógrafo
Raja Gabaglia, professor de diplomatas no Instituto Rio Branco,
descrevia a "grande oval insular" das Guianas. Tal descoberta do
sargento e do agente administrativo chegou aos ouvidos do General que,
de bom humor, caçoou dos descobridores da "ilha" das Guianas...
Na verdade, Raja Gabaglia não estava
sozinho, pois o francês Elisée Reclus descreveu abertamente a "grande
ilha" das Guianas... E Ciro Flamarion Cardoso não fez por menos. O
buraco do problema é mais embaixo: assim como mulher não deveria
aprender a ler e escrever, muito menos a votar; também a classe
"inferior" deveria ficar longe de saber como se faz salsichas e se
escreve a História.
Quando o General pediu exoneração do
cargo de chefe da PCDL ao Itamaraty e o pedido foi aceito, sem choro nem
vela, a velha guarda sentiu-se desamparada. Então, apareceu como um pé
de vento o tenente de Marinha Wiltgen Barbosa. Este oficial no cargo de
sub-Chefe da PCDL foi um susto operacional, embora por pouco tempo
quando saiu para o projeto RADAM. Tremendo "caxias", quando tendo eu
chegado há pouco em Belém removido com o cargo de Agente Administrativo;
o Itamaraty convocou-me para tomar posse do cargo de Oficial de
Chancelaria ao qual tivera sido aprovado em concurso interno por
ascensão funcional, Wiltgen adiantou que não pediria minha permanência
na PCDL, visto não haver (em seu entendimento) lugar para esta categoria
nas Comissões de Limites.
Não fiz objeção, visto que na época
ambos cargos eram equivalentes de nível médio do Serviço Público sem
notável diferença de remuneração entre ambos. Não sei de caso
semelhante, para justificar pedido de renúncia ao cargo. Acredito também
que sou o único Oficial de Chancelaria do Serviço Exterior Brasileiro
com três concurso: o primeiro terminado por desistência de posse do
cargo; o segundo feito no atual IFPA em Belém reprovado por falta de
décimos da nota mínima em inglês e, enfim, em Brasília o terceiro
concurso finalmente aprovado e empossado.
Este terceiro concurso de Of Chan
também tem história particular. Eu havia retornado a Brasília a convite
do atual Ministro Palm para exercer encargo de secretário
administrativo da DP. Ele insistia para que eu fizesse por terceira vez o
concurso, mas eu não me interessava. De fato, com a remoção da PCDL
para a DF, em 1980, adquiri vaga no curso de economia na UnB e este
passou a ser minha maior meta em Brasília. Como Agente Administrativo do
MRE minha família estava bem instalada em apartamento funcional e não
havia grande diferença entre as duas categoria de servidores. O
ambicionado curso de direito eu o havia enforcado numa tarde quente e
chuvosa, no recém aberto campus da UFPA no Guamá. O vaidoso
estudante temporão sonhou frequentar antiga Faculdade de Direito do
Largo da Trindade (praça Barão do Rio Branco, hoje a OAB-PA), minha
decepção com a UFPA de então começou com o indeferimento de créditos de
disciplinas cursadas na Universidade do Distrito Federal (particular), o
que na prática equivalia a voltar ao primeiro ano; na UDF não se
estudava Direito Romano e na UFPA era obrigatório desde o básico...
De mal humor, ensopado de chuva na corrida entre a parada de ônibus e a sala de aula, saltando sobre poças e fugindo da lama do campus
ainda em construção, a gota d'água para mim foi a aula maçante de um
ex-seminarista, apegado em Aristóteles, que gastou quase todo tempo para
explicar a diferença entre o ovo e a galinha... Ou seja, a potência e o
ato. A potência da chateação se traduziu, então, no ato de
irresponsabilidade pela própria biografia do caboco, que se retirou
grosseiramente e jogou o caderno de notas à lixeira não se dando nem ao
trabalho de trancar a matricular. Péssimo exemplo. No entanto, em 1976, a
UFPA abriu concurso para Tecnólogo em Saneamento Ambiental (no edital,
curso de curta duração sem repetência). Lá estava eu entre os aprovados,
mas quando parecia que a coisa desta vez teria final feliz;
sobreveio-me crise aguda de labirintite. Tive que tirar licença médica e
ir ao Mosqueiro repousar com a família. Recuperado, o curso estava nos
finalmente. O coordenador dr. Clodoaldo Beckman ofereceu chance de uma
outra turma onde o cara poderia concluir matérias não concluídas na
primeira turma. Desta feita, uma consulta informar junto a amigos no
Ministério da Saúde dizia-me que o curso não teria grande futuro, visto
que contemplava cobrir emergência. Pensei e repensei e fui fazer
vestibular para Economia nas Faculdades Colégio Moderno (FICOM, hoje no
grupo UNAMA). Foi assim que retornei a Brasília em 1980 fazendo jus à
vaga na UnB.
"Demarcar para aproximar" (Cel. Ivonilo Dias Rocha)
As mudanças na PCDL aprofundaram-se. E
como se não bastasse chegou o Coronel Ivonilo, "cabeça chata" que tanto
tinha de cordial como havia de teimoso: escapou ele de ser expulso do
Exército durante o golpe de 1964 pelo grande crime de ter sido
agrimensor do IBRA (Instituto Brasileiro de Reforma Agrária), sucessor
do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC) e antecessor do
INCRA durante a Presidência de Jango. Ivonilo não foi desligado, mas sim
rebaixado de general de brigada para o posto de coronel (sem prejuízo
do soldo).
Para piorar, Ivonilo foi mandado fazer
parte da Comissão Militar Brasil-Estado Unidos onde "criou caso" com os
gringos, brigando apenas para cumprir com as funções que lhe competiam.
Seus superiores mandaram-no ficar quieto... Então, quando ele foi para a
reserva e chegou à PCDL queria descontar toda aquela quietude
compulsória na modernização técnica do serviço de demarcação de
fronteiras. Fez muitas coisas interessantes (inclusive a "operação
dentadura da tia", que consistia em desembaraçar a repartição de todo
material inservível livrando-a de imitar uma suposta tia que coleciona
dentaduras velhas). Teve diversas batalhas perdidas, como ver funcionar
no Pará um curso superior de cartografia; pretendeu organizar convênio
federal de uso compartilhado de equipamentos... Ivonilo não era ingênuo
para não saber da existência de cartéis, mas ele levantava bandeiras
impossíveis para mostrar, exatamente, onde está o impedimento. Ele só
parou de criar casos quando Collor de Mello sucateou o serviço público e
deixou a PCDL a pão e água.
O Coronel Ivonilo morreu "sem atravancar
o trânsito" nem suspender o expediente, num fim de semana, no Hospital
Geral do Exército em Belém, onde se internou de urgência e faleceu sem
aviso prévio. Deixou como última vontade o desejo de ser enterrado junto
a um marco da Fronteira Norte. Como de fato está. É dele a frase
"demarcar para aproximar".
O "Astrônomo" Dilermando era capaz de
falar por horas e horas de todos lugares e campanhas demarcatórias das
quais participou, era ele um especialista. Mas, seus antecessores e
superiores pareciam ter dificuldade em aceitar aquele "prático" entre
laureada figuras. O que uns e outros não sonhavam àquela altura é que o
caboco gozava de má fama, naquele tempo de trevas, de ser "simpatizante"
do comunismo. No entanto, o acaso havia colocado o caboco frente à
frente com o Govenador Jarbas Passarinho no extremo município de Faro
onde no cargo de secretário municipal coube-me saudar o ilustre chefe do
governo militar no estado. Passarinho lançou o coronel Alacid Nunes na
eleição de 1965 ao cargo de governador e a oposição saiu com o General
Alexandre Zacarias de Assumpção... O prefeito da distante Faro
recentemente egresso do partido derrubado pelos militares mandou retirar
da galeria de ex-governadores que existia no salão da prefeitura o
retrato do General Assumpção. Eu pedi para por o retrato do homem no
mesmo lugar, dizendo que o discurso que eu preparava na cabeça
contemplava uma provocação ao Governador, "olha lá", disse-me o Waldimir
da Costa Rossy...
O fato que é que a astúcia do caboco
marajoara, de longe elogiada por ninguém menos que Alfred Wallace, o
interlocutor de Darwin na elaboração da teoria da evolução das espécies;
funcionou. Comecei por dizer tão raro um governante daquele porte
chegar aos confins do Nhamundá, na divisa com o estado Amazonas; que
seria imperdoável perder ocasião para falar das angústias e esperanças
do município e não ficar repetindo a louvação de costume. Enfatizei
detalhamente a galeria de governadores, dentre os quais o filho da terra
dr. Dionísio Ausier Bentes e o candidato rival, ex-governador Zacarias
de Assunpção.
Encerrei a peroração com a sugestão ao
governador para criar grupo de trabalho de estudo para desenvolvimento
daquela região extrema do Baixo Amazonas fazendo fronteira com a, até
então, Guiana Inglesa. O governador aparentemente surpreso, retrucou
dizendo ser "profundamente honesto" citar o nome de seu adversário
chamando atenção ao retrato naquela galeria. Bingo!... O prefeito sorriu
aliviado. Dono de memória prodigiosa, Passarinho me reconheceria
diversas vezes depois dizendo "o homem do discurso". Passada a cerimônia
na prefeitura apresentei ao governador Passarinho o senhor Marturana,
descendente de italianos e dono de uma propriedade no Igarapé dos
Currais chamada "Nova Palestina".
Eu era fã da reforma agrária - o que me
valeu, em Ponta de Pedras, ser tachado de comunista numa campanha para a
prefeitura com Wolfango Fontes da Silva, onde meu nome figurava como
candidato a vice - e do cooperativismo. Marturano sonhava com uma
cooperativa rural em Faro... Da conversa acabou saindo oferta de bolsa
de estudo em cooperativismo em Miami tão logo o prefeito pudesse liberar
o secretário para o estado. O dito ficou por não dito, devido a
diversas circunstâncias inclusive a displicência própria do caboco e ao
fato do Coronel Passarinho ter saído com urgência do governo do Pará
para assumir o Ministério do Trabalho, enquanto eu voltava a Ponta de
Pedras para ser secretário do prefeito Antonico Malato (Antônio Ribeiro
Malato), uma experiência inesquecível. Compadre de meu pai, Antonico foi
lançado como candidato a prefeito pelo velho PSD que governava o
município "há séculos". Fiz minha estreia política contra esta
candidatura.
Eleita a oposição em Ponta de Pedras
(1961) liderada por Romeu Santos, depois de décadas, com Nhorito
(Francisco Tavares Noronha) pelo PTB, este quis nomear-me secretário
municipal. Mas importantes figuras do partido vencedor opuseram-se à
nomeação, supostamente o próprio deputado Romeu Santos e seu principal
aliado, na época, Roxinho (Albertino Ferreira Júnior). Eu estava com 24
anos de idade. Antonico veio falar comigo dizendo ele que nas próximas
eleições (1965) sairia novamente candidato e que caso eleito fosse
gostaria que eu trabalhasse com ele na prefeitura.
Na verdade, tal fora a paixão daquela minha juvenil campanha que perdi o emprego de repórter no Jornal do Dia e de repente estava, como diz o caboco, "matando cachorro a grito"... Assim,
por acaso, através do conterrâneo Antonio Ramos que era coletor
estadual de rendas, fui me entrevistar com o prefeito de Faro e acabei
por lá uma boa temporada. Antes de morar em Faro eu duvidava da lenda
das amazonas, depois de pouco tem eu não apenas tinha visitado o Lago
Espelho da Lua como tive certeza até hoje de que as tais amazonas moram
ainda em Faro...
Com uma breve interrupção quando do
racha político de Ponta de Pedras entre o prefeito Nhorito e o deputado
Romeu Santos ao lado do vice-Prefeito Alirio Carneiro Ramos, Nhorito
acabou por me nomear secretário conforme manifestou desde o começo de
seu mandato. Foi um tempo político tumultuado no município e o
governador Jarbas Passarinho decretou intervenção estadual. Retornei a
Faro até final de 1965 com o final do mandato de Wladimir Rossy para
iniciar a gestão de Antonico Malato, em Ponta de Pedras. Combinamos logo
de início que eu deveria permanecer cerca de dois anos, pois já estava
decidido ir tentar a sorte em Brasília. E assim foi, de 1966 a 1967 não
sem dificuldades conseguimos realizar uma reforma administrativa na
prefeitura. A cabo do tempo combinado Ponta de Pedras apresentou ao
governador Alacid Nunes o primeiro Plano Plurianual de investimentos
(1966-1969), para o mandato completo do prefeito. Houve orçamento
participativo na sede do Circulo Operário aberto a toda população,
aprovado por unanimidade numa situação sui generis na qual a
oposição tinha maioria absoluta da Câmara... E eu ainda arranjei tempo
para dar aulas de alfabetização de adultos seguindo método de Paulo
Freire.
Só que eu não contava com a estafa que
vinha a cavalo. Despedi-me de Antonico dizendo-lhe que ia me preparar
para mudança a Brasília, entretanto pensava ir discretamente ao Araguaia
me engajar na educação de base dos camponeses. Não deu. No dia que
completei 30 anos de idade chorei toda impotência do mundo, estava
esgotado e em pânico; queria ir à luta mas eu estava precisando de
socorro. Descrente de tudo, me diziam para ir ao terreiro de umbanda. Em
1968 foi pior e 1969 não existiu para mim, com mais de 1,70 metro de
altura cheguei a pesar menos de 50 kg. Meu tio dr. Ritacinio Pereira
veio do Rio a Belém e passou um dia inteiro conversando comigo, aquilo
foi um tremendo apoio para eu me reerguer e lutar.
Depois da virada de minha vida em
Brasília aonde minha irmã Socorro me arrastou com ralhos de mãe, entre
1970 e 1974, estava na PCDL e fiz com apoio de Ivonilo a melhor coisa
que podia que foi participar de cinco meses de campanha, em 1977, na
fronteira com a Venezuela. Inesquecível. O muito que meus amigos índios
me ensinaram para sempre. Voltei cheio de vida e confiança. Em 1979 fui a
Caracas como membro brasileiro da conferência mista
brasileiro-venezuelana demarcadora de limites.
Na escala no Rio de Janeiro a Caracas
falei por telefone com Dalcídio pela última vez, derrotado pelo mal de
Parkinson se calaria para sempre aquela voz e aquela escrita em favor da
Criaturada grande... Numa vinda a serviço em Belém, em 1980,
o Secretário Palm convidou-me a voltar a Brasília a fim de cuidar
da secretaria administrativa da Divisão de Fronteiras (DF). A DF era
famosa dentre outras coisas por algum dia no passado ter sido
dirigida pelo embaixador João Guimarães Rosa, quando o Itamaraty
ainda estava no Rio de Janeiro.
O Coronel Ivonilo, chefe da PCDL,
liberou meu “passe”, ano de 1980, e aproveitei o fim de semana
para mostrar a pacata cidade de Ponta de Pedras terra natal de
Dalcídio Jurandir ao Secretário Palm, hoje Ministro e Cônsul-Geral
em Roma. Pra quem não sabe, Dalcídio Jurandir no Marajó e
Guiamarães Rosa nos sertões de Minas Gerais são dois romancistas
brasileiros que tem, segundo pesquisadores, bastante coisas em comum.
Sobre Euclides da Cunha, direi agora que, depois de Dalcídio no
romance “Marajó”, foi ele com “Os Sertões”
quem me mostrou o Brasil profundo, no caso o Nordeste durante a
Guerra de Canudos. Dalcídio e Euclides ademais me mostraram o homem
amazônico à margem da História... Acha que o caboco que vos fala
não tem por que se entusiasmar com a perspectiva da solenidade na
sede das demarcações de limite da Fronteira Norte?
Um
leitor de Guimarães Rosa nos confins de Macunaíma
Por acaso eu estou entre a brava gente demarcadora da
Fronteira Norte: não por merecendência, é claro; mas por bondade
da sorte. O maior demarcador marajoara da Fronteira Norte é filho de
Soure, chama-se Dilermando de Moraes Mendes, e deu os primeiros
passos pelas margens do rio Paracauari ou Igarapé Grande, como ele
nos ensinou. Condecorado pelos governos do Brasil e da Venezuela
ainda durante o serviço ativo, o veterano demarcador agora
aposentado é merecedor da medalha Euclides da Cunha. Já o caboco
que vos fala deu os primeiros passos no bairrozinho da vila de
Itaguari (Ponta de Pedras) chamado o Fim do Mundo, às ilhargas do
Curro Municipal, na beira do Marajo-Açu.
Por que Euclides da Cunha é importante para a
demarcação de limites da Fronteira Norte? A assinatura do Tratado
de Petrópolis entre o Brasil e a Bolívia, em 1903, possibilitou a
anexação do Acre Meridional ao Brasil, uma faixa de terra de 191
mil quilômetros quadrados. O Tratado de Limites entre o Brasil e o
Peru (1909) regularizou e anexou outros 152 mil quilômetros
quadrados. Relatórios escritos por Euclides da Cunha foram
fundamentais para que os dois países fechassem o acordo.
Em
1905, três anos após publicar Os Sertões, Euclides da Cunha
foi ao Acre para desvendar para o Brasil a realidade amazônica, da
mesma maneira como havia feito com Canudos, no sertão da Bahia.
Partiu do Rio de Janeiro como chefe da delegação brasileira na
Comissão Mista Brasileira-Peruana de Reconhecimento dos Rios Juruá
e Purus. Esta comissão de inspeção de fronteira tinha como
objetivo estudar “in loco” o conflito deflagrado na fronteira
entre os dois países pela disputa de seringais nativos que possuíam
relevante valor econômico. Anotações e relatórios elaborados a
partir desta viagem de estudo serviram de base para o tratado de limites entre
o Brasil e o Peru. Euclides da Cunha escreveu relatos, e cartas a
amigos publicados em artigos no jornal O Estado de S.
Paulo. Esta e outras comissões tiveram caráter específico.
Somente em 1928 foi organizada a primeira comissão demarcadora de limites em caráter permanente.
A PCDL é uma escola de
brasilidade na Amazônia. Infelizmente, poucos brasileiros a
conhecem. Aos 80 anos de idade da Primeira Comissão Demarcadora, o
Itamaraty vem de promover ampla divulgação deste importante serviço
auxiliar da diplomacia brasileira. Notável pela solução pacífica de
conflitos e pela extensão territorial de nossas fronteiras com todos
países da América do Sul, exceto Chile e Equador. A PCDL é responsável
pela linha de limites com o Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e
Guiana francesa. A SCDL, com sede na cidade do Rio de Janeiro, por sua
vez fica responsável pelos limites com o Uruguai, Argentina, Paraguai e
Bolívia. O Brasil possui 23.102 km de fronteiras, sendo 15.735 km
terrestres e 7.367 km marítimos.
sede da PCDL/MRE em Belém-PA
CABOCO NA CASA DO BARÃO (2)

Praça Independência, cidade de Montevidéu - República Oriental do Uruguai
TRAVESSIA
Um
belo dia no ano de 1982 lá estava o caboquinho do Fim do Mundo, da vila
Itaguari (Ponta de Pedras), ilha do Marajó, a desembarcar no aeroporto
internacional de Montevidéu (Uruguai). Por subjetivas contas, a viagem
ao Uruguai ligou para mim a foz do Amazonas à foz do Rio da Prata
deixando atrás séculos de história daquelas famílias imigrantes da
antiga Ibéria, que José Saramago conta em "A Jangada de Pedra".
Claro
que o acontecimento, involuntário, não tem importância para ninguém
mais além deste curioso viajante do mundo que gosta de atravessar a
fronteira da literatura e da história misturando assuntos futuros e
pretéritos a fim de vencer a solidão de sua ilha de esquecimento e
chuva, na imaginária Vilarana, que ele mesmo inventou sob tímida
impressão de "Santa Maria", da ficção peregrina do exilado uruguaio Juan Carlos Onetti.
Vivíamos
então os últimos dias da Ditadura com o terror da Operação Condor a
rondar os caminhos de terra, mar e ar e eu já queria comprar "Memória do Fogo"
de Eduardo Galeano enquanto marchas e panelaços precorriam "calles" e
"ramblas". Gastei a sola dos sapatos andando de livraria em livraria
que, em Montevidéu, não são poucas. No fim da tarde um livreiro franco
me desenganou da procura dizendo ele, mais ou menos, assim: "Galeano no se vende aquí, por problemas políticos"... Em compensação, mandou-me esperar um poquito e desceu ao porão donde voltou trazendo um usado livro de contos do autor com título de "Vagamundo", o qual deu-me como regalo. Muchas gracias...
Mais
que a Onetti, de quem de fato não li além de uma resenha crítica; o
caboco escrevinhador da "vila que nem vila era" andou mais perto de
arremedar o engenhoso "prologomeno" ou heresia judaizante do "payaçu"
dos índios, Padre Antônio Vieira. Euzinho, por presepada pura e heresia
amerindizante, a fim de chatear a paciência de eruditos acadêmicos ("de las epidemias de horribles blasfemias de las Academias,¡líbranos, señor!",
Rúben Dario) e o imperador da língua portuguesa a fim de burlar a
terrível censura do Santo Ofício com aquela imaginosa e inacabada obra
chamada "História do Futuro" por capa da verdadeira e infinita
obra - prenhe de realismo-mágico -, onde a utopia ecumênica fez morada e
entronizou o Menino Jesus no quinto império do mundo.
Parece
brincadeira do maravilhoso acaso, mas minha tia Lodica havia um sítio
denominado Menino Deus no Igarapé Paricatuba, lugar da fictícia fazenda
Marinatambalo e ponto de partida do romance "Marajó", de tio Dalcídio com a odisseia da sua Criaturada grande... Foi, exatamente, esta obra "Marajó"
que minha avó e mestra na história oral da família marajoara, Sophia,
deu-me a ler pela primeira vez: com a leitura de iniciante caíram-me as
escamas dos olhos e vi pela primeira vez a dita criaturada dentre a qual
me acho até hoje.
Segui o curso eventual ribeirinho por "Os Sertões"
de Euclides da Cunha... Neste caminho pelas beiras da história, por
acaso, fui procurar Galeano ao longo da avenida 18 de Julio, em
Montevidéu. Por acaso, encontrei encontrei o gauchismo transfronteiriço
eivado de galeguismo arcaico de "Tacuruses", de Serafim Garcia, publicado no Uruguai um ano antes de meu nascimento.
Para
o menino que sonhava saber quem inventou o mundo, aqueles quarenta e
cinco dias na antiga província Cisplatina foram um descobrimento
estupendo numa viagem que está longe de terminar. Da qual o respeitável
público hoje é informado depois de 31 anos. Prova de que Gabriel Garcia
Marques teve razão quando disse ele que, em tempos modernos, o corpo vai
de avião a jato mas a alma, coitadinha, vem de caravela... Neste caso,
igarité.

igarités, antigas canoas à vela, que faziam transporte de carga e passageiros entre a ilha do Marajó e a cidade de Belém do Pará.
NA BEIRA DO PRATA EM VISITA À ALMA IBERIANA
Foram
curtos quarenta e cinco dias de estágio do caboco amazônida ao cargo de
Oficial de Chancelaria na Embaixada do Brasil no país platino. Porém se
o caboco aqui presente tivesse um fiapo do talento de um Joice, por
exemplo, ou a perícia da arte de Dalcídio, que escreveu "Primeira Manhã"
em um único dia; a estada de Montevidéu daria panos pra mangas de um
razoável romance. Lá aprendi de um velho lobo do mar por que razão
Pinzón batizou o Amazonas, que não existia ainda em 1500; com o risonho
nome de "río de Santa María de la Mar Dulce"...
Santa Maria do Mar Doce. Dizendo-me ele, a bordo de uma animada churrascada em
casa de amigos, que para os marinheiros de língua castelhana o
Mar é mulher. Faz sentido... A água é um elemento feminino por excelência e os povos
ribeirinhos sabem disto mais que ninguém.
A
primeira viagem de travessia na minha vida fiz dentro da barriga de
minha
mãe. Que nem o profeta Jonas dentro da baleia bíblica. Por acaso, meus
antepassados índios do Amazonas (segundo Stradelli) acreditavam que os
seres humanos vieram ao mundo no bucho de uma cobra-canoa. Naquele
tempo, o transporte entre a ilha do Marajó e a
cidade de Belém era feito, exclusivamente, em canoas à vela, as famosas
igarités. Sou o primeira filho de um casal marajoara. Ele filho de índia
catecúmena da aldeia de Mangabeira (Ponta de Pedras) casada com um
caboco descendente de portugueses e ela filha de imigrantes da Galiza,
de Soutomaior, em Pontevedra; chegados no Pará após a guerra-civil na
Amazônia, dita a Cabanagem (1835-1840); para repovoar a
dita ilha da boca do Amazonas com outros galegos da diáspora
galaico-portuguesa. Certa vez, perguntaram-se se tenho parentesco com o
doutor Dráuzio Varella. Quem sabe? O que sei é que o nome de minha
bisavó asturiana era Micaela Varela e meu avô Francisco (aliás
Celestino) Pérez Varela nasceu na Galiza. O duplo "l" que carrego ficou
por recordação do cartório Figueiredo, em Belém do Pará.
Nasci,
no dia 30 de outubro de 1937, na maternidade da Santa Casa do Pará como
muitos de meus co-ilhanos, cujas mães tiveram complicação na hora do
parto e na hora H correram depressa a pedir socorro à Santa Casa. Na
verdade, no caso de minha mãe houve prevenção, pois minha avó morreu no
parto de meu pai. Com tempo e boa maré a bordo de igarité eis como
começou esta estúrdia história do caboco, seu criado...
Por
acaso, a descoberta do Uruguai foi para mim como o encontro da Galiza
avoenga no ultramar. Um mundo de comparações e descobrimentos desta
outra América que se oculta pelas ilhargas da História. Não teria lá
chegado naquele dia sem ajuda do acaso e o concurso de amigos.
Primeiramente, o então Secretário Palm que levou-me de Belém de volta a
Brasília e insistiu comigo para, pela terceira vez, tentar o concurso
para categoria de Of. Chan. Foi crucial a boa compreensão do
colega Roberto Revoredo Varela, que não é meu parente mas um bom amigo.
Foi ele que, no último minuto, fez minha inscrição ao concurso. E, mais
ainda devo agradecer sempre à Secretária Edileuza que, ao ver minha
desistência à prova de datilografia, correu dizendo que fizesse a prova
de toda maneira.
Não
ficam só por aí meus agradecimentos pela imprevista viagem ao Uruguai
em 1982. A casa do Barão nunca foi um mar de rosas... Entretanto, com a
Ditadura a arraia miúda andava na linha e com o coração na mão,
sobretudo se o servidor fosse "quarto secretário". Ou seja, o tal de Of. Chan.
intermediário entre Funcionário (diplomata) e Servidor
(administrativos). Uma estória itamaratyana contava que o ex-Presidente
Jânio Quadros num mau encontro com diplomata no exterior teria
determinado a criação desta categoria, originalmente privativa de
pessoal de nível superior. Com a renúncia do ex-presidente entraram os
oficiais de chancelaria a perder prestígio e numa reforma administrativa
foram rebaixados ao nível médio. Foi assim que os Oficiais de
Administração já de nível foram rotulados como Agentes Administrativos e
os Oficiais de Chancelaria praticamente equiparados aos primeiros.
Meu
colega Bernardo (nome fictício) era negro, nordestino e estudioso de
cultura árabe. Colecionava rosário de preconceitos sofridos dentro e
fora da Casa... Quando ele veio a saber que o haviam mandado ao Uruguai
desconfiou estar sendo vítima de mais um constrangimento num posto
predominante branco. Veio procurar-me para saber aonde eu estava indo,
disse-lhe que iria para a Guiana (ex-inglesa). Então me perguntou se eu
trocaria de posto com ele. Disse-lhe que não faria nenhuma objeção caso
ele fosse tratar do assunto com a famosa DP. Mais uma vez o Secretário
Palm entrou em ação e foi assim que o Of. Chan. negro foi a Georgetown e o caboco a Montevideu.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
CABOCO NA CASA DO BARÃO (3)

jamaxi indígena adaptado pelas populações cabocas no trabalho agroextrativista e utilizado pelos 'suraras' nas demarcações de fronteira na Amazônia.
HONRA AOS 'SURARAS' DA FRONTEIRA NORTE
O caboco não hesita em dizer que se não
existissem "suraras" a demarcação de limites internacionais na Amazônia -
sabe-se lá com com que consequências! - teria que esperar por muito
mais tempo pela ocupação dos confins. Garimpeiros, seringueiros,
madereiros e todos mais aventureiros, dos quais a ocupação do Acre em
conflito armado com o vizinho Peru é exemplo, como também outros
conflitos de fronteira entre países amazônicos; teriam chegado antes às
raias delimitadas em tratados desde recuadas eras entre as metrópoles
coloniais. Fato histórico que dá bem uma ideia do que foi o trabalho
imprescindível de índios da faixa de fronteiras e mateiros cabocos, aqui chamados vulgarmente de "suraras", acostumados aos duros trabalhos de demarcação.
Surara, na língua-geral
amazônica, significa o índio militarizado ou mameluco a serviço de
grandes expedições exploratórias ou demarcatórias da Amazônia, desde a
tentativa do Tratado de Madri de 1750. Até inícios da década de 80, no
século passado, a figura do trabalhador de campanha (surara) era
indispensável ao serviço demarcatório. Sem esta base humana, com jamaxi à
costa, a grande obra diplomática do Barão restaria desfalcada de sua
maior façanha: alicerce da integração da América do Sul. Acredito que,
em tempos idos, escrever sobre estas coisas poderia até dar motivo a
severas reprimendas.
Todavia, depois que o maior país
amazônico do mundo elegeu um trabalhador de modesta origem nordestina
para Presidente da República, não se poderia deixar o fato sem registro
nas comemorações dos 80 anos da PCDL: gigantesco papel dos suraras
na demarcação da Fronteira Norte. Graças a este trabalho humilde, porém
fundamental; puderam finalmente topógrafos chegar justo ao ponto
geográfico onde plantar o marco de limites. Depois disto os cartógrafos
atestaram de maneira certa as respectivas coordenadas georeferenciadas.
Portanto, se trata de localizar, in situ, o território nacional de maneira plena. Cada confinante certo do que é seu dá crédito ao dito que a PCDL realça: demarcar e aproximar a Amazônia.
Só depois de concluído o complexo
processo desta obra coletiva, os demarcadores de ofício puderam
efetivamente assinar os termos finais da demarcação. Ou seja, afiançar a
obra geopolítica dos estadistas e diplomatas desde Alexandre de Gusmão
até a UNASUL, antecedida recentemente pelo TCA e OTCA aproximando e
integrando a comunidade dos países amazônicos (exceto a região francesa
da Guiana, que tem papel exclusivo de observador na OTCA).
Por acaso, em 1977, um ano antes da
assinatura do Tratado de Cooperação Amazônia; tive eu oportunidade de
participar da campanha de "adensamento" (implantação de marcos
intermediários entre pontos fundamentais da demarcação efetiva,
terminada oficialmente em 1964) na linha de limites entre nosso país e a
Venezuela. Fiquei no acampamento-base em Uaiacás, à margem direita do
rio Uraricoera, um dos formadores do Rio Branco. O estimado leitor vá
juntando os pontos... Servidor da Casa de Rio Branco testemunha
demarcação do divisor de águas Amazonas-Orenoco, na beira do Rio
Branco... E lembre-se da construção do território e da nacionalidade com
os títulos nobiliárquicos extraídos da topografia pátria. Ou deveria
ser mátria? Já que, no caso, o "reino das Amazonas" se converteu em
Amazônia... Talvez, melhor seria dizer a fátria brasileira. Onde todas
regiões fossem consideradas irmãs.
REMANDO VAI-SE LONGE
Dissemos, na segunda postagem desta
série, como foi que o caboco estava destinado a ir a Georgetown (Guiana)
e, por acaso, chegou a Montevideu (Uruguai). O maravilhoso acaso é na
realidade o autor da História... O leitor fica confuso nas idas e voltas
da maré destas nossas letras estúrdias. Masporém não há remédio. O
comum dos mortais se espanta, por exemplo, do caboco estar contando um
caso sobre a Casa da Beira, na terrinha natal de Ponta de Pedras; e de
repente emendar conversa com uma lembrança lá longe, nas Antilhas...
Freud explica? Claro, Freud explica que o pensamento funciona por
associação de ideias.
Na verdade, os fatos narrados ou
comentados numa história qualquer são eventos no tempo. E o tempo voa...
O contador conta o conto como lhe parece, não como na realidade o caso
foi. Por isto, a poesia faz parte do modo particular como cada qual vê a
realidade e a imagina ao mesmo tempo. Dificilmente dois relatos são
coincidentes, cem por cento, com os fatos. O que não quer dizer que um
ou outro, ou até mesmo ambos, sejam falsos, noves fora na mentira
deliberada.
Longo parágrafo pra dizer como foi que o
acaso levou o Chanceler Saraiva Guerreiro, àquela manhã em 1982 na
embaixada brasileira em Montevidéu, e a entrar na tesouraria dando de
cara com o caboco a preparar documentação contábil daquele posto
diplomático.
Volta... Dá replay. Aquele
inesperado encontro em Montevidéu houve antecedente no Tratado de
Cooperação Amazônica (Brasília, 03/07/1978). Que o caboco tem a ver com o
TCA? Nada. Todavia, se não existisse o tratado entre os 8 países
amazônicos (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e
Venezuela), o dito cujo não teria ofertado um lindo remo ornamental de
sua particular estima ao Chanceler durante visita deste à PCDL, por
ocasião de reunião em Belém sobre o tratado, acabado de assinar em
Brasília e celebrado em reunião ministerial em Manaus.
Disse o caboco, mais ou menos, ao
Ministro de Estado que a história da Amazônia fora feita a remo... O
veterano diplomata concordou completamente e agradeceu pela inusitada
lembrança na coincidência do TCA. Manda a verdade que se diga que o
caboco, por temperamento, não é chegado a adular o poder. Em compensação
ele é fiel às suas amizades. O venerável mestre e amigo Ivonilo (chefe
da PCDL) havia visto aquele remo, magnífica obra de arte do artesão
Ernani, de Manacapuru (Amazonas), e que me fora presenteada pelo
fraterno amigo Mario Rocha, em Manaus. Ivonilo aconselhou-me, então, a
assinalar a passagem do Ministro de Estado das Relações Exteriores na
PCDL com aquele remo... Confesso que tive grande relutância em me
desfazer do presente do Mário, mas acabei concordando com a ideia por
amor a causa.
Que causa então? A causa nativa amazônica. E haveria algo mais representativo que um remo para lembrar o trabalho dos suraras
da PCDL? Ou seja, a potencial integração dos países amazônicos desde as
lindes da floresta... Indubitavelmente, a história da Amazônia profunda
foi iniciada em tempos pré-coloniais pelos próprios povos amazônicos em
esticadas viagens a cabo de remo.
Sem esquecer o Porantim sagrado, dos Tupinambá; remo armorial que acompanha a saga mítica da Yby Marãey
(terra sem mal) na conquista do "rio das Amazonas". Claro, não seria
numa simples troca de gentilezas na recepção da PCDL ao Ministro de
Estado que se iria dissertar sobre o tema. Tampouco, quando o magnífico
acaso fez o Chanceler aproveitar um tempinho de folga na conferência da
ALADI para visitar a Embaixada, onde ele fora embaixador há tanto tempo e
não deixava de passar por lá e cumprimentar seus antigos auxiliares do
corpo administrativo. Entre estes, Luci (de nome próprio Lucrécia, que
ela detestava). Luci, um amor de pessoa, minha chefinha adorável durante
o estágio.
A melhor parte das viagens é o regresso.
Lá vai meu pensamento bater no Rio de Janeiro ... século XVI!...
Qualquer um fica confuso numa hora destas, sobretudo se se trata de um
caboco metido a querer saber quem inventou o mundo. A frase não é minha,
mas do romancista francês Jean-Christophe Rufin em "Rouge Brésil",
quando ele faz um personagem recusar a chance de colonizar o Brasil ao
ser informado de que não voltaria nunca mais a velha França. Pois, assim
como a melhor parte das viagens é o regresso; podemos dizer também que a
melhor parte do regresso é prosseguir a viagem, com mais vagar, pelo
rio das recordações. Na distância e com tempo, aquele pequeno detalhe
ocorrido no tumulto do momento; passa a constituir mais importância. O
remo em apreço, por exemplo, é um rico de detalhe onde se esconde o
símbolo de algo maior.

remo decorativo com pintura indígena: símbolo da história social da Fronteira Norte


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