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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ILHAS, RIOS, IGARAPÉS E RAMAIS DE ABAETÉ/ABAETETUBA/PA 3

A SAGA DE EVANDRO CHAGAS EM ABAETÉ
A AVENTURA DE EVANDRO CHAGAS NO PARÁ E ESPECIALMENTE, ABAETÉ:
RIO PIRATUBA

Nestes tempos em que a chamada doença de calazar/Leishmaniose Visceral se faz presente no município de Abaetetuba, contaminando cães, gatos e até pessoas, lembramos o grande médico sanitarista e cientista, pesquisador e descobridor desse mal em Abaeté, Dr. Evandro Chagas. Para fazer seus estudos em Abaeté ele realmente viveu uma incrível aventura nos lugares por onde desenvolveu suas pesquisas sobre a leishmaniose e outras doenças.
Em Abaetetuba/Pa a Leishmaniose Visceral ainda se faz presente pelas localidades ribeirinhas e comunidades das estradas, apesar desta cidade ter sido escolhida pelo grande médico sanitarista Evandro Chagas, para desenvolver suas pesquisas sobre essa doença.
EVANDRO CHAGAS:

Evandro Serafim Lobo Chagas, n. em 10/8/1905 e f. prematuramente em 8/11/1940. Era médico sanitarista e cientista, filho primogênito do grande Dr. Carlos Chagas, também médico sanitarista e cientista com Inês Lobo.

Em 1926 Evandro Chagas diplomou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e fez residência médica no Hospital São Francisco de Assis e no Hospital Oswaldo Cruz. Cursou paralelamente à faculdade o Curso de Especialização em Microbiologia, no Instituto Osvaldo Cruz.

Em 1930 assumiu a Docência de Clínica de Doenças Tropicais e Infecciosas, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, cuja cadeira era de seu pai, Carlos Chagas. Para preenchimento dessa vaga, defendeu como tese, a forma cardíaca da tripanossomíase americana, justamente um dos objetos de suas pesquisas no Pará.

Foi um dos pioneiros no uso da eletrocardiografia, que trouxe contribuições significativas para a doença de Chagas.

Realizou estudos sobre a febre amarela, malária, ancilostomose e, principalmente, leishmaniose, que foi o principal foco de suas pesquisas no Pará, descobrindo os primeiros casos humanos dessa doença, realizando muitas investigações clínicas e epidemiológicas em diversos estados do Brasil e também na Argentina.

Em 1931 ocupou o cargo da Seção de Patologia Humana do Instituto Osvaldo Cruz e, em 1935, representou a instituição na IX Reunião da Sociedade Argentina de Patologia Regional do Norte, realizada na cidade de Mendonza, em homenagem à memória de Carlos Chagas, recém falecido.
Ao retornar da Argentina, organizou o Serviço de Estudos das Grandes Endemias, para coordenar um plano de investigação médico-sanitário em diversos estados brasileiros onde promove importantes pesquisas, especialmente sobre a malária, a leishmaniose e a doença de Chagas.

Também criou em 1936 o Instituto de Patologia Experimental do Norte, instalado em Belém/Pa, funcionando como filial do Instituto Oswaldo Cruz e que, mais tarde, levaria o seu nome, Instituto Evandro Chagas.

Faleceu vítima de acidente aéreo, em 8/11/1840, aos 35 anos, fato que gerou uma consternação geral em todo o Brasil e especialmente no Pará.

O Instituto Evandro Chagas é uma instituição científica sediada em Belém/Pa e com laboratório em Ananindeua/Pa. Foi fundada em 1936, no governo de Gama Malcher, tendo como 1º diretor científico o próprio Evandro Chagas, filho mais velho de Carlos Chagas, quando foi inaugurado como Instituto de Patologia Experimental do Norte/IPEN.

Hoje o antigo IPEN é o Instituto Evandro Chagas, importante centro de pesquisas de microorganismos e patologia da Amazônia, respeitado e reconhecido internacionalmente, inclusive como referência mundial em Ciências Biológicas, Meio Ambiente e Medicina Tropical, áreas em que atua com grau de excelência. Tudo isso tendo iniciado graças ao arrojo e coragem do grande Evandro Chagas.

Uma pequena travessa em Abaetetuba/Pa, presta uma singela homenagem a esse denodado, impetuoso e grande pesquisador, a Travessa Evandro Chagas, onde, dizem, ainda existe a casinha onde Evandro Chagas parava quando estava em Abaeté/Pa.

AS PESQUISAS DO DR. EVANDRO CHAGAS E EQUIPE NA LOCALIDADE PIRATUBA/ABAETÉ/PA

A Leishmaniose Visceral foi assinalada no estado do Pará em 4 municípios: Marapanim, Soure, Abaeté e Moju.

Em Abaeté a doença foi encontrada por visceratomia e pesquisas clínicas. Evandro Chagas descreve essa doença como uma moléstia de incidência esporádica, atacando o homem em diferentes idades, com predominância em crianças abaixo de 10 anos e com as características de infecção silvestre. Tanto o encontro de casos humanos da doença como o de cães foram difíceis. Em exames clínicos detectaram-se 6 casos de humanos e 2 cães infectados em regiões silvestres.

Alguns casos:
Paulo P., 4 anos, sexo masculino, cor parda, paraense, nascido na Costa Maratauhyra/Abaeté/Pa, residia no local denominado Piratuba, a 18 km da cidade de Abaeté. No momento de ser observado tinha cerca de um ano da moléstia. Os primeiros sintomas, descritos pela mãe, foram o aumento do volume do ventre, febre irregular, emagrecimento progressivo, dores nos membros inferiores. Os sintomas se acentuaram e surgiram outros: hemorragia da mucosa nasal, bronquites freqüentes. No domicílio em que residia, quando adoeceu, ocorreu um caso de leishimaniose visceral, diagnosticada por visceratomia/nº local 386, óbito a 23/2/1935, em uma irmã do doente.

Na casa em que morava, ao ser examinado, foram encontradas morando as seguintes pessoas: pai, mãe, avó, dois irmãos e uma prima, nenhuma sem a doença. Três cães da família, examinados, também sem a presença das leishmânias/material obtido por autópsia dos animais. Foram capturados no domicílio e no galinheiro próximo à habitação numerosos exemplares de mosquitos flebótomus longipalpis/flebótomos e alguns exemplares do mosquito Rippelates SP.
São animais da região de Abaeté: pacas, cotias, tatus, ratos/soiás, mucuras/gambás, macacos pretinhos, tamanduás, morcegos e outros.

Evandro Chagas orientou a criação de um instituto, em 10/11/1936, voltado para as pesquisas patológicas, denominado Instituto de Patologia Experimental do Norte/IPEA, que, alguns anos depois, em 1940, se transformou no Instituto Evandro Chagas/IEC, localizado em Belém/Pa, na antiga Av. Tito franco, hoje, Av. Almirante Barroso, que veio estudar e pesquisar a doença Leishmaniose Visceral Americana. Evandro Chagas chegou ao Pará, chefiando a Comissão de Estudos de Leishimaniose Visceral Americana, e no mesmo ano se deslocou para a localidade Piratuba/Abaeté/Pa, fazendo pesquisas na área, ficando de 1936 a 1938.

A localidade Piratuba só tinha acesso através da água, em barcos pequenos e canoas. Depois, então, abriu-se um ramal de estrada, por onde se tinha acesso a essa localidade, distando 18km da cidade de Abaeté. O médico baiano Dr. Lindolpho Cavalcante de Abreu, também médico sanitarista, que trabalhava em Abaeté, muito apoiou Evandro Chagas em suas pesquisas.

Evandro Chagas achava tudo engraçado, por que era um sujeito muito corajoso. Dava o exemplo para tudo, era arrojado, audacioso. Não tinha medo de coisa nenhuma. Ia de bermudas, botas e chapéu colonial, máquina fotográfica, e o microscópio de campo, que ele usava a tiracolo.
Fazia exames de pacientes descobrindo várias doenças, como bouba/vários casos, úlceras fagedêmica tropical e outras.

A doença calazar acontecia nas cabeceiras do rio e ele e equipe foram até lá, no Piratuba, e lá encontraram os primeiros casos dessa doença, em pessoas vivas da região amazônica. Essas pessoas apresentavam o baço grande demais e nelas se fazia a punção do baço à procura dos vermes leishimânias. Evandro, com essa descoberta, considerou a viagem bem sucedida e fez das idas e vindas a esses locais, rotina de trabalho.

Depois, Evandro Chagas foi para o Rio de janeiro e sua equipe do Pará continuou fazendo o trabalho, todos os meses, durante dois anos. Metade do mês eram trabalhos de campos, nesses locais de ocorrência de calazar.

Evandro Chagas vinha várias vezes do Rio, durante o ano, para visitar a região e discutir como equipar, orientar e avaliar os trabalhos.
AS AVENTURAS DO DR. EVANDRO CHAGAS E EQUIPE:

As Viagens ao interior se faziam nos precários aviões do Correio Aéreo Nacional, que eram aviões da 1ª Guerra Mundial, biplanos, com asas de lona, monomotores e lotação para um passageiro e o piloto. Várias viagens eram necessárias para levar a equipe. Havia uma área capinada para o pouso dos aviões. Quando todos chegavam, a viagem era feita por terra, por picadas abertas na mata. Eram 18 km de caminhada.

A moradia era em palhoça, em quarto cedido por um morador do local. A dormida era em redes armadas em duas barracas e duas tendas de lona. Um pedaço da lona cobria o laboratório e outro o refeitório. Todo o trabalho de pesquisa foi feito nesse laboratório de lona, como também os exames de laboratório, as autópsias. Na outra barraca eram feitas as refeições.

Os banhos eram de igarapé e não havia sanitários e a floresta era a privada. A floresta também fornecia a alimentação: pacas, cotias, tatus e outros . Os rios forneciam os peixes e mariscos. Os nativos caçavam e pescavam e Evandro Chagas comprava esses bichos. Antes eram examinados e os os contaminados eram guardados e os sadios eram usados como alimentos.
O único meio de transporte era via fluvial, em canoas à remo.

A reação dos nativos do lugar foi difícil, mas Evandro Chagas era persistente, lembrando os falecidos com a doença e com isso conseguia convencê-los a fazer os exames. Os exames eram feitos sem camas e as pessoas deitavam no chão ou em pé. Descobriram, também, cães positivos e não sabíam que cães pudessem ser vetores da doença calazar. Foram feitos exames em outros animais silvestres.

Prof. Ademir Rocha – Abaetetuba/Pa, em 09/12/2009.

2 comentários:

  1. Olá Professor, sou aluno do programa de mestrado do PPGHCS da COC/Fiocruz e o meu trabalho refere-se à contribuição de Evandro Chagas para os estudos da leishmaniose visceral americana. Gostaria de saber se para a confecção deste texto, utilizaste apenas os relatórios publicados ou se utilizou de alguma fonte não publicada e qual seria sua localização. Esta contribuição seria de grande valia para o meu trabalho. Desde já o parabenizo pela sua iniciativa e agradeço pela atenção.

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  2. Caro Frederico Gualandi, obrigado pela visita ao nosso Blog. Para fazer o texto entrevistei algumas pessoas antigas do município e visitei as postagens do Instituto Evandro Chagas em Belém e os nomes Evandro e seu pai Carlos Chagas pelo Google. Abraços do Ademir Rocha, de Abaetetuba/Pa.

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