Mapa de visitantes

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

RELIGIÃO, IGREJAS E VULTOS DE ABAETÉ 3

OS FESTEJOS, A COROA E A IGREJA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO EM ABAETÉ

A festa do Divino Espírito Santo é uma antiga tradição praticada por leigos da Igreja Católica e sua história remonta aos tempos da Colonização Portuguesa, onde era muito forte na Ilhas dos Açores, uma das colônias de Portugal e que chegou ao Brasil através de açorianos que vieram para o Brasil. Também a festa do Espírito Santo possui a sua irmandade, onde o mordomo era a figura central na organização dos festejos ao Divino espírito Santo. O mordomo fazia a recolha dos fundos, coordenava a realização dos festejos e se constituía a autoridade suprema a que todos os irmãos deviam obediência.

A festa do Divino Espírito Santo se concentrava em alguns símbolos e rituais, onde a Coroa ocupava um lugar central nos festejos e cultos ao Divino. Era uma coroa imperial confeccionada em ouro ou prata, com 3 braços, encimado por um orbe, também em ouro ou prata, sobre o qual se assentava uma “pomba” de asas estiradas. A Coroa se assentava sobre uma bandeja com pés altos. Durante o ano inteiro a coroa circulava pelas casas dos “irmãos” e na casa, devia ocupar um lugar de honra e ali, todas as noites, os irmãos louvavam o Divino, perante a coroa. A Coroa do Divino também era transportada pelo “mordomo” durante os peditórios. A festa do Divino possuía uma simbologia e uma liturgia complexa que, em resumo, eram as seguintes: esperança, que simbolizava a fé no Divino e nos seus 7 dons (Sabedoria, Entendimento, Consciência, Fortaleza, Ciência, Piedade e temor); solidariedade e caridade; autonomia diante da igreja; a Coroa, o Ceptro, e o Orbe, que são símbolos materiais; a bandeira (confeccionada em vermelho damasco, com o desenho bordado de uma “pomba branca” no centro e a bandeira ficava ostentada numa haste em madeira de 2 metros, encimada por outra “pomba” em prata.

Mas, em Abaeté/Pa, a festa ao Divino Espírito Santo não obedecia ao rito tradicional de uma autêntica festa do Divino, como ainda é praticada em alguns lugares do Brasil. Em Abaeté a festa do Divino teve que se adequar ao modo tradicional dos festejos de santos locais, com as procissões, os fogos, as bandas musicais, os coretos, os leilões e outros motivos.
Mas permaneceram alguns dos motivos da antiga festa do Divino, como a existência da irmandade, do mordomo, da coroa, misturados aos motivos de uma festa religiosa tradicional de Abaeté.

O mais forte motivo da festa do Divino em Abaeté era a chamada “Coroa do Divino”. Não era uma coroa como a descrita com os detalhes acima, mas era uma peça que dava um brilho todo especial às festas do Divino, em Abaeté.

“A Festa do Divino Espírito Santo em Abaeté era realizada no período de 28 de maio a 30 de junho, no antigo “Arraial do Divino” Espírito Santo” ou Praça do Divino Espírito Santo (hoje Praça Francisco de Azevedo Monteiro), na Igreja Matriz do Divino. O arraial era limpo e com coretos e armações de arco, por debaixo do qual o povo passava para participar dos festejos”.

“O Padre Alcides Paranhos, que era vigário da Igreja de Vigia, veio a Abaeté dizendo-se enviado pelo Arcebispo D. Santino Coutinho/Santino Maria da Silva Coutinho (2º arcebispo da Arquidiocese de Belém/Pa, 1906 a 1923) , no ano de 1912, para uma visita pastoral. Esse padre se apossou da Coroa do Divino, que já se tornara um forte símbolo desses festejos, uma peça sacra, toda confeccionada em ouro puro, incrustada de algumas pedras preciosas, peça adquirida com muitos esforços pelos confrades da Festa do Divino, possuindo um alto valor material e espiritual e um grande valor cultural para Abaeté”.

Sem essa peça a festa do Divino perdeu muito de seu brilho. Até hoje não se sabe o destino da coroa, se está guardada na cidade de Vigia ou Belém do Pará. Esse fato desagradou a toda a comunidade católica de Abaeté.

Mas os confrades do Divino não desanimaram e partiram para a aquisição de outra “Coroa do Divino”, só que, agora, confeccionada em prata, devido aos altos custos de outra peça em ouro. Os confrades do Divino que mandaram confeccionar a nova peça em prata foram: Joaquim Loureiro da Silva, Arlindo Lobato, Frederico Lima, Raymundo Leite Lobato, José Fortunato (um judeu conhecido como José Abraão) e Conrado Ferreira Melo.

A nova peça foi usada nos festejos do Divino por algum tempo, antes da derrubada da igreja.

E a coroa em prata ficou em poder do Sr. Pedro Loureiro e, como este tinha receio de que os freis capuchinhos pudessem também levá-la consigo, à exemplo da coroa em ouro, entregou a peça em prata à guarda de uma comissão, composta dos cidadãos Prudente de Araujo, Idália de Araujo Villaça e Joana de Araujo Reis. Essa peça ia passando de família para família, mesmo que as festas do Divino não mais estivessem acontecendo como antes.

Dizem que essa peça sacra ainda existe e está guardada na casa de algum daqueles antigos confrades da festa do Divino.


SOBRE A IGREJA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO:

A Igreja do Divino Espírito Santo era um chalé, em madeira, adaptado para servir de igreja e ela possuía um alpendre que funcionava como uma espécie de barraca, onde aconteciam os eventos religiosos e não religiosos da paróquia. Era nesse alpendre que aconteciam os eventos para arrecadação de fundos para a construção da sonhada “Nova Igreja Matriz de Abaeté”. Ali eram realizados peças teatrais, eventos musicais, sorteios de rifas e outros eventos. Perto dessa igreja existia outra casa que servia de moradia para o pároco.

“A Igreja do Divino, como era chamada, era a única da Vila e depois, cidade de Abaeté, daí então a sua importância para os católicos abaeteenses, por que ali se realizavam todos os festejos dos santos venerados na cidade e se celebravam todas as festas religiosas da Igreja Católica. Pode-se dizer que a Igreja do Divino era o centro máximo da religiosidade oficial e popular da cidade. Tinha importância histórica para Abaeté”.

Nessa pequena igreja aconteceram muitas celebrações de casamentos, batizados, batismos e era o único local que existia em Abaeté para a realização das demais festas de santos, como S. Raimundo Nonato, Santa Terezinha, S. Benedito, S. Sebastião, Sagrado Coração de Jesus, Nossa Senhora da Conceição e outras festas, além dos tradicionais eventos da Igreja católica como Quaresma, Semana Santa, Natal, Páscoa, Finados e outros eventos religiosos. Por essa igreja passaram os famosos padres: Pimentel, Luiz Varella, Penafort, Magalhães e os frades capuchinhos, personalidades que deixaram seu nome escrito na história de Abaeté. Portanto, a pequena igreja, em madeira, do Divino Espírito Santo, possuía, também, um grande valor sentimental para a comunidade católica local.

A Igreja do Divino, por ordem dos padres Capuchinhos, foi derrubada, em meio a tristeza e protestos do povo católico em 1948. E Joaquim Mendes Contente, um católico fervoroso, assume a prefeitura de Abaeté e ele proíbe os festejos de São Raimundo Nonato, na Praça do Divino. Esse foi o fim da festa de São Raimundo Nonato, da Confraria de São Raimundo Nonato e quase o fim da Banda Carlos Gomes. E foi o fim da antiga festa do Divino na cidade de Abaeté.


Algumas citações:
Citação de 1908: “A partir de 28 de maio se iniciam os festejos do Divino Espírito Santo, com Rosário do Divino, novena e música no arraial executa pela Philarmônica Henrique Gurjão e com leilões”.
“É hoje, que se efetua neste teatrinho, fundado por um punhado de abnegados, que tomaram sob seus ombros a pesada tarefa de erguer, nesta cidade, um templo dedicado a Virgem Senhora da Conceição, um atraente espetáculo, cujo total produto reverterá em benefício da construção de tão piedosoa obra. Espetáculo organizado pelo Professor Alberto Costa, que terá o comando do novel Corpo Scênico do Theatro, que encenará a obra de Fortunato Braga, intitulada “Na Roça”. Os atores e atrizes são: Risoleta de Lima Araújo, Hilda V. Fonseca, Abel Lobo, Bararaty Franco e Pedro Loureiro. Teatrinho sito na largo da Matriz”.
Ano de 1927:
“Quermesse promovida pela Liga de Torcedoras do Vera Cruz, no alpendre da Igreja, à Praça Nossa Senhora da Conceição, e à noite, na casa de Francisco Assunção dos Santos Rosado, á Rua Siqueira Mendes, uma soiré dançante, para angariar fundos para a construção da nova Matriz de Abaeté”.
“Quermesse e espetáculo à Praça Nossa Senhora da Conceição, promovida pela Liga das Torcedoras do Vera Cruz Sport Club, segunda quermesse, com a Banda Paulino Chaves abrilhantando, com disputa de brindes”.
Às 08:00 horas da noite será a reabertura do Theatro Nossa Senhora da Conceição, com a apresentação da comédia portuguesa “Como se Enganam Mulheres” e “A Bohemia”, com fundo musical. Atores e atrizes: Miloca Matos, Osvaldina, Hilda Fonseca, Bararaty Franco, Antonio e Prudente Araújo, Elpídio Paes e Edgar Borges, pelo Grupo Scênico de Abaeté”.
Citação de 1909: “Festividade do Divino Espírito Santo, a ser realizada na Igreja do Divino, sito na Praça Matriz do Divino Espírito Santo e o professor Horácio de Deus e Silva fazendo parte da organização da festa”.
Citação de 1908: “Novena em honra ao Divino Espírito Santo, com festividade de 28 de maio a 7 de junho, com a presença do Padre . Após a celebração religiosa a Banda Henrique Gurjão executará peças musicais. Haverá leilões de prendas oferecidas ao Divino Espírito Santo”.
Romaria do Divino Espírito Santo, com novenas e música no arraial à cargo da Philarmônica Henrique Gurjão”
Com a derrubada da pequena Igreja do Divino em 1948, por ordem dos padres capuchinhos, a devoção ao Divino Espírito Santo arrefeceu em Abaeté e não mais se celebrou a sua festa.
Frederico da Costa Lima, segundo uma citação documental de 1931, era um dos organizadores da festa do Divino Espírito Santo em Abaeté.

Ademir Rocha, Abaetetuba/Pa, em 23/10/2009.

Nenhum comentário:

Postar um comentário